Giorgia Meloni e a linguagem de poder da moda
26 de agosto de 2026
Adepta de tons pasteis e calças largas que cobrem parcialmente seus saltos altos, a primeira mulher a ocupar o cargo de premiê da Itália não consegue escapar do escrutínio sobre sua aparência. Não apenas porque Giorgia Meloni lidera o país considerado a capital mundial da moda.
"A moda é uma linguagem. Ela faz quem a veste se comunicar sem usar palavras", afirmou Michela Bonafoni, professora de moda da Unicollege, em Florença. "Talvez aquilo que você veste esteja muito próximo da sua personalidade. Mas, se quiser transmitir uma impressão diferente de si mesma, também pode fazer isso por meio das roupas. É isso que Meloni faz o tempo todo."
O estilo de vestir de Meloni pode ser interpretado como parte de uma transição política mais ampla: de figura outsider a integrante do establishment. Quando assumiu o cargo, em 2022, sua aparência estava intimamente ligada à identidade política que havia construído como líder do partido de direita Irmãos da Itália, de raízes pós-fascistas. Seu visual era composto por ternos escuros, botas pesadas e uma imagem séria, até combativa.
Entra em cena o "power dressing", que é o ato de se vestir para passar uma mensagem de poder. Surgido nos anos 1970, o conceito ganhou influência na década de 1980, quando a segunda onda do feminismo coincidiu com a entrada de mais mulheres em cargos profissionais e de gestão. O terno tornou-se uma forma de as mulheres sinalizarem autoridade em ambientes de trabalho tradicionalmente masculinos.
O estilista italiano Giorgio Armani desempenhou papel fundamental nesse processo. Sua alfaiataria mais leve e fluida ofereceu uma nova versão do traje de poder, inspirada na moda masculina, mas criando uma linguagem mais feminina de autoridade.
Em suas primeiras aparições públicas oficiais, Meloni frequentemente era vista usando ternos escuros de Armani, numa referência ao tradicional "power dressing" e a um visual que, segundo Bonafoni, transmitia a mensagem: "Estou aqui neste governo, gostem ou não".
Dos ternos masculinos aos tons pastel
Desde então, a aparência de Meloni tornou-se mais suave. Hoje ela costuma surgir com silhuetas amplas e ternos em tons de creme, bege, rosa e outras cores suaves ou pastel. A mudança de estilo também coincide com sua consolidação como figura estabelecida na política europeia, aproximando-se da União Europeia e tornando-se uma apoiadora de destaque da Ucrânia.
Ainda assim, Meloni manteve uma postura conservadora na política doméstica, algo que não foi bem recebido por parte significativa da população, incluindo muitos integrantes da indústria da moda do país. Nenhuma marca de luxo, nem mesmo a Armani, manifestou-se publicamente para vesti-la ou apoiar o uso de suas peças.
Isso não impediu Meloni de usar a moda para ampliar seu apelo junto ao público. "Quando Meloni percebeu que muitos italianos não gostavam de algumas ações de seu governo, começou a usar cores pastel, que evocam compreensão e dizem: 'Sou Giorgia, uma mulher gentil'", avaliou Bonafoni. A pesquisadora também observou que Meloni usa estilistas do selo "Made in Italy" como parte de sua marca de nacionalismo, associando o prestígio deles ao próprio capital político.
No Salone del Mobile, principal evento de design da Itália, realizado em Milão em abril deste ano, Meloni optou por um visual informal: jeans e um blazer bege casual.
"Seu visual dizia: sou descontraída porque sou como vocês, mas também estou exatamente onde quero estar neste momento e neste governo", disse Bonafoni. Segundo ela, esse estilo transmite confiança e se aproxima da imagem mais relaxada adotada por políticas nos Estados Unidos.
Um "uniforme político"
Mas o poder político nem sempre exige um guarda-roupa em constante transformação. Para algumas líderes, a consistência em si pode se tornar uma forma de "power dressing".
A ex-chanceler da Alemanha Angela Merkel desenvolveu um dos guarda-roupas mais reconhecíveis da política contemporânea. Sua fórmula era notavelmente constante: calças e um blazer de três botões, com os casacos aparecendo em uma extraordinária variedade de cores. A própria simplicidade tornou-se uma espécie de uniforme, colocando Merkel, e não suas roupas, no centro das atenções.
"Sua roupa funcionava como uma 'segunda pele', muito próxima de seu caráter, de suas atitudes e das decisões políticas que tomava", disse Bonafoni.
A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher também tinha algo parecido com um uniforme fashion. Sua aparência era cuidadosamente construída: ternos sob medida, pérolas e bolsas formavam uma versão imediatamente reconhecível da autoridade política feminina em sua época.
Hoje, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, oferece outro exemplo de política que usa roupas para transmitir mensagens. Ela frequentemente veste peças produzidas por artesãs mexicanas para demonstrar apoio e solidariedade às comunidades indígenas do país.
Do pai hipster às roupas táticas
Embora as poucas mulheres que ocupam posições de destaque na política mundial sejam submetidas a uma vigilância maior sobre sua aparência, os homens também entendem há muito tempo o poder político da imagem. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, costuma optar por roupas táticas e militares, muito diferentes do tradicional conjunto de terno e gravata usado pela maioria dos líderes mundiais.
Como disse o jornalista ucraniano Illia Ponomarenko à revista Politico no ano passado, isso faz parte de sua mensagem antielitista, que confronta diretamente os líderes com quem se reúne.
"As roupas dele basicamente perguntam: qual é sua prioridade? Salvar vidas ou seguir protocolos sofisticados?", disse Ponomarenko. "Mesmo quando se encontra com reis, ele se veste de uma forma que representa o ucraniano comum envolvido neste esforço de guerra. É uma mensagem que diz: 'Cheguei aos centros do poder como representante do meu povo humilde'."
Da mesma forma, o premiê trabalhista do Reino Unido, Andy Burnham, cujo visual já foi descrito como o de um "pai hipster", escolhe roupas no estilo esporte fino, como camisetas, camisas polo e tênis. Trata-se de uma estratégia de comunicação política que transmite a ideia de proximidade com o cidadão comum.
Quanto a Giorgia Meloni, Bonafoni acredita que o mundo em breve verá outra mudança em seu estilo, à medida que ela passa a ser desafiada pelo político de extrema direita e ex-general do Exército Roberto Vannacci.
"Meloni disse que não quer Vannacci em seu governo, mas seu partido precisará dele em uma coalizão se quiser permanecer no poder", afirmou Bonafoni. "Tenho certeza de que, se e quando Vannacci a desafiar, ela mudará seu estilo novamente, porque terá de se apresentar como alguém ainda mais poderosa."
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