Insegurança alimentar agrava catástrofes, diz estudo
Bernd Grässler (ca)17 de novembro de 2015
Relatório Global de Risco 2015 mostra relação entre falta de alimentos e desastres. Quando eventos como terremotos e secas atingem um país numa situação de abastecimento instável, riscos de catástrofes se potencializam.
Destruição por tufão Pam em VanuatuFoto: CARE
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No Relatório Global de Risco 2015, divulgado por organizações de ajuda humanitária nesta terça-feira (17/11), em Berlim, cientistas mostram a interação entre a segurança alimentar e o risco de desastres.
Segundo os especialistas, a insegurança de alimentação e o risco de catástrofes se reforçam mutuamente. Quando terremotos, erupções vulcânicas, secas e tempestades atingem um país numa situação de abastecimento instável, os riscos de desastres se potencializam.
Também quando a insegurança alimentar força as pessoas a deixar suas terras, o risco do migrante de se tornar vítima de uma catástrofe aumenta. Pois, nos novos assentamentos, os refugiados ocupam muitas vezes superfícies em encostas íngremes ou margens de rios.
De acordo com o relatório deste ano, principalmente em Bangladesh, Haiti, Senegal, Zimbábue e Chade, há uma grande necessidade de ação em termos de segurança alimentar.
O Relatório Global de Risco vem sendo apresentado há cinco anos sob encomenda da Bündnis Entwicklung Hilft, que congrega as organizações humanitárias Brot für die Welt, Missão Cristã para Cegos, Kindernothilfe, medico internacional, Misereor, terre des hommes e Ação Agrária Alemã.
Alto risco à beira-mar
Através de um índice, os cientistas avaliam os riscos de catástrofe em 171 países por meio de 28 indicadores, numa análise combinada de perigos naturais e ambiente social. Pela quinta vez consecutiva, o pequeno país insular Vanuatu, na Oceania, ocupa a primeira posição, seguido por Tonga, Filipinas, Guatemala, Bangladesh, Costa Rica e Camboja.
Os 15 países de maior risco no mundo são insulares ou banhados pelo mar. Alguns estão literalmente com "a água até o pescoço", afirmaram cientistas em alusão à elevação do nível dos oceanos. Entre os 171 países avaliados, a Alemanha está em 146° lugar, com um nível de risco "muito baixo".
De acordo com o relatório, o Brasil ocupa a 123ª posição, com um nível de risco "baixo". As recentes tragédias em Minas Gerais, no entanto, não foram consideradas no estudo divulgado nesta terça-feira na capital alemã.
Alimentação e catástrofes
Um melhor abastecimento para as pessoas em regiões de crise e campos de refugiados é tão necessário quanto o fornecimento de alimentos em regiões de catástrofes, afirmou Peter Mucke, diretor da aliança Bündnis Entwicklung Hilft, durante apresentação do relatório.
Em termos numéricos, isso não seria um problema, pois já hoje são produzidas mundialmente mais quilocalorias de alimentos por pessoa do que o necessário. O problema continua a ser a distribuição injusta, o desperdício e as perdas durante a colheita e o transporte.
A maioria dos famintos vive em áreas rurais. Portanto, a mensagem principal seria compreender a política de ajuda ao desenvolvimento na zona rural como parte da prevenção de crises, disse Martin Bröckelmann-Simon, da organização humanitária Misereor.
Segundo ele, estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostraram que investimentos na agricultura com vista à redução da fome e da pobreza seriam cinco vezes mais eficientes do que em qualquer outro setor. "E quando se olha para a África Subsaariana, essa proporção chega a 11 vezes", afirmou Bröckelmann-Simon.
Nos primeiros dias depois de uma catástrofe, países em que existem redes de agricultores têm grande vantagem em garantir o suprimento de alimentos.
Mudanças climáticas ameaçam Ontong Java
Atol no oceano Pacífico sofre com o aumento do nível do mar e cada vez mais tempestades. Este ensaio fotográfico exclusivo mostra a luta da comunidade local para permanecer nas ilhas e manter a própria cultura.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Ilhas remotas
As ilhas do atol de Ontong Java somam 12 quilômetros quadrados de terra, que não ficam mais de 3 metros acima do nível do mar. Rodeados pelas vastas profundezas do oceano Pacífico ocidental, os habitantes do atol sempre viveram à mercê do vento e das ondas, mas as mudanças climáticas e o aumento do nível do mar estão tornando suas vidas cada vez mais difíceis.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Tradições vivas
Os polinésios chegaram às ilhas há cerca de 2 mil anos. As seculares rotinas de dança, que incluem contos sobre forças naturais poderosas, são parte integrante da cultura e da identidade da população local.
Foto: Displacement Solutions /Beni Knight
Contato com a natureza
Tradicionalmente, as moradias são construídas com coqueiros e pandanus. Hoje, essas cabanas são iluminadas com energia solar. A escuridão de um céu noturno limpíssimo é uma das vantagens do isolamento completo.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Para onde irão as crianças?
Se o nível do mar continuar a subir no ritmo atual, as ilhas acabarão varridas do mapa. As crianças de Ontong Java, incluindo Wilson Ayunga (foto acima), de oito anos, poderão não ter outra opção senão se mudar para terras mais altas.
Foto: Displacement Solutions /Beni Knight
Governo descomprometido
A beleza intocada de Luaniua, ilha permanentemente ocupada em Ontong Java, torna-se mais evidente se vista de cima. Mas, sob as palmeiras idílicas, falta um governo comprometido. Administrativamente, Ontong Java é parte das Ilhas Salomão. No entanto, a falta de investimentos em saúde, policiamento e educação está gerando problemas sociais, conforme a modernidade chega às ilhas.
Foto: Displacement Solutions /Beni Knight
Terra dividida
As consequências das alterações climáticas já ficaram claras para os moradores de Ontong Java. A ilha de Henua Aiku começou a se dividir em duas com a água do mar se infiltrando em seu centro — sinais de um futuro sombrio com relação à segurança alimentar e à erosão.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Mudanças climáticas destrutivas
Devido às mudanças climáticas, além dos prejuízos causados pelo aumento do nível do mar, cada vez mais tempestades e ventos intensos e imprevisíveis atingem as zonas costeiras e vilas do atol.
Foto: Displacement Solutions /Beni Knight
Colheita fraca
A plantação experimental de Laliana (foto) não correspondeu às expectativas devido à salinização do solo, o qual já carece de nutrientes cruciais para a agricultura.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Tempos de mudança
Sarah Abora passou toda a sua vida em Ontong Java. Ela se lembra de uma época em que não havia nada além de arbustos onde hoje está sua aldeia. Ela também se lembra de quando as pessoas viviam além da extremidade atual da ilha. A aldeia foi obrigada a recuar devido à subida das marés e a correntes.
Foto: Displacement Solutions /Beni Knight
Fora do mapa
Onde hoje há uma frágil faixa de areia branca, antes havia uma vila bonita e próspera. A elevação do nível do mar varreu do mapa cerca de 40 casas e um cemitério.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Sem terra, sem cultura
Sem sua terra, a população de Ontong Javan não sabe como manter sua cultura. Para eles, desistir de suas ilhas é desistir de sua identidade. Com os efeitos das mudanças climáticas ameaçando desabrigar os moradores, a cultura do atol se vê diante de um futuro sombrio.
Foto: Displacement Solutions/Beni Knight
Esperança de ficar
Com o passar do tempo, aumenta a probabilidade de que os habitantes de Ontong Java tenham que se deslocar. Mesmo assim, a população mantém a esperança de que será possível permanecer em suas terras – que sustentam seus moradores e sua cultura há 2 mil anos.