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Inteligência artificial conclui a "Décima" de Beethoven

Música e tecnologia | 11.10.2021

Finalmente o mundo pode ouvir como teria sido a sinfonia que o gênio musical deixou inacabada. Ou, pelo menos, como sistemas de inteligência artificial – assistidos por musicólogos e compositores – acham que seria.

Se a inteligência artificial (IA) avança sobre o dia a dia moderno, ao menos a criatividade permanecia um bastião do cérebro humano. Porém, acumulam-se os indícios de que também este está caindo. Ou será que já caiu?

Depois que computadores concluíram composições incompletas de Gustav Mahler e Franz Schubert, chegou a vez da sinfonia "inacabada" de Ludwig van Beethoven (1770-1827). Ao morrer, ele deixou esboços, em parte apenas breves fragmentos, não elaborados, de sua Sinfonia nº 10. Uma tentativa do musicólogo e compositor inglês Barry Cooper de concluir o primeiro movimento teve recepção pouco entusiástica ao ser estreada em 1988.

02:57 min.
| 17.12.2020

Sinfonia inacabada: a IA será capaz de finalizar uma obra de Beethoven?

Em meados de 2019, a companhia de telecomunicações Telekom, sediada em Bonn, cidade natal do compositor, encarregou uma equipe de musicólogos, compositores e informáticos de analisar e assimilar o estilo beethoveniano, de modo a estar apta a terminar a "Inacabada" com apoio da inteligência artificial.

Por ocasião dos 250 anos do nascimento do gênio musical alemão – devido à pandemia de covid-19, um pouco atrasado –, a obra híbrida foi estreada no sábado (09/10), dentro da programação do Beethovenfest de Bonn.

"Pensando" como Beethoven

No decorrer do projeto, dispositivos de inteligência artificial foram alimentados com esboços e anotações do músico no limiar do classicismo para o romantismo, assim como com partituras de seus contemporâneos.

"É preciso imaginar que Beethoven, no momento em que tinha novas ideias, as anotava. Às vezes como palavras escritas, às vezes como notas musicais", explica Matthias Röder, diretor do Instituto Karajan de Salzburgo.

Partindo desse material, o chefe do projeto e sua equipe fizeram suposições: "Como Beethoven teria desenvolvido determinadas coisas?" Sua hipótese de trabalho era que, assim como a linguagem, a música se baseia em unidades que cabe aprender.

De modo análogo à rede neuronal do cérebro, o computador é capaz de criar novas conexões independentemente. Alimentado com sinfonias, sonatas para piano e quartetos de cordas de Beethoven, o sistema de IA foi progressivamente treinado para "pensar" como ele. Os resultados musicais que combinavam melhor entre si foram reintroduzidos no sistema, gerando mais música, e a composição foi crescendo.

"O que a inteligência artificial nos oferece é a possibilidade de experimentar a progressão de um movimento [de sinfonia] em 20, ou mesmo cem versões diferentes. E isso é infinitamente fascinante, pois se é bem feito algoritmicamente, cada tentativa é plausível", comenta o professor Robert Levin, musicólogo da Universidade de Harvard.

Dirk Kaftan regeu a Orquestra Beethoven de Bonn na estreia mundial da "Décima sinfonia"

"Cérebro humano e máquina não estão tão distantes"

Para a pesquisa, tais cooperações são muito estimulantes, fornecendo dados sobre como as máquinas podem assistir os seres humanos – ou mesmo imitá-los em atividades criativas.

"Queríamos entender melhor qual é o estado da tecnologia na geração de música", relata Ahmed Elgammal, diretor do laboratório Art & AI da Universidade Rutgers University de Nova York e programador do sistema de inteligência artificial Beethoven-KI. E, usando módulos de processamento da linguagem natural, "procuramos testar os limites".

O musicólogo Levin vê uma utilidade prática de tais projetos de pesquisa para os profissionais da música: "Pode-se dizer que o computador opera segundo algoritmos. Sim, mas o ser humano também trabalha com base em experiências ou em sua formação – eles não estão tão distantes entre si."

A prova dos nove foi a estreia da nova Décima de Beethoven pela Orquestra Beethoven de Bonn, regida pelo diretor musical geral da cidade, Dirk Kaftan, no sábado, no Telekom Forum, sob o título Beethoven X – The AI Project (ouça abaixo o resultado final).

No fim das contas, cabe ao ouvinte atento e informado julgar até que ponto foi convincente a passagem da inspiração original beethoveniana para a elaboração pela inteligência artificial – e se o bastião da criatividade humana ainda está de pé.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Cabeleira carismática

Olhar sério, expressão ligeiramente severa, juba de leão: poucos compositores ostentam uma imagem tão popular como a do alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827). No entanto, foram sobretudo os retratos do fim de vida que fixaram essa imagem de artista revolucionário, combativo e difícil.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Conquistando Viena

Nesta miniatura de 1803, da autoria de Christian Hornemann, o jovem músico dá uma impressão enérgica, sublinhada pela ponta de um sorriso. Na época, Beethoven acabara de angariar o apoio de alguns dos mais influentes mecenas da nobreza vienense.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Visita ao príncipe

Até ambos se desentenderem, um dos primeiros benfeitores do compositor foi o príncipe Carl von Lichnowsky. Datado de 1900, o quadro "Beethoven toca na casa de Lichnowsky", de Julius Schmid, parece já antecipar a desavença entre o nobre e o voluntarioso artista.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Orgulho e autoconfiança

Em 1812, na cidade de Teplice, Boêmia (hoje República Tcheca), Beethoven se encontrou com Johann Wolfgang von Goethe. É lá que ocorreu o lendário e escandaloso "passeio": enquanto o autor se curvava respeitosamente diante de um príncipe, o compositor passou direto, de cabeça erguida. Pelo menos foi assim que Carl Rohling imaginou a revolucionária cena, seis décadas após a morte do músico.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Música e revolução

Beethoven não trilhou apenas caminhos musicais inéditos, mas também se deixou inflamar pelas ideias da Revolução Francesa. Nesta pintura de 1804, Willibrord Joseph Mähler o retratou portando uma lira diante do Templo de Apolo. Seu gesto peremptório parece indicar o desejo de inovação.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Marca registrada

Não há dúvida: Ludwig van Beethoven foi um dos artistas mais populares de seu tempo. Prova disso são os relativamente numerosos retratos que chegaram até nós. Um dos mais conhecidos é este de 1820, em que Joseph Karl Stieler o apresenta com a partitura da "Missa Solene" na mão.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Variante pop

Comparado a seus colegas pintores, Stieler retratou Beethoven de forma mais idealizada, não tanto realista. Mais tarde, o quadro a óleo serviria de modelo para gravuras, onde os contornos eram naturalmente enfatizados. E certamente não foi por acaso que o norte-americano Andy Warhol escolheu justamente esse retrato para suas manipulações no estilo da pop art.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Motivo de street art

Também em Bonn, cidade natal do artista, há uma série de variações do quadro de Stieler. Seja como escultura em pedra, diante da Beethovenhalle, seja como afresco, ou – bem próximo à casa onde nasceu e que hoje é um museu – como grafite no muro de uma residência.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Cada nota, uma luta

Só após a morte de Beethoven, em 1827, a posteridade ficou sabendo que a criação musical não era para ele uma tarefa simples. Relatos de contemporâneos que o vivenciaram no ato de compor influenciaram a imagem do maestro enredado na luta implacável e incondicional pela obra perfeita. Como neste quadro de Carl Schlösser, feito por volta de 1890.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Gênio e loucura

As geniais obras beethovenianas deixavam perplexos seus contemporâneos. Para as gerações subsequentes de compositores, por outro lado, elas se impuseram como modelo e parâmetro difícil de superar. Talvez por isso pareça quase demoníaca esta visão de Hermann Torggler, criada em 1902 a partir da máscara mortuária do compositor.

Beethoven: de revolucionário a ícone pop
Ícone pop

Pouquíssimos compositores eruditos são tão conhecidos hoje no mundo inteiro como Ludwig van Beethoven – e não só graças à indefectível bagatela para piano "Para Elise"! A biografia do músico foi dramatizada várias vezes para o cinema, e até mesmo transformada em desenho animado (foto) e história em quadrinhos.

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