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Após 88 dias, Irã afrouxa bloqueio online mas mantém censura

28 de maio de 2026

Regime iraniano restaurou parcialmente acesso à web após bloqueio recorde, mas especialistas afirmam que conexões seguem sob vigilância e abaixo dos níveis anteriores à onda de protestos.

Jovens acessam celular em Teerã
País mantém bloqueio a sites como Youtube e InstagramFoto: Fatemeh Bahrami/Anadolu Agency/IMAGO

Após um apagão de 88 dias, o acesso à internet no Irã foi parcialmente restabelecido no início desta semana. Dados em tempo real do NetBlocks, monitor global da internet com sede em Londres, e da empresa de tecnologia Cloudflare mostram um aumento significativo no tráfego da web em relação às últimas semanas.

"O tráfego ainda está abaixo do que era antes de janeiro. Naquela época, girava em torno de 50%", disse o especialista em cibersegurança Amir Rashidi, diretor do Miaan Group. A organização sediada nos Estados Unidos atua na defesa da liberdade digital no Irã e na região do Oriente Médio e Norte da África.

A internet no Irã vem sendo severamente prejudicada desde a repressão aos protestos que tomaram o país em janeiro. Durante os distúrbios, as autoridades reduziram drasticamente o acesso online para interromper a comunicação tanto dentro do país quanto com o exterior.

Após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o bloqueio nacional à internet se exacerbou e se tornou o mais longo da história recente do país. As autoridades alegam razões de segurança para a medida. Críticos, no entanto, apontam que esse método vem sendo usado há anos para controlar o acesso à informação e à comunicação.

Irã torna o acesso à internet exclusivo

Na segunda-feira, porém, segundo fontes iranianas, o presidente Masoud Pezeshkian ordenou a restauração do acesso à internet.

Antes disso, havia sido criada uma equipe de gestão de crise, liderada pelo vice-presidente Mohammad Reza Aref, para reduzir a "multiplicidade de vozes" e a sobreposição de responsabilidades na política de internet do Irã.

"O objetivo agora parece ser garantir que a internet funcione, mas que o tráfego de dados seja manipulado de forma específica", afirmou Rashidi. "A conexão deve permanecer ativa, mas o uso normal e irrestrito é dificultado, de modo que quase nenhum dado consiga sair do país e informações sobre a guerra e os protestos não possam ser disseminadas livremente."

No país, vários órgãos, entre eles o Conselho Nacional de Segurança e o Conselho Supremo do Ciberespaço, participam das decisões relacionadas ao controle digital.

Durante o bloqueio da internet, por exemplo, o Conselho Nacional de Segurança aprovou um plano para conceder a determinados grupos acesso à chamada "Internet Pro" mediante pagamento. A oferta é voltada a grupos como membros da Câmara de Comércio, startups, empresas de tecnologia e comerciantes previamente autorizados, entre outros.

"A política da 'internet pro' aparentemente continua", disse Rashidi. "Sabemos que certos grupos seguem recebendo mensagens promocionais e informativas incentivando a compra de pacotes específicos."

Além das consequências sociais, o bloqueio da internet teve impactos econômicos significativos, especialmente para pequenos negócios, incluindo inúmeras iniciativas online lideradas por mulheres, que foram destruídas pelo apagão.

"Muitas mulheres de pequenas cidades e vilarejos usavam a internet para vender produtos como frutas secas, roupas artesanais ou alimentos", disse Solmaz Eikder, da Filterbaan, uma organização iraniana de direitos digitais que monitora a censura na internet no Irã.

"Essa renda era essencial para muitas famílias — mas essa oportunidade agora foi tirada delas", disse ela à DW.

Monitoramento da comunicação

Milhões de pessoas no Irã continuam desconectadas da economia digital e da comunicação. Aplicativos como o WhatsApp, que desempenham um papel vital na comunicação dentro do país e com o exterior, ainda não estão funcionando, nem mesmo com conexões via VPN, segundo confirmaram várias fontes à DW.

As VPNs, ou redes privadas virtuais, criam uma conexão criptografada entre um dispositivo e um servidor no exterior, permitindo acesso à internet aberta. No caso do Irã, o serviço faz parte do cotidiano da maioria dos usuários mesmo em tempos de paz, já que a internet é submetida a uma rigorosa censura em qualquer cenário. Muitos sites e aplicativos  como Instagram, TikTok e YouTube são bloqueados.

Em alguns casos, o único meio de comunicação que resta é a rede de telefonia fixa. No país, antes que a ligação seja completada, uma mensagem automática é reproduzida, fornecendo um código. Há suspeitas de que as chamadas estejam sendo monitoradas durante esse processo.

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