Rússia condena carnavalesco alemão por alegoria anti-Putin
3 de abril de 2026
Carnavalesco veterano de Düsseldorf que satirizou Putin repetidamente em desfiles foi considerado culpado de "difamar" instituições russas e sentenciado à revelia a oito anos e meio de prisão.
Carro alegórico que mostra Putin e o patriarca russo Cirilo praticando sexo oral. Sátira entrou na mira da Justiça do regime do KremlinFoto: Federico Gambarini/picture alliance/dpa
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Um carnavalesco alemão conhecido por produzir carros alegóricos que satirizam os políticos foi condenado à revelia na quinta-feira (02/04) a oito anos e seis meses de prisão por um tribunal de Moscou.
Jacques Tilly, designer-chefe do desfile de Carnaval da Segunda-feira de Rosas (Rosenmontag em alemão). na cidade de Düsseldorf, foi considerado culpado pelo tribunal por "ofender sentimentos religiosos e espalhar informações falsas sobre os militares russos", segundo a revista alemã Der Spiegel.
Tilly projeta carros alegóricos satíricos para o carnaval de Düsseldorf desde a década de 1980, muitos deles apresentando líderes mundiais, incluindo o russo Vladimir Putin. Ao longo de décadas, algumas de suas criações irritaram líderes religiosos e políticos, tanto alemães quanto do exterior, mas até então ele nunca havia enfrentado problemas legais.
As criações do artista este ano incluíram uma figura de papel machê que representa Putin sendo atingido na cabeça por um bobo da corte que exibia no rosto a inscrição "sátira".
Jacques Tilly em frente a uma de sua criações: Putin tomando um banho de sangueFoto: Oliver Berg/dpa/picture alliance
Nos anos anteriores, Tilly também retratou Putin numa banheira com as cores da bandeira ucraniana e repleta de sangue. Ao todo, Putin foi tema de 11 carros alegóricos nas últimas décadas. Algumas das figuras de papel machê acabaram sendo reaproveitadas em protestos de rua contra a invasão russa da Ucrânia. Tilly construiu seu primeiro carro alegórico anti-Putin após o assassinato da jornalista investigativa russa Anna Politkovskaya em 2006.
O julgamento na Rússia centrou-se num carro alegórico específico, que desfilou no Carnaval de 2024. Na ocasião, o carro mostrava um Putin uniformizado e o patriarca Cirilo 1°, líder da Igreja Ortodoxa Russa e aliado do Kremlin, praticando sexo oral.
O tribunal de Moscou ordenou que Tilly pagasse uma multa equivalente a cerca de 2.000 euros (12 mil reais) e o proibiu de trabalhar por quatro anos, disse a revista. No entanto, como o carnavalesco vive na Alemanha e, portanto, está longe do alcance das autoridades russas.
A última criação anti-Putin de Jacques Tilly, no Carnaval de 2026Foto: Hans-Juergen Bauer/epd-bild/picture alliance
Em entrevista ao canal alemão Phoenix TV, Tilly, 62 anos, disse que o veredicto vai ter o efeito de servir como "uma motivação extra" para produzir ainda mais. Em fevereiro, antes do julgamento na Rússia, ele já havia dito que avaliava que a ação judicial era uma tentativa de silenciar críticos e artistas no exterior.
"A sátira dói, meu trabalho está surtindo efeito", disse. "A Rússia simplesmente não é um Estado democrático e tudo isto é uma farsa. [O veredicto] não me afeta, desde que... eu não viaje para países onde isso possa realmente se tornar perigoso", completou.
jps (dpa, DW)
Trump com um terno do ICE socando Jesus, Putin usando um político da AfD como drone espião, Jeffrey Epstein como o diabo em pessoa – o Carnaval no oeste alemão não tem vergonha de fazer piada dos problemas do mundo.
Foto: Thomas Lohnes/Getty Images
Vedete do Carnaval
O presidente Donald Trump foi o mais satirizado no Carnaval deste ano em cidades como Colônia, Düsseldorf e Mainz (foto). Num dos carros alegóricos de maior destaque, ele aparece dançando com a Estátua da Liberdade, de calças arriadas e "Stormy" tatuado na coxa, em referência ao escândalo envolvendo o pagamento de propina para abafar um suposto encontro com a atriz pornô Stormy Daniels.
Foto: Thomas Lohnes/Getty Images
Putin também é pop
Vladimir Putin é velho conhecido dos foliões alemães. Nos desfiles deste ano, marcado pela dissolução de velhas certezas sobre a ordem mundial e a segurança do mundo, não poderiam faltar muitas referências ao líder russo. Neste carro alegórico em Düsseldorf, Putin e Trump tentam engolir a União Europeia.
Foto: Federico Gambarini/dpa/picture alliance
Carnaval e guerra
O Carnaval do oeste alemão nasceu como uma tradição cristã na Idade Média, mas ganhou fama enquanto manifestação política. A maior parte dos desfiles acontece na chamada Segunda-feira das Rosas (Rosenmontag). Neste ano, com a instituição do alistamento militar obrigatório pelo governo alemão para fazer frente à ameaça russa, até a vovó de Mainz está pronta para a guerra.
Foto: Stephan Hahne Fotohahne.de/BEAUTIFUL SPORTS/picture alliance
E se Jesus voltasse hoje?
Se fosse nos Estados Unidos, certamente seria mais um alvo do ICE, o temido serviço americano de imigração. Em Düsseldorf, carro alegórico se juntou à onda de indignação em todo o mundo contra a violência do governo de Trump em relação a imigrantes e defensores dos direitos humanos.
Foto: Oliver Langel/Future Image/IMAGO
Kiss my ass
Um dos carros alegóricos mais falados do Carnaval em Colônia trouxe Trump de bunda pra cima, com marcas de beijo e nomes de pessoas e organizações proeminentes, incluindo a União Europeia, a Fifa, as Nações Unidas, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, e o presidente francês, Emmanuel Macron.
As mensagens "Todos protegeram os abusadores" e "Todos ignoraram as vítimas" estampam as asas de um Jeffrey Epstein retratado como o diabo, em Düsseldorf. Fotos, conversas e outros documentos em poder das autoridades americanas sugerem que o financista, morto em 2019, comandou uma rede de exploração sexual, sem que denúncias anteriores de vítimas tivessem sido levadas a sério.
Foto: Federico Gambarini/dpa/picture alliance
A infância de hoje
O vício em smartphones entre crianças e jovens também foi tema do Carnaval de Düsseldorf, prestigiado por um grande público infantil.
Foto: Jochen Tack/IMAGO
Frio como arma de guerra
Carro alegórico em Düsseldorf representa ucranianos congelando devido à guerra da Rússia. No inverno mais rigoroso em uma década, Moscou tem adotado o frio como tática de guerra ao reforçar ataques à infraestrutura energética, deixando grande parte dos ucranianos sem sistemas de aquecimento, eletricidade ou água.
Foto: Federico Gambarini/dpa/picture alliance
AfD como brinquedo de Putin
"AfD: Os traidores da pátria" é o recado deste carro em Düsseldorf. O partido alemão de ultradireita é acusado de servir como um braço de espionagem para Vladimir Putin na Europa.