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Jair Bolsonaro
"Com um presidente que espalha mentiras e desinformação, o trabalho da imprensa é vital", afirma diretor da RSFFoto: Luis Alvarenga/Getty Images
Liberdade de imprensaBrasil

"Há estratégia por trás de ataques a jornalistas no Brasil"

3 de maio de 2021

Diretor da Repórteres Sem Fronteiras identifica uma cadeia de ação estruturada contra jornalistas, encabeçada por Bolsonaro. Em meio à pandemia, presidente tenta responsabilizar a imprensa pelo caos no país, afirma.

O Brasil caiu quatro posições no último ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), referente a 2020. Foi o quarto ano consecutivo de queda. Na 111ª colocação, o país entrou na "zona vermelha", que caracteriza um cenário difícil para a atuação jornalística, ao lado de países como Afeganistão, Emirados Árabes Unidos e Guatemala.

Em entrevista à DW Brasil, o diretor da RSF na América Latina, Emmanuel Colombié, afirma haver uma estratégia estruturada de ataques a jornalistas no Brasil. Ele identifica uma cadeia de atuação que vai do presidente Jair Bolsonaro à sua base de apoiadores e cria um "ambiente tóxico" para a atuação dos profissionais de imprensa. 

"O presidente está tentando dizer que os jornalistas são responsáveis pelo caos do país", afirma. "Ele quer esconder a sua incapacidade de lidar com a crise sanitária dizendo que é culpa dos jornalistas. Muita gente acredita nisso. Não à toa, vemos muitos ataques a jornalistas nos protestos e linchamentos digitais, principalmente contra mulheres." 

Colombié ressalta que em meio à pandemia, o trabalho da imprensa é ainda mais importante. "No momento de crise sanitária, o direito de ser informado e informar é tão importante quanto o direito à saúde, pois a informação pode salvar vidas. Com um presidente que espalha mentiras e desinformação sobre a crise, o trabalho dos jornalistas se tornou ainda mais importante. É vital."

O diretor da RSF chama atenção para a existência de um quadro estrutural de violência contra profissionais da informação no país. Nos últimos dez anos, o Brasil registrou 30 assassinatos de jornalistas e comunicadores. O número só não é superior ao observado no México.

Colombié destaca que profissionais que atuam em nível local, sobretudo radialistas, são os principais alvos, por denunciarem a atuação de grupos criminosos e casos de corrupção, sem contar com a mesma visibilidade de jornalistas da grande imprensa. "Há o recrudescimento de uma situação grave de corrupção, violência e influência das milícias", observa.

Nesta segunda-feira (03/05), é celebrado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

DW Brasil: No último ranking de liberdade de imprensa da RSF, o Brasil caiu quatro posições e entrou na zona vermelha de situação difícil. Que fatores levaram a essa situação? 

Emmanuel Colombié: Infelizmente, a nova edição da Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa mostra um mapa mundial cada vez mais sombrio. A posição que o Brasil passou a ocupar é indigna de uma democracia desse grau. O país convive com problemas históricos e uma violência estrutural no campo da liberdade de expressão. O Brasil ainda é um país muito perigoso para jornalistas e comunicadores. Além disso, tem o problema de judicialização da censura. Cada vez mais, jornalistas são alvo de processos judiciais abusivos, acusados de difamação, por exemplo. Podemos falar também da violação constante do sigilo das fontes e da alta concentração da propriedade dos meios de comunicação. Geralmente, nas mãos de famílias que têm conexão direta com a classe política, industrial e, às vezes, com os poderes religiosos. Isso prejudica a qualidade do pluralismo, do debate democrático e a diversidade nesse horizonte midiático.

Agora, é importante mencionar que temos um jogo político muito preocupante. Desde a chegada de Jair Bolsonaro à presidência, os jornalistas trabalham em um ambiente tóxico. O presidente, os filhos e vários de seus aliados dentro e fora do governo estão insultando, difamando jornalistas e meios de comunicação quase todos os dias. Qualquer ação da mídia que ameace os interesses do presidente e toque nos seus problemas desencadeia uma nova rodada de ataques verbais muito violentos, que obviamente irão fomentar um clima de ódio e desconfiança em relação aos jornalistas no país. É importante mencionar que esses ataques seguem uma estratégia bem definida, cada vez mais estruturada. Não são ataques isolados. Há um sistema organizado de atuação que começa com o próprio presidente e logo chega à família, ao governo e à base da militância, muito bem organizada nas redes sociais. Eles transformam esses ataques em linchamentos digitais e, por vezes, infelizmente, ataques físicos contra jornalistas. Esse sistema organizado tenta, simplesmente, destruir a credibilidade dos jornalistas. Por isso, há um clima tóxico para os jornalistas no Brasil desde o início do governo.

Como esse "ambiente tóxico" que você descreve ameaça a atuação de jornalistas, em termos concretos?

A partir desse sistema organizado de ataques, vemos consequências dentro da própria sociedade sobre essa percepção sobre os jornalistas. A família Bolsonaro tem um método parecido com o que observamos na época do Donald Trump nos EUA, assim como na Venezuela e na Nicarágua. Tentam apresentar a imprensa como inimiga do povo e do Brasil. A partir dessa narrativa, a partir da criação desse ambiente tóxico, os jornalistas vão estar cada vez mais vulneráveis. A pandemia do coronavírus tem evidenciado ainda mais essa situação. O presidente está tentando dizer que os jornalistas são responsáveis pelo caos do país. De alguma forma, ele busca transformá-los em um bode expiatório. Ele quer esconder a sua incapacidade de lidar com a crise sanitária dizendo que é culpa dos jornalistas. Muita gente acredita nisso. Não à toa, vemos muitos ataques a jornalistas nos protestos e linchamentos digitais, principalmente contra mulheres. 

Tem sido também muito difícil para os jornalistas ter acesso a informações públicas sobre o tratamento da crise pelo governo federal. Tem um grande problema de acesso à informação, uma falta de transparência do governo nessa gestão da crise. Cria-se um desafio adicional para os jornalistas em busca de informações confiáveis sobre o número de mortes e de vacinados. É um problema bem significativo. Além disso, o próprio presidente e órgãos institucionais, como a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) difundiram mentiras e notícias falsas sobre o tratamento do coronavírus. Eles promoveram a cloroquina e outros remédios cuja eficácia no combate a esse vírus nunca foi comprovada. Portanto, em meio a ataques permanentes e à falta de acesso a informações, os jornalistas têm que relatar os fatos, porque o presidente é um mentiroso compulsivo, que difunde notícias falsas pessoalmente e por meio de órgãos oficiais. Isso é gravíssimo, são desafios muito complexos. Queria saudar os jornalistas brasileiros que estão trabalhando em um contexto tóxico, muito delicado.

O crime organizado tem se fortalecido no Brasil, com a expansão das milícias nos centros urbanos e dos grupos de pistoleiros no interior e no campo. Como esse contexto afeta a liberdade de imprensa?

Como eu falei, há uma situação estrutural de violência contra a imprensa e de vulnerabilidade, sobretudo, dos comunicadores e jornalistas independentes, afastados dos grandes centros urbanos. A maioria dos casos de jornalistas assassinados nos últimos anos era de radialistas com atuação local. Longe das grandes cidades, eles denunciavam a atuação de milícias e grupos violentos em programas de opinião. É importante falar desse jornalismo comunitário, local. Eles estão difundindo a informação de interesse público e, por fazer esse trabalho fundamental, são atacados, sem que gozem do mesmo nível de visibilidade e proteção que os jornalistas dos grandes veículos nas capitais. Há o recrudescimento de uma situação grave de corrupção, violência e influência das milícias. Existe também o problema de autocensura, justamente gerado pelo controle de alguns mercados por grupos de delinquentes com acesso a poderes políticos. Os jornalistas locais geralmente são os primeiros alvos dessas milícias.

Você acredita que a pandemia trouxe uma valorização maior do jornalismo profissional pelo público?

Eu acho que não. Há mais de um ano, os jornalistas são aqueles que vêm trazer as notícias ruins. As mensagens do momento são terríveis: notícias sobre mortes, contaminação. Já havia, no Brasil, uma percepção frágil da importância do jornalismo. Estamos em uma época de desinformação, com um monte de fake news circulando. Vários jornalistas, comunicadores e políticos são acusados de difundir informações falsas. Esse conteúdo circula de forma muito mais rápida que as informações verdadeiras. É um desafio importante pensar em como viralizar as informações verdadeiras.

Parte da nossa análise é dizer que o jornalismo, neste momento, é a melhor vacina contra a desinformação. Mas é preciso haver um trabalho pedagógico junto às audiências. Em primeiro lugar, deve-se deixar claro que podem ter interesses privados por trás dos jornais. É importante que o público saiba o que tem por trás da informação, o que dialoga com essa ideia de combater eficientemente a propagação de notícias falsas. Além disso, falta um discurso público, por parte dos governantes, de valorização da importância de ter uma imprensa livre, crítica e plural, para ter um debate democrático são e uma diversidade de opiniões que são positivos para o país. Mas temos, aqui no Brasil, um presidente que propõe essa narrativa anti-imprensa. Infelizmente, muitas pessoas acreditam que os jornalistas estão trabalhando contra os interesses do país. Portanto, é preciso haver esse trabalho educativo para dizer que os jornalistas estão aqui para relatar fatos e informar. 

No momento de crise sanitária, o direito de ser informado e informar é tão importante quanto o direito à saúde, pois a informação pode salvar vidas. Com um presidente que espalha mentiras e desinformação sobre a crise, o trabalho dos jornalistas se tornou ainda mais importante. É vital. A imprensa precisa também se olhar no espelho e avaliar se está sendo responsável e respondendo a essa crise de confiança com mais jornalismo de qualidade, ético, com fatos comprovados, para evitar justamente ser atacada nesse campo de desinformação.

Um trabalho jornalístico bem feito não deveria sofrer nenhum tipo de contestação ou ataque. Infelizmente, ainda acontece, mas uma das respostas deve vir também dos próprios jornalistas, para responder a essa crise de confiança. Daqui até o fim do mandato do Bolsonaro, vai ser assim. Vamos ter essa narrativa anti-imprensa, a circulação em todos os canais da base de apoiadores do presidente dessa ideia de que jornalistas são inimigos do povo e estão espalhando notícias falsas para derrubar o presidente. Sabemos que não é assim.

Ataques de Bolsonaro contra a imprensa

"Encher tua boca de porrada", "você tem cara de homossexual", "imprensa lixo". Guerra do presidente contra a mídia vai de ameaças, grosserias e xingamentos a comentários de cunho sexual contra profissionais da área.

Foto: picture-alliance/dpa/E. Peres

"Encher sua boca de porrada"

Ao ser questionado em 23 de agosto por um repórter sobre depósitos de Fabrício Queiroz e sua mulher que teriam sido feitos na conta da primeira-dama, Bolsonaro respondeu: "Vontade de encher tua boca com porrada, tá? Seu safado". A ameaça gerou uma série de críticas e notas de repúdio.

Foto: picture-alliance/dpa/E. Peres

Jornalista "bundão", "só usam caneta para maldade"

Um dia depois, ele voltou à carga contra a imprensa. “Aquela história de atleta, né, que o pessoal da imprensa vai pôr deboche, mas quando pega um bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor. Só sabem fazer maldade, usar a caneta com maldade”, disse em evento no Palácio do Planalto. Bolsonaro disse que jornalista ‘bundão’ tem menos chance de sobreviver ao coronavírus do que ele próprio.

Foto: AFP/E. SA

"Grande mídia publica patifaria"

“É uma manchete canalha e mentirosa, e vocês da mídia, tenham vergonha cara. A grande parte publica patifaria”, acusou em 5 de maio, comentando matéria da Folha de S. Paulo que noticiava a troca da superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro e suposta interferência de Bolsonaro no comando da Polícia Federal.

Foto: picture-alliance/dpa/P. Lopes

"Vocês inventam tudo"

Em 22 de abril, Bolsonaro se negou a falar com a imprensa na saída do Palácio da Alvorada e atacou os jornalistas presentes: “Eu não vou falar com a imprensa, porque eu não preciso falar. Vocês não distorcem mais, inventam. O que eu li hoje…Inventam tudo. Então, podem continuar inventando aí”, disse o presidente.

Foto: Getty Images/A. Anholete

"Você tem cara de homossexual"

"Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual", disse o mandatário em 20 de dezembro do ano passado, ao ser questionado sobre possível envolvimento de seu filho Flávio em suposto esquema de rachadinha quando era deputado no Rio de Janeiro.

Foto: picture-alliance/AP Photo/E. Peres

"Pergunta para a tua mãe"

Na mesma ocasião, ao ser indagado sobre se teria comprovante do empréstimo de R$ 40 mil que diz ter feito a Fabrício Queiroz para justificar depósitos do então assessor de Flávio na conta da primeira-dama, retrucou: 'Pergunta para tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai'.

Foto: Reuters/A. Machado

"Imprensa lixo chamada Globo"

“Essa imprensa lixo chamada Globo. Ou melhor, lixo dá para ser reciclado. Globo nem lixo é, porque não pode ser reciclada”, disse em 30 de abril, depois da repercussão de sua fala “E daí?”, dita quando o Brasil superou a China no número de mortes pela covid-19.

Foto: Getty Images/AFP/E. SA

"Perguntando besteira"

"Vocês da Folha têm que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. E não contratar qualquer uma ou qualquer um pra ser jornalista. Pra ficar semeando discórdia e perguntando besteira", afirmou o presidente em 16 de maio do ano passado, ao ser questionado por uma jornalista da Folha de S. Paulo sobre o contingenciamento nos orçamentos das universidades federais.

Foto: picture-alliance/dpa/F. Frazão

"Ela queria dar um furo"

“Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, ironizou o presidente em 18 de fevereiro sobre a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. O comentário de cunho sexual se referia à acusação, realizada sem provas, de um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa de que a jornalista teria tentado "se insinuar" sexualmente para ele em busca de informações.

Foto: Imago Images/Fotoarena/R. Pereira

"Canalhice da Globo"

“Isso é uma patifaria, TV Globo! É uma canalhice o que vocês fazem, TV Globo. Uma canalhice, fazer uma matéria dessas em um horário nobre, colocando sob suspeição que eu poderia ter participado da execução da Marielle Franco”, acusou, em 29 de outubro de 2019, após o Jornal Nacional noticiar que o porteiro de seu condomínio dissera que Bolsonaro autorizara a entrada suposto envolvido no crime.

Foto: Youtube/TV BrasilGov
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