Conflitos, mudanças climáticas e crises econômicas ampliaram a fome no continente africano em 2024, aponta relatório da ONU. Solução envolve mais financiamento público e políticas alimentares nos países afetados.
Embora muitas comunidades rurais dependam da economia agrícola, setor sofre falta crônica de financiamento Foto: Badru Katumba/AFP/Getty Images
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Um relatório global divulgado na segunda-feira (28/07) estimou que quase 60% das pessoas que passarão fome no mundo até 2030 estarão na África.
O documento, elaborado por cinco agências das Nações Unidas, afirma que cerca de 307 milhões de moradores do continente africano – mais de um a cada cinco – sofria de desnutrição crônica em 2024, o que significa que a fome é hoje mais prevalente do que há 20 anos.
O cenário na África vai na direção contrária do total global, que registrou queda na home em 2024. Cerca de 673 milhões de pessoas, ou 8,2% da população mundial, passaram fome no ano, contra 8,5% em 2023, segundo o relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo.
"A extrema insegurança alimentar está sendo impulsionada por conflitos, e temos (hoje) o maior número de conflitos da última década", disse Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), à DW.
Inflação dos alimentos
A diferença entre a inflação global dos preços dos alimentos e a inflação geral atingiu seu pico em janeiro de 2023, o que aumentou o custo da comida e afetou mais fortemente os países de baixa renda, segundo o relatório.
Os ganhos de produtividade na produção de alimentos não estão acompanhando o alto crescimento populacional e os impactos dos conflitos, das condições climáticas extremas e da inflação no continente africano.
Além disso, conflitos em países como o Sudão e a República Democrática do Congo levaram as pessoas a situações extremas.
"A fome alimenta a instabilidade futura e prejudica a paz", disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em discurso transmitido por videoconferência na Cúpula dos Sistemas Alimentares, na Etiópia, na segunda-feira.
Muitos países africanos dependem de ajuda alimentar externa, que ficou mais escassa com recentes cortes de financiamentoFoto: Privilege Musvanhiri/DW
Alguns países africanos têm sido também prejudicados pelo alto endividamento, que especialistas descrevem como um obstáculo aos gastos públicos com alimentos.
"Muitos países africanos estão lutando para pagar suas dívidas", disse Lario à DW, acrescentando que o pagamento de juros altos consome de 10% a 25% dos gastos públicos.
"Isso está claramente desviando grande parte do investimento potencial. Queremos apoiar muitos desses países com alívio da dívida ou do pagamento de juros da dívida", disse.
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Custo da alimentação saudável
Segundo o relatório, o percentual e o número de pessoas sem condições de pagar por uma alimentação saudável diminuíram significativamente na Ásia, América Latina, Caribe, América do Norte e Europa.
Mas, em contraste, aumentou em toda a África, de 64,1% em 2019 para 66,6% em 2024, um aumento de 864 milhões para 1 bilhão de pessoas.
Em alguns países, como a Nigéria, a inflação afetou em especial os alimentos básicos ricos em amido e nos óleos, que constituem o núcleo da alimentação das famílias mais pobres, e tais aumentos podem comprometer a segurança alimentar e a nutrição.
Seca comprometeu a segurança alimentar em países como o ZimbábueFoto: Privilege Musvanhiri/DW
"Onde a alimentação é menos acessível, as taxas de desperdício e atraso no crescimento das crianças são simultaneamente mais altas", disse Tendai Gunda, nutricionista de saúde pública, à DW.
Ela acrescentou que a dinâmica dos preços e da renda é um hoje um motivo dominante que explica a desnutrição, a subnutrição, a deficiência de micronutrientes e as doenças não transmissíveis relacionadas à alimentação.
Que medidas os governos devem tomar?
Organizações de segurança alimentar exortaram os governos a aplicarem mais vontade política, forte financiamento público e planos de desenvolvimento para alcançar a autossuficiência alimentar.
"É importante que mais países se concentrem em ficarem autossuficientes, para que muitos dos pequenos agricultores não apenas produzam, mas também possam vender seus produtos nos mercados", disse Lario, presidente do FIDA. "Investimentos seriam fundamentais se quisermos combater tanto a pobreza como a fome nas áreas rurais".
Nutricionistas também instaram os governos a classificar as cadeias de abastecimento agroalimentares como serviços essenciais e a manter corredores comerciais intra-africanos abertos. "A governança nutricional deve ser apoiada por meio do financiamento de conselhos multissetoriais de alimentação e nutrição", disse Gunda.
Ela afirmou ainda que os governos devem ampliar os direitos das mulheres ao uso da terra e ao financiamento, políticas que comprovadamente melhoram a saúde infantil e materna.
A maioria do que se coloca no prato diariamente procede de lugares espalhados pelo mundo. Um estudo do Centro Internacional para a Agricultura Tropical (CIAT) identificou a origem de alimentos considerados globais.
Foto: picture-alliance/Ch. Mohr
Manga, verde, amarela ou rosa – e asiática
Ela é tropical e parece bem brasileira, mas originalmente surgiu no Sul da Ásia. A manga, assim como o coco, foi trazida para o Brasil com a colonização portuguesa e se adaptou bem ao clima. Ela faz parte da dieta de alimentos não nativos, que vem crescendo no mundo em consequência de preferências culturais, desenvolvimento econômico e urbanização, conforme comprovou o estudo do CIAT.
Foto: DW/A. Chatterjee
Arroz para meio mundo
O arroz vem originalmente da China mas virou item básico da dieta de mais da metade da população mundial. A produção de cada quilo exige de 3 mil a 5 mil litros de água. Em alguns países produtores, a contaminação por arsênico dos lençóis freáticos é tão forte, que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertou para as consequências do consumo do cereal.
Foto: Tatyana Nyshko/Fotolia
Trigo nosso de cada dia
O trigo já era cultivado há mais de 7 mil anos na região do Mar Mediterrâneo. Na forma de pão ou de outras massas, como o macarrão, é um dos alimentos mais importantes do mundo. Cultivado em enormes campos de monocultura, o cereal é também usado para alimentar animais. Os campeões do cultivo são China, Índia, Estados Unidos, Rússia e França.
Foto: Fotolia/Ludwig Berchtold
Milho, dos astecas aos transgênicos
Originário do Centro do México, o milho hoje é plantado em todos os continentes. Apenas 15% da safra vai parar nos pratos, pois a maior parte serve como ração para animais. A indústria o aproveita, ainda, para fabricar xarope de glucose e produzir combustível. Nos Estados Unidos, cerca de 85% da produção é de milho transgênico, e outros países vão pelo mesmo caminho.
Foto: Reuters/T. Bravo
Batata, dos Andes para a Europa
As batatas consumidas hoje em dia são variações de espécies silvestres dos Andes, na América do Sul. Só há cerca de 300 anos o tubérculo passou a ser cultivado em grande escala na Europa, sendo fundamental na dieta de países como a Alemanha e Irlanda. Atualmente, porém, o cultivo da batata no continente está em declínio, enquanto cresce nos maiores centros de produção: China, Índia e Rússia.
Foto: picture-alliance/dpa/J.Büttner
Açúcar, de cana ou beterraba
A cana-de-açúcar vem do Oeste da Ásia, embora não se saiba exatamente de onde. Já há mais de 2.500 anos era usada para adoçar. O Brasil é atualmente o principal produtor, com grande parte da safra destinada ao bioetanol, também para exportação. A colheita é um trabalho árduo e, em geral, mal pago. O açúcar de cana é mais barato no mercado mundial do que o de beterraba, originário da Europa.
Foto: picture-alliance/RiKa
Banana, a preferida global
Cheia de vitaminas, a banana engorda menos do que reza sua fama. Fruta preferida em escala mundial, ela tem origem no Sudoeste Asiático. Hoje é cultivada principalmente na América Latina e Caribe, a custos tão baixos que saem mais baratas na Alemanha do que as maçãs cultivadas no próprio país. As condições para os trabalhadores rurais costumam ser ruins e há uso intensivo de pesticidas.
Foto: Transfair
Café, prazer com reflexos sociais
Procedente da Etiópia, o café é a segunda bebida mais consumida e principal fonte de renda de cerca de 25 milhões de produtores no mundo. Contando-se as famílias, são 110 milhões de pessoas dependentes das flutuações do mercado mundial. Contudo vem ganhando espaço a negociação por cooperativas e empresas de comércio justo. Mais de 800 mil pequenos agricultores já aderiram a esse sistema.
Foto: picture-alliance/dpa/N.Armer
Chá, relíquia colonialista
O chá vem da China e era servido aos imperadores. Tirando a água pura, é a bebida mais consumida do planeta: a cada segundo, mais de 15 mil xícaras são ingeridas. Considerado bebida nacional na Inglaterra, o chá ainda hoje é produzido principalmente nas antigas colônias do Império Britânico, como o Quênia, Índia e Sri Lanka. As condições do trabalho no campo são catastróficas.
Foto: DW/Prabhakar
Cacau, presente dos deuses
Os astecas, na atual América Central, usavam os grãos de cacau como moeda e oferenda. Também preparavam com eles uma bebida que diziam vir dos deuses. Não é difícil de acreditar: hoje o chocolate é amado no mundo inteiro. Produzido numa estreita faixa próxima ao Equador, o cacau sofre flutuações de preço no mercado mundial que afetam duramente os pequenos agricultores.