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Guarda Revolucionária põe Irã rumo à ditadura militar

Elina Farhadi
12 de junho de 2026

Desde a morte do líder supremo Ali Khamenei, comandantes da força de elite têm ganhado cada vez mais espaço no alto escalão de ministérios, estatais e órgãos de propaganda.

Soldados da Guarda Revolucionária do Irã devidamente paramentados sentados em avião militar
Após a Guerra Irã-Iraque, a Guarda Revolucionária se tornou cada vez mais presente na vida econômica do Irã Foto: Hossein Zohrevand/Tasnim News Agency/AP Photo/picture alliance

Estaria o Irã à beira de uma transição para uma ditadura militar? Após a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em fevereiro, muitos analistas veem sinais de que o poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) teria assumido o poder e o controle em Teerã.

O cientista político e pesquisador da paz Damon Golriz, da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, na Holanda, resume a questão de maneira sucinta. "Sob a fachada clerical, o centro do poder se deslocou para os quartéis. [O filho de Khamenei, o aiatolá] Mojtaba Khamenei fornece a cobertura ideológica, enquanto a Guarda Revolucionária assume o trabalho real de governar."

Mojtaba Khamenei se tornou o líder supremo do Irã após a morte de seu pai em um ataque aéreo conjunto realizado pelos Estados Unidos e Israel, no início da guerra.

Desde então, cargos de alto escalão em ministérios, empresas estatais e instituições de propaganda vêm sendo sistematicamente preenchidos por comandantes da Guarda Revolucionária. O próprio Mojtaba Khamenei serviu no Batalhão Habib da IRGC durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Essa rede composta pela linha-dura do regime forma atualmente o núcleo da liderança da IRGC e coordena as atividades de inteligência.

Paramilitares por trás das decisões

"Durante a repressão aos protestos de 2009, Mojtaba Khamenei assumiu o comando direto da milícia voluntária Basij, que luta em nome da Guarda Revolucionária, e transferiu as reuniões de segurança para a 'Casa do Líder'", explica Damon Golriz.

A Casa do Líder é um complexo de alta segurança no centro de Teerã onde o líder supremo trabalha com seu gabinete paralelo religioso. Ali Khamenei foi morto no bunker subterrâneo do complexo durante os ataques dos EUA e de Israel.

Aiatolá Ali Khamenei foi morto por bombardeios dos EUA e de Israel no início da guerraFoto: irna

"Embora o poder executivo oficial resida no presidente, ele pode apenas executar as decisões do líder supremo, e não toma nenhuma decisão por conta própria. O poder real agora está nas mãos de Mojtaba Khamenei e de uma rede de militares linha-dura", afirma o especialista.

No entanto, ainda vigora no Irã a doutrina islâmica oficial Velayat-e Faghih – que significa "regência do jurista islâmico" – e o clero como seu representante. A doutrina foi formulada pela primeira vez pelo líder histórico do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1970.

Um aiatolá é um clérigo xiita e jurista islâmico. O novo líder supremo foi eleito em março de 2026, embora não seja de fato um aiatolá. Seu título religioso é Hojatoleslam, um grau abaixo dos aiatolás. O homem de 56 anos nunca proferiu um sermão público. Tampouco participou de uma eleição ou ocupou um alto cargo religioso.

Especialistas suspeitam que sua eleição como líder espiritual possa ter ocorrido devido à forte pressão da Guarda Revolucionária. "A nomeação de Mojtaba Khamenei consolida a realidade de que o cálculo político e o equilíbrio de poder se tornaram o fator decisivo, e não mais a legitimidade religiosa", observou Damon Golriz. "Ele é um líder no papel, mas, na realidade, uma figura puramente decorativa."

Mojtaba Khamenei serviu no Batalhão Habib da Guarda Revolucionária durante a Guerra Irã-Iraque Foto: Morteza Nikoubazl/NurPhoto/IMAGO

Tomada gradual de poder

Após a Guerra Irã-Iraque, a Guarda Revolucionária, fundada poucos anos antes como uma milícia ideológica, se tornou cada vez mais presente na vida econômica do país. Os esforços de reconstrução resultaram em grandes contratos para empresas intimamente ligadas ao grupo paramilitar. Isso deu à Guarda acesso à infraestrutura e aos recursos naturais, que ela transformou em riqueza e controle.

Esses lucrativos negócios paralelos da unidade militar, com seus aproximadamente 190 mil soldados ativos, foram posteriormente legalizados por uma emenda constitucional de 2004.

A Guarda Revolucionária foi então autorizada a assumir o controle de grandes porções de ativos estratégicos. Segundo estimativas, ela controla atualmente cerca de 50% da produção de petróleo do Irã. Dessa forma, esse Exército estruturado conseguiu criar um Estado paralelo autossuficiente.

O analista Faraj Sarkouhi afirma que, desde o início da guerra com o Iraque, a Guarda Revolucionária assumiu um "modelo híbrido de transição": a estrutura tradicional do Estado teocrático permanece como fachada, enquanto a Guarda Revolucionária controla os bastidores.

Sem apoio popular

O povo iraniano, no entanto, está insatisfeito com o sistema. A população jovem, com idade média de 34,5 anos, foi praticamente forçada viver sob o regime Velayat-e Faghih desde a década de 1970. Os conflitos com o Ocidente e a guerra atual alimentam o descontentamento.

Com a economia estagnada, economistas preveem uma contração de 8,8% a 10% do PIB em 2026. A taxa de inflação em algumas partes do país ultrapassa os 80%. Estima-se que entre 22% e 50% dos iranianos já vivam abaixo da linha da pobreza.

"A maioria da população já se distanciou da ideologia dominante em sua vida privada", resumiu Faraj Sarkouhi. "O regime perdeu sua legitimidade política e ideológica há anos."

Guarda Revolucionária conseguiu criar um Estado paralelo autossuficiente no Irã Foto: Vahid Salemi/AP Photo/dpa/picture alliance

Segundo Golriz, cerca de 80% dos iranianos sentem profunda aversão ao sistema. A liderança religiosa reprimiu com violência armada as opiniões dissidentes da geração mais jovem, como, por exemplo, a ideia de que as mulheres não precisariam mais usar o véu islâmico em público.

Em 2022, jovem curda Mahsa Amini, de 23 anos, foi presa pela chamada polícia da moralidade por supostamente não usar o véu corretamente. Sua morte sob custódia policial, em decorrência da violência com que foi tratada, desencadeou uma onda de protestos que durou meses em todo o país.

As próprias instituições estatais já preveem novos protestos, à medida que o descontentamento continua a crescer. Ambos os analistas concordam que o país, em sua nova forma militar-religiosa, não é mais governável. Mas nenhum deles se atreve a prever como o país no Golfo Pérsico e seus 93 milhões de habitantes poderão encontrar o caminho para uma paz duradoura.

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