Em crise, Peru vai às urnas com 35 candidatos à Presidência
12 de abril de 2026
País sul-americano sofre com instabilidade política, com oito presidentes em uma década. Nenhum candidato tem mais de 15% das intenções de voto.
Peruanos vão às urnas neste domingo para escolher um dos 35 candidatos a presidente, embora um segundo turno, em junho, esteja praticamente garantidoFoto: Jorge Cerdan/Anadolu/picture alliance
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Os peruanos vão às urnas neste domingo (12/04) para escolher um novo presidente, a nova composição dos 130 assentos da Câmara Federal e, pela primeira vez em 30 anos, um recém-recriado Senado com 60 cadeiras. Dos 31 milhões de habitantes do país, cerca de 27 milhões estão aptos a votar.
Pesquisas apontam que a candidata de direita Keiko Fujimori – filha do ex-ditador Alberto Fujimori – lidera com uma pequena vantagem, seguida de perto por ao menos três adversários: o ultraconservador Rafael López, o empresário de mídia Ricardo Belmont – ambos ex-prefeitos de Lima – e o ex-comediante Carlos Álvarez.
Mas, num cenário congestionado, nenhum deles, porém, tem mais do que 15% das intenções de voto, o que praticamente confirma um segundo turno no dia 7 de junho.
Há um recorde de 35 candidatos, o que gera muitas dúvidas entre os eleitores, a exemplo da comerciante Marlene Jimenez, que não sabe em quem vai votar: "Eu vi a cédula e, sinceramente, me deu dor de cabeça".
As pesquisas também apontam que 13% dos eleitores estão indecisos, o que faz com que um "segundo escalão" de candidatos também não possa ser ignorado, mesmo que determinado candidato tenha apenas cerca de 5% das intenções de voto, segundo Nicolas Watson, da consultoria Teneo.
Combate à corrupção
Um dos temas centrais da campanha eleitoral é o combate à corrupção: atualmente, quatro ex-presidentes estão presos:
Alejandro Toledo (acusado de lavagem de dinheiro), Pedro Castillo (tentativa de golpe de Estado) e Ollanta Humala (corrupção), Martín Vizcarra (corrupção).
Antes deles, Alberto Fujimori cumpriu 16 anos de prisão por violações de direitos humanos e morreu em 9 de novembro de 2024 após ser libertado por razões humanitárias.
Além deles, o ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski chegou a ser detido. Um sétimo, Alan Garcia, cometeu suicídio em 2019 quando estava prestes a ser detido por policiais na sua residência.
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Criminalidade
Nesta campanha, porém, a criminalidade, rivaliza – em muitos casos, até supera – a corrupção como principal preocupação dos eleitores.
Nos últimos anos, o Peru não era um país associado assolado por ondas de violência como países vizinhos, mas homicídios e uma e casos de extorsão aumentaram muito nos últimos anos, afetando principalmente trabalhadores do setor de transportes e pequenos empresários, segundo informações da professora Paula Muñoz, da Universidade do Pacífico, em Lima.
Dados oficiais mostram que os casos de extorsão aumentaram quase 20% somente no ano passado, e as taxas de homicídio atingiram novos recordes.
Essas estatísticas aumentaram também o apoio a respostas mais duras e, consequentemente, populistas, segundo Muñoz, reiterando uma tendência atual da América Latina, onde o crime é melhor combatido – ao menos teoricamente – por líderes radicais, a exemplo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Alguns propõem, por exemplo, o envio de tropas para as ruas das cidades mais violentas, o retorno da pena de morte, a retirada de tribunais internacionais de direitos humanos e a permissão para que magistrados que julgam casos criminais fiquem anônimos, o que traria novamente à tona os chamados "juízes sem rosto", algo que o Peru aboliu em 1997.
Instabilidade constante
O Peru é palco de instabilidade política há quase uma década, já que, nesse período, teve oito presidentes, e nenhum chefe de Estado conseguiu chegar ao fim do mandato.
Em 2021, na última eleição, o enfraquecimento de parte do establishment envolvido em acusações de corrupção abriu caminho para a eleição do populista Pedro Castillo. Mas ele foi removido do cargo pela Câmara em 2022, na esteira de uma tentativa de autogolpe.
Sua sucessora, Dina Boluarte, chegou a figurar entre as líderes mais impopulares do mundo, com apenas 2% de aprovação, e acabou removida do cargo em outubro. Seu sucessor, José Jeri,sofreu impeachment em fevereiro deste ano.
Desde o fim da ditadura militar no Peru, em 1980, apenas 4 dos 11 políticos que cumpriram mandatos à frente da Presidência do país não enfrentaram problemas com a Justiça após deixarem o cargo.
Essas eleições, no entanto, podem tanto marcar uma ruptura com o ciclo de instabilidade, quanto "nos manter presos nele", afirma o analista político Fernando Tuesta.
gb (Reuters, AFP)
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.