A promessa é soluções simples e do retorno a uma sociedade homogênea, apresentando bodes expiatórios fáceis: como líderes populistas em ascensão pelo mundo se nutrem dos medos e inseguranças em seu país.
Eventual vitória da Frente Nacional na França seria perda dramática para democracia na União EuropeiaFoto: Reuters/R. Prata
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O dicionário Duden define populismo (do latim populus) como "política oportunista que procura conquistar a simpatia das massas". Além disso, prossegue a bíblia ortográfica da língua alemã, populismo é um termo de luta na política, com que se acusa o adversário de declarações ou ações excessivamente populares.
Os populistas pretendem falar em interesse "do povo", o que já indica uma postura de oposição à elite. No entanto, quem é "o povo"?
"O povo" versus "o povo"
O slogan "Nós somos o povo!" marcou em 1989 as passeatas de segunda-feira, que precipitaram a do queda regime comunista da Alemanha Oriental. Hoje, porém, ele tem conotações bem diversas.
Enquanto "o povo" conquistou status de herói coletivo após o colapso da República Democrática Alemã (RDA), atualmente desperta medo esse "povo" que vota no partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e pelo Brexit, elege Donald Trump e em breve poderá transformar a ultradireitista Marine Le Pen em presidente da França.
Quando os populistas falam do "povo", estão na verdade se referindo exclusivamente a seus seguidores. Ou, como formulou o britânico Nigel Farage, ex-chefe da legenda Ukip, "the real people": os 52% que votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia. Para o populista, os outros 48% sequer fazem parte do povo "de verdade".
Com outras palavras, também o presidente americano, Donald Trump, repetidamente divide o povo entre "o bom" e "o desimportante". Na Polônia, o presidente do partido governista PiS, Jaroslaw Kaczynski, chegou a tachar os oposicionistas de "poloneses do pior tipo".
Os populistas rejeitam qualquer discurso com resultado aberto, pois já conhecem a resposta "certa". E agem como se tivessem o direito moral exclusivo de representar o país. Em 2002, o chefe de governo húngaro, Viktor Orbán, já dava um exemplo dessa mentalidade: diante da inesperada derrota de seu partido, o Fidesz, ele comentou que não era possível a nação inteira estar na oposição.
Passeata do Pegida em Dresden contra a imigraçãoFoto: picture-alliance/dpa/O. Killing
Por um mundo simples
Embora desde os anos 1990 a ciência se ocupe de perto do fenômeno do populismo, só recentemente seus resultados vêm recebendo atenção. Em face da vertiginosa transformação da antiga ordem política, o publicista Albrecht von Lucke crê que esteja ocorrendo uma contrarrevolução, praticamente em escala mundial.
Para ele, o conflito central é entre os representantes de uma sociedade aberta a mudanças e os protagonistas de uma cultural radical do cerceamento e exclusão, os quais prometem, no fim, o retorno a uma sociedade homogênea.
Além disso, os populistas prometem um mundo mais simples, negando a complexidade do processo político democrático, diagnostica o cientista político Peter Graf Kielmansegg. Soluções simples são sua marca registrada, a suposta resposta a um mundo complicado, em que as velhas certezas não mais existem, sobretudo no mundo do trabalho.
Precariedade emergente
Como indicam as pesquisas de intenção de voto em quase toda a Europa, grande parte da classe operária industrial voltou as costas aos partidos socialistas e social-democratas, tendendo agora para a direita. Seja nos Estados Unidos, Polônia ou Hungria, os trabalhadores – até mesmo os sindicalizados – há muito passaram a votar nos partidos nacionalistas.
Uma causa dessa reorientação radical é a desregulamentação dos mercados de trabalhos e a resultante emergência de um setor de baixos salários. A consequência são milhões de empregos precários, que não permitem aos afetados ganhar mais do que o que o necessário para subsistir.
Diante de tanta carência – tanto objetiva como, acima de tudo, subjetiva – procuram-se bodes expiatórios: a política, as elites, a mídia – e os estrangeiros. É a nova sociedade do declínio social que arrisca uma revolta tendo seu voto como arma.
Nem advertências, protestos ou humor bastaram até agora para deter o avanço de TrumpFoto: S. Elkin
Retorno a um passado desconhecido
Ninguém descreveu essas circunstâncias melhor do que o francês Didier Eribon no romance Retour à Reims (Retorno a Reims), de 2009. Em sua narrativa biográfica, o filósofo e sociólogo visita sua cidade natal depois de 20 anos vivendo em Paris, e registra, entre a família, os velhos amigos, os vizinhos, uma transformação dramática do clima espiritual, do senso de grupo.
Trabalhadores que votam no Partido Comunista são a minoria, a ultradireitista Frente Nacional é a legenda dominante; a solidariedade com os companheiros de trabalho estrangeiros é quase nula. "O que sempre se pensara, é agora dito, em tom alto e ameaçador", resume Eribon.
O clima em Reims se tornou hostil, os excluídos da sociedade se levantam e exigem uma igualdade brutal, "como se quisessem se vingar pela vida boa dos outros", segundo descreveu um resenhista.
O que é populismo?
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E Reims está por toda parte: no Rust Belt do nordeste americano, nas antigas regiões industriais do centro e norte da Inglaterra, e também – não só – no leste da Alemanha. Já há algum tempo os sociólogos identificaram o tipo humano predisposto ao populismo: do sexo masculino, alemão oriental, com mais de 50 anos e bastante instruído.
Com 20 e poucos anos na época da queda do Estado comunista da RDA, esse indivíduo era velho demais para um radical recomeço profissional ou de formação. Incapaz de se adaptar às novas condições políticas e econômicas do capitalismo, ele ficou para trás, pelo menos das próprias expectativas: uma existência frustrada, que agora se expressa através de xenofobia e da associação à AfD.
"Por que me ufano de ser..."
Quem pensa assim, busca uma nova "terra natal": a nação. Está em alta a redescoberta da identidade nacional como sinal de superioridade diante dos demais, como espaço protetor para a realização do próprio potencial, supostamente sacrificado em meio à concorrência global.
O fenômeno ocorre na Polônia, na Hungria, mas sobretudo nos EUA de Donald Trump. A ênfase exagerada na própria nação ("great again") não hesita diante do fechamento de fronteiras, do protecionismo econômico e de um clima de perigo para os estrangeiros.
Além disso, os partidos populistas desabonam todo tipo de aliança supranacional: a "salada de letrinhas – ONU, Otan, UE – e suas décadas de conquistas no nivelamento de conflitos e de interesses interestatais é alvo preferencial dos ataques dos populistas. Se depender deles, é a nação que se ufana de si mesma.
Donald Trump estremeceu o cenário político em seus primeiros dias como presidente dos EUA com uma série de decretos e memorandos impactantes. Entenda a diferença e o significado de cada um deles.
Foto: picture-alliance/dpa/Sachs
Forma rápida de cumprir promessas eleitorais
Com menos de duas semanas na presidência, Donald Trump emitiu 17 medidas executivas. Embora este número em si não seja significativo – no mesmo período Barack Obama assinou praticamente o mesmo número de ordens – o conteúdo dos decretos de Trump é. Parece que o novo presidente dos EUA quer implementar muitas de suas promessas de campanha – incluindo as controversas - o mais rápido possível.
Foto: Reuters/K. Lamarque
O que são ordens executivas e memorandos?
As ações executivas (EA) permitem que o presidente dos EUA dê ordens que não precisam de aprovação do Congresso a agências governamentais, contornando o processo legislativo e acelerando sua implementação. Ordens executivas são uma forma mais abrangente de EA que muitas vezes lidam com diretrizes organizacionais maiores, enquanto memorandos presidenciais ordenam agências específicas a fazer algo.
Foto: picture-alliance/CNP/A. Harrer
Enfraquecer Obamacare (ordem executiva)
A primeira ordem executiva assinada por Trump foi uma para retardar partes do Affordable Care Act (Obamacare) para "minimizar encargos regulatórios". Enquanto Trump sozinho não pode revogar a legislação instituída por Obama, ele pode minar a implementação do programa de saúde enquanto a maioria republicana no Congresso se prepara para revogá-lo.
Foto: Reuters/J. Rinaldi
Retirar subsídio para aborto (memorando)
Trump reinstituiu uma política que impede o financiamento federal para ONGs que fornecem aconselhamento sobre aborto e defendem o direito ao aborto. Essa diretriz tem uma longa história: foi inicialmente instaurada pelo republicano Ronald Reagan, rescindida pelo democrata Bill Clinton, reinstituída pelo republicano George W. Bush, antes de ser reativada pelo democrata Barack Obama.
Foto: REUTERS/A. P. Bernstein
Deportação de imigrantes (ordem executiva)
Trump ordenou que os agentes de imigração expandissem o escopo das deportações. Ele visa retirar concessões federais das chamadas cidades-santuário (onde imigrantes sem documentos não são processados) e que imigrantes suspeitos de um crime sejam detidos, mesmo sem acusação. Trump pretende contratar 10 mil novos agentes e publicar um relatório sobre crimes cometidos por imigrantes sem documentação.
Foto: picture alliance/AP Images/G. Bull
Construir o muro (ordem executiva)
Numa ordem executiva assinada em 25 de janeiro, Trump solicitou "a construção imediata de um muro físico", a fim de proteger a fronteira entre México e EUA. Ele também se referiu aos imigrantes sem documentos como "deportáveis", dizendo que o Poder Executivo deve "acabar com o abuso das disposições de liberdade condicional e refúgio usadas para impedir a remoção legal de estrangeiros deportáveis."
Foto: Getty Images/AFP/S. Huffaker
Veto a muçulmanos (ordem executiva)
Trump assinou este controverso decreto em 27 de janeiro. Ele proibiu pessoas de sete países de maioria muçulmana de entrar nos EUA por três meses, suspendeu indefinidamente o programa de refugiados sírios e suspendeu a admissão de refugiados por 120 dias. Protestos contra a ordem estouraram em todo o país e até mesmo os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham criticaram a medida.
Foto: DW/M. Shwayder
EUA deixam TPP (memorando)
Não foi nenhuma surpresa Donald Trump ter abandonado a Parceria Transpacífico (TPP). Durante a campanha, ele criticou frequentemente o TPP e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), afirmando que outros países se beneficiaram desses acordos comerciais, em detrimento dos EUA. O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, disse que Trump prefere lidar individualmente com os países.
Foto: Getty Images/AFP/
Sinal verde para oleodutos (memorando)
Três memorandos diferentes – um sobre a construção do oleoduto Dakota Access, outro sobre a continuação da construção do oleoduto Keystone e uma terceira ordem sobre o uso de materiais americanos nas obras – foram emitidos no quarto dia de Trump no governo. Obama tinha negado licenças para ambos os oleodutos após protestos em massa de ambientalistas, que temem o impacto de eventuais vazamentos.
Foto: REUTERS/S. Keith
Expandir as Forças Armadas (memorando)
Trump cumpriu sua promessa eleitoral de investir num Exército maior ao assinar na sua primeira semana no cargo um memorando que pede mais tropas, navios de guerra e um arsenal nuclear modernizado. Quatro dias antes ele ordenou congelar a contratação de civis em agências federais por até 90 dias, para que seu governo possa desenvolver um plano de longo prazo para encolher a força de trabalho.
Foto: Reuters/K. Pempel
Steve Bannon no NSC (memorando)
Trump ordenou uma revisão do Conselho de Segurança Nacional (NSC) para elevar o papel de Stephen Bannon. Trump retirou vários membros do painel responsável por tomar decisões de política externa, enquanto seu estrategista-chefe – conhecido por opiniões de extrema direita – servirá no comitê geralmente preenchido por generais. Isso rompe com a norma de longa data de não nomear políticos para o NSC.
Foto: pciture-alliance/AP Photo/E. Vucci
Desregulamentações (executiva e memorando)
Trump quer que agências federais eliminem ao menos duas normas para cada nova regulamentação e ordenou o congelamento de regulamentações federais, até que um chefe de departamento designado por ele possa revisá-las. Ele também pediu pela rápida aprovação de "projetos de infraestrutura de alta prioridade". Na campanha, Trump disse que o "excesso de regulamentações" feriu o comércio americano.
Foto: Getty Images/AFP/M. Ralston
Precedente presidencial
Obama emitiu um total de 277 ordens executivas – uma média de quase três por mês e um pouco menos do que seu antecessor, George W. Bush (291). Obama assinou 644 memorando presidenciais para contornar imposições no Congresso – um precedente do qual Trump aparenta estar tirando proveito, embora a maioria em ambas as Casas do Congresso seja republicana.