1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Futuro do Irã pós-Khamenei depende da Guarda Revolucionária

1 de março de 2026

Morte de líder supremo deixa o Irã numa encruzilhada e pode fortalecer ainda mais a força paramilitar que é considerada o principal pilar do regime, acirrando militarização do país.

Parlamentares no Irã vestidos em uniforme da Guarda Revolucionária; foto do dia 1º de fevereiro de 2026
Guarda Revolucionária é influente no Irã; diversos de seus veteranos e comandantes são membros do ParlamentoFoto: Icana/ZUMA/IMAGO

A morte de Ali Khamenei marca um ponto de virada histórico não só para o Irã, mas para toda a região. O líder religioso e político de 86 anos foi morto num ataque aéreo de Israel e Estados Unidos. Agora, um comitê de 88 clérigos xiitas deve decidir sobre sua sucessão, segundo a Constituição.

Entre os possíveis candidatos estão o filho dele, Mojtaba Khamenei, supostamente próximo da Guarda Revolucionária (IRGC); o ex-presidente Hassan Rouhani; e Hassan Khomeini, neto do fundador da República, o aiatolá Khomeini, que liderou o Irã até 1989. 

O ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, disse que o novo líder supremo será escolhido em um ou dois dias.

Nos círculos de oposição, o nome mais conhecido é o de Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979. No entanto, a oposição iraniana é vista como internamente dividida.

Até lá, o governo será tocado provisoriamente por um triunvirato formado pelo presidente do país, Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário e por um representante do Conselho dos Guardiões. 

Mas a verdadeira questão é outra: haverá apenas uma troca de nomes no governo ou uma transformação total do sistema? 

Isso vai depender em grande parte da Guarda Revolucionária , que, apesar da morte de seu comandante, Mohammed Pakpour, ainda é considerada o principal pilar do regime.

Quais as chances de a Guarda Revolucionária abandonar o regime?

Para a cientista política Bente Scheller, da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde da Alemanha, o assassinato deliberado de Khamenei é algo sem precedentes por se tratar de um chefe de Estado. 

Ela lembra que o Irã vinha se preparando para a sucessão devido à idade avançada de Khamenei, mas que as circunstâncias da morte fazem com este seja um "momento muito delicado" do ponto de vista político e do direito internacional.

Ao anunciar a morte de Khamenei, o presidente americano, Donald Trump, ameaçou os membros da Guarda Revolucionária e outras forças de segurança com a morte caso eles não depusessem as armas e renegassem o regime.

Para a especialista em Oriente Médio Hanna Voss, da Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata da Alemanha, a ameaça mostra que Trump "não entende realmente a lógica do regime iraniano e de todo o seu aparato de segurança". 

"Não acredito que a Guarda Revolucionária vá se deixar abalar por uma ameaça como essa", afirma.

Ela diz que não está claro o que eles poderiam ganhar, mas está muito claro o que perderiam: poder, influência e recursos econômicos significativos. O aparato é grande – a IRGC possui seu próprio serviço de inteligência, que por sua vez mantém estruturas próprias, além de milícias dentro e fora do país –, e até agora não houve desertores relevantes. Consequentemente, a probabilidade de uma retirada voluntária é muito baixa.

O que acontece agora?

O que acontecerá nos próximos dias depende, na avaliação de Scheller, fortemente de Washington, "com o que satisfizer Trump". Neste domingo, o presidente americano afirmou que foi procurado pelo conselho interino iraniano e disse estar aberto a retomar as negociações. É possível que ataques militares pontuais continuem, por exemplo, contra o programa balístico ou nuclear. Scheller, portanto, teme novos confrontos e contra-ataques iranianos.

Voss, por sua vez, considera possível um deslocamento estrutural interno. Ela diz que a Guarda Revolucionária é "um aparato totalmente impregnado de ideologia, que ao mesmo tempo funciona como uma estrutura paramilitar", e que por isso poderia desempenhar um papel ainda mais forte no futuro do Irã mesmo após a perda de seu comandante. 

Segundo ela, é possível que a militarização se intensifique, com a perda de importância de instituições governamentais formais e o domínio de órgãos de segurança.

Ainda neste domingo, o Irã nomeou o brigadeiro-general Ahmad Vahidi como o novo comandante da força de elite.

Mudança de regime é improvável

As duas especialistas dizem considerar improvável que haja uma mudança de regime. 

"É mais provável que vejamos uma troca interna dentro desse aparato de poder do que a ascensão da oposição", afirma Scheller. 

Segundo ela, a população demostrou coragem e não precisa de incentivos externos, mas também está descrente de promessas vindas do exterior. 

Como Scheller, Voss também avalia que um possível sucessor seria uma mera substituição da liderança do regime. Atualmente circulam nomes como o do ex-presidente Hassan Rouhani. "Mas isso não significaria uma mudança de sistema, apenas uma troca de liderança." 

Voss, contudo, afirma que a grande maioria da população iraniana deseja uma transformação profunda, de preferência na forma de um referendo sobre o futuro modelo de Estado. Mas isso é algo que depende, em grande medida, do aval da Guarda Revolucionária, que controla não só as armas, mas também a economia e a ideologia. 

Scheller alerta que bombardeios contínuos podem destruir o espaço de manobra política e diz que uma pausa agora poderia ajudar a forçar mudanças no país.

Kersten Knipp Jornalista especializado em assuntos políticos, com foco em Oriente Médio.
Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque