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Senhorita não!

29 de setembro de 2011

Segundo líderes do movimento, objetivo é estabelecer equiparação com os homens, que não precisam explicitar estado civil em formulários. Na internet, protesto foi classificado como "ridículo" por alguns usuários.

Foto: www.madameoumadame.fr

Ao abrir uma conta em um banco na França, a primeira pergunta que se faz à futura cliente é: "Você é casada?". Caso a resposta seja negativa, ela será automaticamente classificada como mademoiselle, palavra francesa equivalente a "senhorita" em português.

O termo, que para algumas mulheres pode soar gentil, para outras vem sendo motivo de protesto no país. Feministas lançaram uma campanha na última terça-feira (27/09) para acabar com o tratamento dispensado às moças solteiras francesas – independentemente da idade.

O símbolo do protesto, expresso no site www.madameoumadame.fr, é um recorte de um formulário com o termo mademoiselle riscado, no qual sobram apenas as opções madame e monsieur. "Mademoiselle não é um agrado, nem deve ser obrigatório", pedem as feministas no site.

"Pode parecer um detalhe, mas é muito simbólico no que diz respeito à desigualdade entre os sexos", afirma Julie Muret, da organização Osez Le féminisme (Ouse o feminismo), uma das entidades criadoras do protesto.

Ela conclama as francesas a boicotarem o tratamento, riscando-o de formulários ou, simplesmente, ignorando-o. "Esta obrigação força as mulheres a darem informações sobre sua situação pessoal e familiar. Já os homens, que não precisam marcar mondamoiseau ('senhorito'), ficam mais resguardados", explica.

Feministas defendem boicote ao tratamento em formuláriosFoto: picture-alliance/dpa

Há quem goste

Nem todas as francesas concordam com as feministas do país. Em acalorados debates virtuais sobre o tema na página de relacionamentos Facebook, várias mulheres colocaram-se favoráveis ao controverso termo. "Eu acho muito bom ser chamada de mademoiselle. Não acho que seja depreciativo, pelo contrário, é um sinal de juventude", escreveu Alexandra, 26 anos.

"Chamar as mulheres de madame por acaso vai avançar a causa das mulheres na França e em todo o mundo? Este debate é ridículo e desnecessário. Vão chamar de madame meninas de 15 anos? Há outras causas sérias para serem defendidas!", escreveu um usuário na página do movimento.

Para Olivia Cattan, do grupo Parole de Femmes (Palavras de mulheres), a questão não deve, porém, ser uma prioridade . "Isso não vai resolver questões femininas como violência e precariedade", disse a ativista.

Para as líderes do protesto, porém, mademoiselle lembra a época em que as mulheres passavam da responsabilidade do pai para a do marido. "Indiretamente, ele diz que nós ainda não estamos prontas quando não estamos casadas", reclama Laurence Waki, autora do livro Madame ou mademoiselle.

A campanha foi lançada em um momento em que o movimento feminista na França ganhou força a partir do recente caso de agressão sexual envolvendo o ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, o francês Dominique Strauss-Kahn.

Documentos inválidos

No Brasil, salvo alguns raros locais onde se pede para colocar a informação "senhora" ou "senhorita" – como em sites de algumas companhias aéreas – a classificação não é obrigatória em empresas nem em órgãos públicos. A informação pedida é sobre o estado civil, mas a pergunta vale tanto para homens, quanto para mulheres.

Na França, porém, ainda é comum que mulheres precisem se classificar administrativamente como mademoiselle ou madame . E quem marca errado no quadrinho ainda se arrisca a ter seu documento considerado inválido, por conter informações falsas. Em 2007, foi julgado um caso na autoridade francesa antidiscriminação em que uma prefeitura queria cobrar 145 euros de uma mulher para colocar madame  em vez de mademoiselle nos documentos do carro.

Segundo as feministas, não existe um fundamento legal para a diferenciação. "As administrações precisam se lembrar de que há mais de 40 anos as mulheres não podem ter os documentos retidos porque optaram pelo título de 'madame'", reclama uma feminista. Ainda assim, segundo ela, as mulheres continuam tendo dificuldades em impor seus direitos.

Inscrito na lei francesa no início do século 19, ainda nos tempos de Napoleão, o mademoiselle é largamente usado no cotidiano.

MSA/afp/dpa
Revisão: Roselaine Wandscheer

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