Uma cidade com tendências ultraortodoxas pretendia separar homens e mulheres nas ruas. A ideia foi abandonada, mas o parlamento aprovou cursos universitários separados por gênero. Liberais lutam contra as medidas.
No centro histórico de Jerusalém, homens e mulheres ortodoxos convivem lado a ladoFoto: IMAGO/photothek
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Não se percebe nada de especial quando se observa a rua Shlomo HaMelech, em Bnei Brak, Israel. Ao menos não virtualmente, pelo Google Street View, que mostra uma via estreita de asfalto, ladeada por residências. Nas calçadas, com meios-fios vermelhos e brancos, há poucos pedestres – essencialmente, homens vestindo casacos e chapéus pretos típicos dos judeus ortodoxos, e, mais raramente, mulheres.
No entanto, justamente em meio à livre circulação dessas pessoas em duas ruas, surgiu uma polêmica cujo impacto se estende muito além da cidade de 200 mil habitantes, localizada nos arredores de Tel Aviv.
De acordo com a mídia local, a prefeitura havia começado a alargar calçadas, instalar grades e colocar placas com o objetivo de separar fisicamente homens e mulheres, mas as obras teriam sido interrompidas após críticas veementes.
Israelenses mais liberais temem que se crie em Bnei Brak um precedente que possa reforçar ainda mais a influência de ortodoxos radicais na sociedade às vésperas das eleições, marcadas para 27 de outubro. Isso porque uma lei em análise no Knesset, o parlamento de Israel, também coloca em cheque, em certa medida, a igualdade de gênero – que é garantida por várias decisões do Supremo Tribunal.
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Barreiras em casamentos
A separação por gênero não é algo incomum no judaísmo: nas sinagogas ortodoxas, há áreas separadas para homens e mulheres. Os fiéis mais rigorosos também respeitam o princípio de não tocar em pessoas do sexo oposto – nem mesmo para cumprimentá-las. Em cerimônias de casamentos e feriados, os ortodoxos geralmente também se sentam separados por gênero.
Rabinos locais argumentam que em Bnei Barak há salões de festas que ficam lotados em casamentos, e que por isso os convidados deveriam a ter a possibilidade de entrar no local já separados por gênero.
As intervenções da prefeitura em via pública, porém, significariam que o dinheiro seria utilizado para uma separação permanente por gênero em um espaço que deveria ser neutro. Isso atraiu inúmeras críticas.
A imprensa local informa que a prefeitura voltou atrás, anunciando ajustes na infraestrutura física em caso de aglomerações, mas frisando que a separação por gênero não seria nem uma determinação nem uma regra política da cidade.
Bnei Brak é considerado um bastião de judeus ultraortodoxos, aqui reunidos durante um protesto em 2024 contra o serviço militar compulsórioFoto: Ohad Zwigenberg/AP/picture alliance
Suprema Corte garante liberdade de movimento às mulheres
Há décadas, a composição demográfica na sociedade israelense tem mudado cada vez mais em favor dos ortodoxos e ultraortodoxos, que são profundamente religiosos e, em muitos casos, extremamente conservadores e nacionalistas – o que aumenta a pressão sobre a ordem política do país.
Em sua Declaração de Independência de 1948, o Estado de Israel garante a igualdade política e social de todos os cidadãos "sem distinção de religião, raça e gênero". Ao mesmo tempo, o fundador do Estado, David Ben Gurion, prometeu aos ultraortodoxos que o Estado e suas instituições respeitariam algumas regras religiosas importantes, a fim de garantir o apoio deles à nação recém-criada.
Com base nesse princípio, tentativas anteriores de separar homens e mulheres nos tribunais foram rejeitadas. Um forte precedente é uma decisão de 2011 em que a Suprema Corte proferiu, em última instância, que em ônibus de linha – mesmo os que trafegam em bairros com alta população ultraortodoxa –, não deve ser imposta a separação por gênero, nem exercida qualquer pressão sobre mulheres para que se sentem na parte traseira do veículo.
Em 2017, o tribunal interpretou esse esclarecimento de forma ainda mais ampla em relação ao espaço público: a cidade de Beit Shemesh foi intimada a remover as chamadas "placas de decoro", que impunham regras quanto ao vestuário das mulheres – e a evitar alguns trechos de calçadas próximas das yeshivot, as faculdades de Torá (o livro sagrado do judaísmo) para homens religiosos.
A prefeitura as removeu e, posteriormente, extremistas religiosos criaram novas placas por conta própria em diferentes ocasiões.
No parlamento, oposicionistas como Merav Ben-Ari têm protestado contra as medidasFoto: Hilel Ben Or/JNA Press/Nexpher Images/Sipa USA/picture alliance
Segregação em faculdades
Opositores da separação por gênero em Bnei Brak já acionaram o Supremo Tribunal. Levando em conta a jurisprudência até o momento, eles poderiam ficar tranquilos, caso a igualdade não estivesse, ao mesmo tempo, sob ataque em uma segunda esfera.
Em 16 de julho, o parlamento israelense aprovou uma lei que autoriza as universidades e instituições de ensino técnico superior a oferecer cursos de mestrado e programas de doutorado separados por gênero. Até então, isso só se aplicava a alguns cursos de graduação, com os tribunais regularmente barrando a discriminação de mulheres.
A nova regra deve ser aplicada de forma voluntária e não poderá implicar em segregação fora das salas de aula. As instituições protestaram contra a lei antes da votação porque, na visão delas, isso poderia comprometer os padrões acadêmicos, por exemplo, nas áreas de medicina e saúde, e também porque o acesso das mulheres a áreas profissionais altamente especializadas poderia ser dificultado. Para as faculdades técnicas, por outro lado, a regulamentação poderia ser útil, já que elas poderiam atrair um novo público-alvo e, consequentemente, obter mais receitas.
Por que é tão difícil acabar com o antissemitismo?
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Parlamento dissolvido
A votação foi uma das últimas do atual parlamento: o Knesset foi dissolvido na última sexta-feira (17/07), a fim de abrir caminho para novas eleições em 27 de outubro. Além da Lei do Ensino Superior, a coalizão de direita, religiosa e nacionalista do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, atualmente em fim de mandato, aprovou ainda uma série de outras leis polêmicas.
O parlamento decidiu, por exemplo, restringir os poderes de fiscalização da procuradora-geral sobre o governo. Uma nova lei de mídia permite ao governo, segundo os críticos, exercer maior influência sobre a mídia. E a consagração do estudo da Torá na Constituição poderia, no futuro, levar à isenção definitiva dos homens ultraortodoxos do serviço militar. O tema é, há anos, um ponto de discórdia constante entre as diferentes correntes da sociedade israelense.
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Por mais de meio século, disputas entre israelenses e palestinos envolvendo terras, refugiados e locais sagrados permanecem sem solução. Veja um breve histórico sobre o conflito.
Foto: PATRICK BAZ/AFP/Getty Images
1967: Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU
A Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em 22 de novembro de 1967, sugeria a troca de terras pela paz. Desde então, muitas das tentativas de estabelecer a paz na região referiram-se a ela. A determinação foi escrita de acordo com o Capítulo 6 da Carta da ONU, segundo o qual as resoluções são apenas recomendações e não ordens.
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1978: Acordos de Camp David
Em 1973, uma coalizão de Estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria lutou contra Israel no Yom Kippur ou Guerra de Outubro. O conflito levou a negociações de paz secretas que renderam dois acordos 12 dias depois. Esta foto de 1979 mostra o então presidente egípcio Anwar Sadat, seu homólogo americano Jimmy Carter e o premiê israelense Menachem Begin após assinarem os acordos em Washington.
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1991: Conferência de Madri
Os EUA e a ex-União Soviética organizaram uma conferência na capital espanhola. As discussões envolveram Israel, Jordânia, Líbano, Síria e os palestinos – mas não da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) –, que se reuniam com negociadores israelenses pela primeira vez. Embora a conferência tenha alcançado pouco, ela criou a estrutura para negociações futuras mais produtivas.
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1993: Primeiro Acordo de Oslo
Negociações na Noruega entre Israel e a OLP, o primeiro encontro direto entre as duas partes, resultaram no Acordo de Oslo. Assinado nos EUA em setembro de 1993, ele exigia que as tropas israelenses se retirassem da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e que uma autoridade palestina autônoma e interina fosse estabelecida por um período de transição de cinco anos. Um segundo acordo foi firmado em 1995.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Sachs
2000: Cúpula de Camp David
Com o objetivo de discutir fronteiras, segurança, assentamentos, refugiados e Jerusalém, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, convidou o premiê israelense Ehud Barak e o presidente da OLP Yasser Arafat para a base militar americana em julho de 2000. No entanto, o fracasso em chegar a um consenso em Camp David foi seguido por um novo levante palestino, a Segunda Intifada.
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2002: Iniciativa de Paz Árabe
Após Camp David, seguiram-se encontros em Washington e depois no Cairo e Taba, no Egito – todos sem resultados. Mais tarde, em março de 2002, a Liga Árabe propôs a Iniciativa de Paz Árabe, convocando Israel a se retirar para as fronteiras anteriores a 1967 para que um Estado palestino fosse estabelecido na Cisjordânia e em Gaza. Em troca, os países árabes concordariam em reconhecer Israel.
Foto: Getty Images/C. Kealy
2003: Mapa da Paz
Com o objetivo de desenvolver um roteiro para a paz, EUA, UE, Rússia e ONU trabalharam juntos como o Quarteto do Oriente Médio. O então primeiro-ministro palestino Mahmoud Abbas aceitou o texto, mas seu homólogo israelense Ariel Sharon teve mais reservas. O cronograma previa um acordo final sobre uma solução de dois estados a ser alcançada em 2005. Infelizmente, ele nunca foi implementado.
Foto: Getty Iamges/AFP/J. Aruri
2007: Conferência de Annapolis
Em 2007, o então presidente dos EUA George W. Bush organizou uma conferência em Annapolis, Maryland, para relançar o processo de paz. O premiê israelense Ehud Olmert e o presidente da ANP Mahmoud Abbas participaram de conversas com autoridades do Quarteto e de outros Estados árabes. Ficou acordado que novas negociações seriam realizadas para se chegar a um acordo de paz até o final de 2008.
Foto: picture-alliance/dpa/S. Thew
2010: Washington
Em 2010, o enviado dos EUA para o Oriente Médio, George Mitchell, convenceu o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, a implementar uma moratória de 10 meses para assentamentos em territórios disputados. Mais tarde, Netanyahu e Abbas concordaram em relançar as negociações diretas para resolver todas as questões. Iniciadas em setembro de 2010, as negociações chegaram a um impasse dentro de semanas.
Foto: picture-alliance/dpa/M. Milner
Ciclo de violência e cessar-fogo
Uma nova rodada de violência estourou dentro e ao redor de Gaza no final de 2012. Um cessar-fogo foi alcançado entre Israel e os que dominavam a Faixa de Gaza, mas quebrado em junho de 2014, quando o sequestro e assassinato de três adolescentes em mais violência. O conflito terminou com um novo cessar-fogo em 26 de agosto de 2014.
Foto: picture-alliance/dpa
2017: Conferência de Paris
A fim de discutir o conflito entre israelenses e palestinos, enviados de mais de 70 países se reuniram em Paris. Netanyahu, porém, viu as negociações como uma armadilha contra seu país. Tampouco representantes israelenses ou palestinos compareceram à cúpula. "Uma solução de dois Estados é a única possível", disse o ministro francês das Relações Exteriores Jean-Marc Ayrault, na abertura do evento.
Foto: Reuters/T. Samson
2017: Deterioração das relações
Apesar de começar otimista, o ano de 2017 trouxe ainda mais estagnação no processo de paz. No verão do hemisfério norte, um ataque contra a polícia israelense no Monte do Templo, um local sagrado para judeus e muçulmanos, gerou confrontos mortais. Em seguida, o plano do então presidente dos EUA, Donald Trump, de transferir a embaixada americana para Jerusalém minou ainda mais os esforços de paz.
Foto: Reuters/A. Awad
2020: Tiro de Trump sai pela culatra
Trump apresentou um plano de paz que paralisava a construção de assentamentos israelenses, mas mantinha o controle de Israel sobre a maioria do que já havia construído ilegalmente. O plano dobrava o território controlado pelos palestinos, mas exigia a aceitação dos assentamentos construídos anteriormente na Cisjordânia como território israelense. Os palestinos rejeitaram a proposta.
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2021: Conflito eclode novamente
Planos de despejar quatro famílias palestinas e dar suas casas em Jerusalém Oriental a colonos judeus levaram a uma escalada da violência em maio de 2021. O Hamas disparou foguetes contra Israel, enquanto ataques aéreos militares israelenses destruíram prédios na Faixa de Gaza. A comunidade internacional pediu o fim da violência e que ambos os lados voltem à mesa de negociações.
Foto: Mahmud Hams/AFP
2023: Terrorismo do Hamas e retaliações de Israel
No início da manhã de 7 de outubro, terroristas do grupo radical islâmico Hamas romperam barreiras em alguns pontos da Faixa de Gaza, na fronteira com Israel, e, em território israelense, feriram e mataram centenas de pessoas, além de sequestrarem mais de uma centena. Devido a isso, Israel declarou "estado de guerra" e iniciou uma série de bombardeios, deixando partes da Cidade de Gaza em ruínas.