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Guerra em Gaza gera constrangimento na Berlinale

Publicado 13 de fevereiro de 2026Última atualização 13 de fevereiro de 2026

Transmissão ao vivo de coletiva de imprensa foi interrompida após pergunta sobre a guerra em Gaza. Organização cita "problemas técnicos", e jurados evitam se posicionar sobre o tema.

Diretor alemão Wim Wenders, presidente do júri da Berlinale, durante coletiva de imprensa de abertura do festival
Presidente do júri da Berlinale 2026, Wim Wenders, na abertura do eventoFoto: John Macdougall/AFP

Conhecido como um dos mais políticos festivais de cinema, a Berlinale já está acostumada a controvérsias, mas a primeira deste ano aconteceu antes mesmo da abertura oficial do evento, na noite desta quinta-feira (12/02).

Ainda pela manhã, durante a coletiva de imprensa que apresentou o júri internacional do evento, e que era transmitida ao vivo, o sinal foi interrompido quando um jornalista perguntou o que os jurados achavam da posição da Berlinale e do governo alemão em relação a Gaza.

Estavam presentes na coletiva de imprensa a diretora do festival, Tricia Tuttle, e as sete pessoas que vão selecionar os ganhadores deste ano dos Ursos de Ouro e Prata: o presidente do júri, Wim Wenders, aclamado diretor de Asas do Desejo e Perfect Days; o diretor nepalês Min Bahadur; o ator sul-coreano Bae Doona; o diretor indiano Shivendra Singh Dungarpur; o diretor, roteirista e produtor americano Reinaldo Marcus Green; o diretor roteirista e produtor japonês Hikari; e a produtora polonesa Ewa Puszczynska.

A pergunta sobre Gaza partiu do jornalista e podcaster Tilo Jung. Ele citou um dos comentários anteriores dos jurados sobre como o cinema tem o poder de mudar o mundo, e ressaltou que o festival não acontece no vácuo.

"A Berlinale, como instituição, tem demonstrado solidariedade com os povos do Irã e da Ucrânia, mas nunca com a Palestina, mesmo hoje em dia", observou Jung. "À luz do apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e seu papel como principal financiador da Berlinale, vocês, como membros do júri..."

A transmissão ao vivo foi interrompida antes que ele pudesse terminar o questionamento: "Vocês, como membros do júri, apoiam esse tratamento seletivo dos direitos humanos?"

Festival nega censura e fala em "problemas técnicos"

A interrupção gerou especulações sobre se o festival teria tentado censurar o tema, o que os organizadores negaram.

"Tivemos problemas técnicos com a transmissão pela internet da coletiva de imprensa com o júri internacional nesta manhã", afirmou a assessoria de imprensa da Berlinale em um comunicado, no qual também pede desculpas.

Posteriormente, a gravação completa da coletiva de imprensa foi disponibilizada no site do festival.

Câmeras de outras emissoras registraram as respostas de alguns dos membros do júriFoto: John Macdougall/AFP

"Questão complicada"

"Acho difícil acreditar que tenha sido apenas uma coincidência", diz Jung à DW. Segundo ele, a diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, que conduzia a coletiva de imprensa, inicialmente tentou evitar o assunto antes que alguns membros do júri reagissem de forma tensa, evitando responder diretamente à pergunta.

"Nos questionar sobre isso é um pouco injusto", afirmou primeiro Ewa Puszczynska, produtora do filme Zona de Interesse, que trata do Holocausto. Reconhecendo que já havia falado anteriormente sobre como o cinema "muda o mundo", ela acrescentou: "É claro que tentamos falar com cada espectador, para fazê-los pensar, mas não podemos ser responsáveis pela decisão que eles tomam – a decisão de apoiar Israel ou a decisão de apoiar a Palestina", pontuou Puszczynska.

"Mas há muitas guerras com genocídios, e não falamos sobre isso", continuou ela. "Portanto, essa é uma questão muito complicada e acho um pouco injusto perguntar o que pensamos, como apoiamos ou não apoiamos, se conversamos com nossos governos ou não", finalizou.

É o segundo ano de Tricia Tuttle como diretora da BerlinaleFoto: Liesa Johannssen/REUTERS

Wim Wenders: "Temos que nos manter fora da política"

Wim Wenders concluiu a discussão sobre o tema. "Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política", declarou o diretor alemão.

"O cinema tem um poder incrível de ser solidário e empático", disse ele. "As notícias não são empáticas. A política não é empática, mas os filmes são. E esse é o nosso dever."

A transmissão ficou totalmente fora do ar durante as respostas de Puszczynska e Wenders, mas outras emissoras registraram a discussão.

Além da interrupção na transmissão, Jung considerou as respostas do júri "questionáveis". "Um grande festival de cinema não deveria ter começado assim", disse ele à DW.

Em 2024, Wenders disse à agência de notícias dpa, no tapete vermelho, que gostava do fato de a Berlinale sempre assumir uma posição e que o festival "continuaria fazendo isso no futuro". Na época, o cineasta estava reagindo à decisão da Berlinale de cancelar o convite a cinco políticos do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) para a cerimônia de abertura.

Escritora indiana desiste de participar: "chocada e enojada"

A recusa de Wim Wenders em comentar a guerra em Gaza gerou repercussões negativas dentro da Berlinale.

Nesta sexta-feira (13/02), a autora indiana Suzanna Arundhati Roy anunciou que estava deixando o festival por causa das declarações do diretor alemão. "Ouvir essas pessoas dizerem que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um boquiaberto", declarou a escritora em um comunicado enviado à imprensa.

"É uma forma de encerrar uma conversa sobre um crime contra a humanidade, mesmo quando ele se desenrola diante de nós em tempo real – quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo", acrescentou Roy.

A escritora participaria da mostra clássica do festival com o filme In Which Annie Gives It Those Ones, lançado originalmente em 1989.

A autora classificou o que vem ocorrendo em Gaza como "genocídio do povo palestino pelo Estado de Israel", o que é, segundo ela, "apoiado e financiado pelos governos dos Estados Unidos e da Alemanha" e por outros países europeus, a quem ela chamou de "cúmplices".

"Se os maiores cineastas e artistas de nosso tempo não são capazes de levantar e dizer isso, eles precisam saber que a história vai julgá-los. Estou chocada e enojada", afirmou Roy. "Com profundo pesar, preciso dizer que não participarei da Berlinale."

Acusações de antissemitismo

Nos últimos dois anos, vários cineastas fizeram declarações políticas sobre o conflito em Gaza, e o Festival de Cinema de Berlim enfrentou críticas de diferentes lados sobre como lidou com esse tema.

Por um lado, a Berlinale é apontada como relutante em manifestar solidariedade aos palestinos; por outro, de antissemitismo por abrir espaço a vozes dissidentes.

Críticas às políticas de Israel por parte de um cineasta israelense estiveram entre os incidentes da edição de 2024 que levaram o festival a ser acusado de antissemitismo.

Yuval Abraham, o co-diretor israelense do documentário No Other Land, que retrata a ocupação na Cisjordânia, passou a receber ameaças de morte em seu país natal após seu apelo, na cerimônia de premiação do festival, para que se pusesse fim a "esse apartheid, essa desigualdade". 

Cineastas Yuval Abraham e Basel Adra foram acusados de antissemitismo por seu discurso de aceitação do prêmio de melhor documentário no Festival de BerlimFoto: Monika Skolimowska/dpa/picture alliance

Antes da edição de 2025 – o primeiro ano de Tricia Tuttle na direção do evento –, o festival esclareceu a posição sobre liberdade de expressão, incluindo a solidariedade com os palestinos: "Todos os convidados têm direito à liberdade de expressão dentro dos limites da lei. Também defendemos o direito dos nossos cineastas de falar sobre os impulsos por trás de seus trabalhos e suas experiências do mundo. A Berlinale acolhe diferentes pontos de vista, mesmo que isso crie tensão ou controvérsia."

Colaborou Fábio Corrêa.

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