Pleito deste domingo pode encerrar quase 20 anos de hegemonia do partido Movimento ao Socialismo. Crise econômica e polarização marcam momento decisivo da nação latino-americana.
Evo Morales, impedido de concorrer, pode seguir como ator importante se votos nulos superarem os 20%, segundo analistasFoto: Pablo Rivera/picture alliance/Anadolu
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A Bolívia pode estar diante de uma grande mudança política. Neste domingo (17/08), o país realiza eleições presidenciais e legislativas em um clima que agrupa crise econômica, polarização política e desconfiança nas instituições.
Pela primeira vez em quase duas décadas, o partido Movimento ao Socialismo (MAS) encara uma possibilidade concreta de perder o poder em uma eleição, o que abriria um novo capítulo na história política do país, hoje sob o comando de Luis Arce.
Para José Luis Exeni, diretor de projetos no país da Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata alemão, o atual contexto boliviano é definido por quatro palavras: crise, desconfiança, polarização e insegurança.
A inflação, a escassez de combustível, dólares e produtos básicos, juntamente com a deterioração das instituições, fazem parte de um cenário que tem gerado mal-estar entre a população, aponta ele à DW.
A desconfiança, acrescenta, atinge "todas as instituições do Estado e também da sociedade civil". A isso se soma uma polarização que perdura desde a crise de 2019 e que agora se tornou ainda mais complexa pela implosão interna do MAS, dividido, segundo Exeni, em três grupos.
Evo Morales: de líder histórico a opositor interno
Morales renunciou à presidência em novembro de 2019, após quase 14 anos no poder, quando tentava se reeleger pela terceira vez seguida e em meio a suspeitas de fraude nas eleições ocorridas no mês anterior e à oposição das Forças Armadas.
Ele queria concorrer de novo neste ano, mas foi impedido pelo Tribunal Constitucional. Depois disso, segundo Exeni, ele primeiro "apostou em sabotar as eleições", inclusive seu entorno falou em boicote, mas, no fim, optou por promover o voto nulo.
O ex-presidente segue confinado em seu reduto de Chapare, com processos judiciais em aberto e sem possibilidade de concorrer. Para Moira Zuazo, pesquisadora da Universidade Livre de Berlim, sua permanência como figura central está ligada ao "culto à liderança" que ele mesmo fomentou, em detrimento da pluralidade interna do MAS, o que contribuiu para afastar o partido de suas raízes democráticas.
Mesmo assim, Exeni adverte que Morales poderia continuar sendo um ator importante se o voto nulo superar os 20% nesta eleição. No entanto, se isso não acontecer, "poderemos começar a falar da insignificância" da figura de Evo.
As rusgas com o atual presidente, Luis Arce, começaram em 2021, devido a discordâncias em relação ao futuro do MAS, o que provocou um racha no partido. Mesmo impedido de concorrer no atual pleito, Morales anunciou em março a fundação de uma nova legenda, o Evo Pueblo.
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O desgaste de um projeto
Moira Zuazo lembra que o MAS nasceu como resposta a dois grandes desafios: "A construção de um Estado plurinacional e a inclusão popular para acabar com cidadãos de primeira e de segunda classe". No entanto, ela alerta que o partido "se afastou de suas raízes democráticas" e desenvolveu o chamado "culto à liderança" que reduziu o debate interno e a capacidade de renovação.
O resultado disso é uma profunda divisão que enfraqueceu o atual candidato oficial do partido, Eduardo del Castillo, e abriu espaço para figuras da oposição.
Exeni considera que a Bolívia está diante do "esgotamento do ciclo do MAS como instrumento político". Após a eleição, ele prevê um sistema mais fragmentado, sem um partido predominante, e a necessidade de um governo de coalizão.
As pesquisas apontam o empresário Samuel Doria Medina e o ex-presidente Jorge "Tuto" Quiroga como favoritos para avançar ao segundo turno.
Ambos representam a chamada "velha política" dos anos 1990. Medina aposta em manter o Estado plurinacional e executar uma gestão focada em resolver a crise econômica. Já Quiroga propõe mudanças constitucionais e uma virada mais acentuada em direção ao liberalismo econômico.
Desafios para o próximo governo
Seja qual for o vencedor, a tarefa será hercúlea. A crise econômica exigirá medidas rápidas e de alto custo político. "Todos pressupomos que serão necessárias medidas drásticas na economia para começar a superar a crise", afirma Exeni.
As ações podem implicar em ajustes graduais ou mais bruscos, com o risco de protestos e desgaste precoce de legitimidade.
Zuazo enfatiza que o desafio não é apenas econômico: será fundamental "reconstituir democraticamente" o espaço político, evitando repetir os erros do passado e restaurando a confiança da população.
Repercussões regionais
Uma mudança de governo na Bolívia seria um fato relevante também no mapa político latino-americano, que passaria por uma alternância pacífica após 20 anos.
Zuazo acredita que isso poderia trazer um novo fôlego ao debate sobre a esquerda na América Latina, rompendo a associação automática entre projetos progressistas e práticas autoritárias.
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.