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Filme explora complexa relação entre Thomas e Erika Mann

12 de maio de 2026

Com estreia no Festival de Cannes, "Fatherland", do polonês Pawel Pawlikowski, acompanha o Prêmio Nobel de Literatura e sua filha, interpretada por Sandra Hüller, numa viagem pela Alemanha destruída do pós-Guerra.

Sandra Hüller e Hanns Zischler numa cena de "Fatherland"
No filme, Erika Mann (Sandra Hüller) acompanha o pai, Thomas Mann (interpretado por Hanns Zischler), numa viagem pela Alemanha em 1949Foto: Agata Grzybowska/Mubi/AP Photo/picture alliance

Fatherland, do cineasta polonês Pawel Pawlikowski, é um dos filmes mais aguardados entre os 21 que disputam a prestigiosa Palma de Ouro em 2026.

Pawlikowski retorna a Cannes após vencer o prêmio de melhor diretor do festival em 2018 com Guerra fria. O drama romântico histórico, ambientado entre a Polônia comunista e Paris, acabou conquistando cinco dos principais prêmios do European Film Awards e recebendo três indicações ao Oscar, incluindo a de melhor direção.

O novo filme de Pawlikowski é outra exploração do início da Guerra Fria. Ele se estrutura como um road movie no qual o escritor Thomas Mann (interpretado por Hanns Zischler) e sua filha Erika (Sandra Hüller), também escritora, viajam num Buick de Frankfurt, na Alemanha Ocidental, até Weimar, na Alemanha Oriental, em 1949.

Thomas, Katia Mann e Erika Mann no exílio nos EUAFoto: dpa/picture-alliance

De acordo com a sinopse do filme, Fatherland também explora "temas de identidade, culpa, família e amor, em meio ao tumulto e à confusão moral da Europa pós-Guerra." Na Alemanha, a trama dessa obra biográfica ajudou a renovar o interesse na icônica família Mann.

Thomas Mann nasceu numa abastada família de comerciantes de Lübeck, no norte da Alemanha, em 6 de junho de 1875. Ele era o segundo de cinco filhos da brasileira Julia Mann (nascida Julia da Silva Bruhns em Paraty, no Rio de Janeiro) e do comerciante Thomas Johann Heinrich Mann. O pai faleceu quando Thomas tinha 16 anos. Três anos mais tarde, a família se mudou para Munique.

O legado icônico de Thomas Mann

Thomas Mann, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1929, fugiu da Alemanha em 1933 devido à ascensão dos nazistas ao poder. Durante seus anos de exílio (1933–1952), que passou principalmente na Suíça e nos Estados Unidos, tornou-se uma voz de destaque contra o nazismo.

O autor de romances como Os Buddenbrooks (1901) e A Montanha Mágica (1924) tornou-se um crítico proeminente do regime instaurado pelo ditador Adolf Hitler e firmou-se como um importante intelectual democrático do século 20.

Muito contribuiu para isso a série de discursos "Deutsche Hörer!" (Ouvintes alemães!), transmitida pela BBC entre 1940 e 1945 durante seu exílio nos Estados Unidos e que documentam seu trabalho de resistência.

Um vínculo especial com sua filha Erika

Quando Thomas Mann se tornou pai, em 1905, ele expressou abertamente sua decepção por seu primogênito ser uma menina: um menino teria sido "mais poético, mais uma continuação, um novo começo de mim mesmo", escreveu em carta ao irmão mais velho, o também escritor Heinrich Mann.

"Ainda assim, essa filha, entre seus seis filhos, tornou-se a mais importante para os empreendimentos poéticos e políticos do pai", afirma Irmela von der Lühe, autora de uma biografia sobre Erika Mann.

De fato, Erika desempenhou um papel decisivo ao pressionar o pai a se posicionar publicamente contra o regime nazista já no início de 1936. Embora ele fosse um conhecido opositor do nazismo desde 1930, o escritor permanecera em silêncio público após a ascensão de Hitler. Já Erika bateu de frente com os nazistas desde muito cedo.

Erika ameaçou romper com o pai caso ele não abandonasse sua postura cautelosa. Numa carta de agosto de 1933 ao seu irmão Klaus, de quem era muito próxima, queixou-se dos seus esforços de convencer o pai ao afirmar que ambos estavam "incumbidos de uma grande responsabilidade na figura do nosso pai menor de idade."

Filha dos vibrantes anos 1920 e figura cultural talentosa em Berlim, Erika Mann abraçou o estilo de vida boêmio e subversivamente liberal da época – até perceber que sua geração deveria ter investido mais energia na defesa dos direitos e das liberdades garantidas pela constituição democrática da República de Weimar.

No ano anterior à tomada de poder por Hitler, Erika foi denunciada pela milícia paramilitar nazista por ter recitado publicamente um poema pacifista. Isso afetou sua carreira como atriz e fortaleceu suas convicções antifascistas.

Filha dos vibrantes anos 1920 e figura cultural talentosa em Berlim, Erika Mann abraçou o estilo de vida boêmio e subversivamente liberal da épocaFoto: Public Domain

Em janeiro de 1933, Erika Mann foi uma das fundadoras, em Munique, do teatro de cabaré político Die Pfeffermühle (O Moedor de Pimenta). Ela escreveu grande parte do material, e as peças satíricas eram frequentemente antifascistas. Após apenas dois meses, os nazistas fecharam o grupo e forçaram seus integrantes ao exílio.

Como a mãe de Erika, Katia Mann, era oriunda de uma família judia de industriais, os filhos da família Mann eram considerados judeus pelas leis raciais nazistas.

No exílio, Erika Mann construiu uma segunda carreira de sucesso como repórter e escritora, tentando mostrar ao mundo com que rapidez a democracia alemã estava desmoronando sob Hitler. "Isso é algo que sempre considerei significativo nela e que, infelizmente, vejo como novamente muito atual hoje", afirma Von der Lühe.

O que aconteceu em 1949

Quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha estava em ruínas e ideologicamente dividida: em 7 de outubro de 1949 foi oficialmente criada a República Democrática Alemã (RDA), nome oficial do Estado comunista na zona de ocupação soviética, no leste do país dividido.

Thomas Mann já havia anunciado, após a guerra, que não voltaria a viver em seu país de origem. Em seus escritos, ele argumentava que todos os alemães compartilhavam responsabilidade pelos crimes nazistas; essa teoria da culpa coletiva alemã causava estranhamento entre aqueles que haviam permanecido no país. Afinal, a família Mann não vivera confortavelmente no exílio enquanto tantos outros sofreram sob Hitler?

A primeira vez em que Thomas Mann retornou à Alemanha, depois do seu exílio, foi em 1949, por ocasião das comemorações dos 200 anos do nascimento de Johann Wolfgang von Goethe. Ele foi convidado a receber o Prêmio Goethe em Frankfurt, na Alemanha Ocidental, enquanto a cidade de Weimar, na Alemanha Oriental, lhe concedeu cidadania honorária e o Prêmio Nacional Goethe.

Frankfurt, então no lado ocidental, era a cidade natal de Goethe, ao passo que Weimar, no lado oriental, era a cidade onde ele viveu a maior parte da sua vida e escreveu suas obras da maturidade, como o Fausto.

No seu discurso, proferido em ambas as cidades, Mann afirmou não reconhecer divisões ideológicas ou zonas de ocupação: "Minha visita é para a Alemanha, para a Alemanha como um todo".

No seu discurso em Frankfurt, Thomas Mann afirmou: "Minha visita é para a Alemanha, para a Alemanha como um todo"Foto: dpa/picture alliance

Segundo rompimento entre pai e filha

Erika foi contra essa visita. Von der Lühe observa que o convite foi o pivô do segundo grande rompimento entre Erika e Thomas Mann, após o desacordo sobre a postura pública contra os nazistas, em 1936.

Erika dizia que o pai não deveria ir "a um país onde havia sido tão violentamente atacado pela mídia nos últimos anos". Esses ataques incluíam cartas ameaçadoras de alemães ocidentais, e a visita de 1949 ocorreu sob proteção policial.

Para complicar ainda mais a situação, Klaus Mann havia cometido suicídio havia apenas algumas semanas. Segundo filho de Thomas e Katia Mann, Klaus também era um escritor antifascista comprometido, e ele e Erika eram extremamente próximos.

Entre os fatores que contribuíram para a profunda desilusão de Klaus Mann estava a forma como ele havia sido tratado nos Estados Unidos, onde a família Mann era suspeita de ser comunista. Erika temia que a celebrada visita do pai a Weimar fosse interpretada como uma legitimação do comunismo.

Embora Fatherland, de Pawel Pawlikowski, seja baseado em figuras históricas, sua premissa é completamente fictícia. Durante a bem documentada viagem de 1949 de Frankfurt a Weimar, Thomas Mann foi acompanhado por sua esposa, Katia. Erika não os acompanhou – porque havia decidido deliberadamente boicotar a visita ao país natal.

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