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Literatura com e sem capital

Simone de Mello30 de abril de 2005

Morre um dos poetas mais promissores da língua alemã: Thomas Kling – Heine deseja "feliz Ano Novo" à mulher de Marx – Reaberto o "café central de uma literatura sem capital". Mais nas novas Notas Literárias...

'Todos os livros são longos demais para o meu gosto.' (Voltaire)Foto: dpa
Recém-descoberta carta de Heinrich Heine (1797–1856) à esposa de Karl MarxFoto: dpa

Foi encontrada, num arquivo em Moscou, uma carta do romântico Heinrich Heine (1797–1856) à mulher de Karl Marx, datada de 1º de janeiro de 1845. O documento até agora desconhecido foi descoberto por dois funcionários do Instituto Heine (Düsseldorf). Além de desejar feliz Ano Novo à "doutora" Jenny Marx e mandar saudações a Karl, Heine se refere a uma caixa de livros que teria encaminhado à sua esposa em Paris, durante uma viagem à Alemanha, em 1844, através do endereço da família Marx na capital francesa.

Heinrich Heine, retrato pelo pintor Moritz Oppenheim (1831)Foto: dpa

Este ocorrido e o tom familiar da carta mostram que Marx e Heine devem ter tido uma amizade bastante próxima durante uma certa época. Tudo indica que a caixa de livros contivesse um exemplar de Deutschland – Ein Wintermärchen (Alemanha – Uma Fábula de Inverno). Talvez o contato de Heine com Jenny Marx fosse mais próximo do que com o mentor do socialismo. De qualquer forma, segundo testemunhas de época, a política parece não ter tido muita importância na amizade dos dois emigrantes alemães.

Jenny Marx (1814–1881) numa pintura anônima de 1835Foto: dpa

A carta de Heine encontrada em Moscou deverá ser publicada em breve pela Akademie-Verlag (Berlim), numa edição fac-similar da correspondência da família Marx.

Busca em enciclopédias alemãs

O Google permite buscar entradas em enciclopédias alemãs, um serviço que já oferecia em inglês. Basta digitar a palavra define e o termo a ser consultado, para obter uma lista de links de entradas sobre o assunto em obras de referência.

Google

Digitando define: (com dois pontos) e logo depois o termo em questão, a busca se restringe a enciclopédias. Geralmente se obtêm referências a artigos da Wikipedia alemã; em alguns casos, o usuário também é remetido a outras fontes.

O site www.msn.com, por sua vez, abriu recentemente a opção de consultar o dicionário enciclopédico Encarta em diversas línguas, inclusive em alemão.

"Cúpula" de três veteranos do Grupo 47

Günter GrassFoto: DW

Desde 1967, ano de dissolução do círculo literário Gruppe 47, eles não se encontravam para um evento público. Para tirar o atraso, Günter Grass, Hans Magnus Enzensberger e Peter Rühmkorf convocaram em meados de abril, em Lübeck, o "encontro de cúpula da poesia alemã", do qual somente os três participaram.

Hans Magnus EnzensbergerFoto: dpa

Grass (77), Nobel da Literatura de 1999, sempre escreveu poesia, mas se consagrou como narrador e passou a viver da fama. Apesar de Rühmkorf (75) estar reeditando suas obras desde o fim dos anos 90, ele é considerado um autor sem legado, praticamente apenas história literária. E Enzensberger (75), o poeta mais renomado dos três, tem feito mais barulho como organizador de livros e coleções do que como poeta.

Peter RühmkorfFoto: dpa

Mesmo chamados pela imprensa de "dinossauros imortais da literatura alemã", os três insistiram na contemporaneidade de sua produção literária. Enzensberger desmentiu que o evento, no qual os escritores se alternaram na leitura de seus próprios poemas, fosse um encontro de veteranos: "Continuamos trabalhando. Isto não é apenas uma retrospectiva".

Heinrich Böll, Ilse Aichinger e Günther Eich no encontro do Gruppe 47 em 1952Foto: dpa

O Grupo 47 – um círculo literário criado em 1947 para resgatar a língua alemã da contaminação pela propaganda nazista – nunca foi homogêneo, conforme ressaltou Rühmkorf. Basta lembrar que o grupo também incluiu, além de autores mais conformes com as tendências da época, escritores tão inovadores como Paul Celan, Arno Schmidt e Peter Handke. "Nós três sempre nos entendemos bem. Reagimos contra a poesia vigente na década de 50 e tivemos trajetórias semelhantes. É isso que nos une", explicou Grass. Foi por isso que resolveram reeditar o "café central de uma literatura sem capital", como já havia denominado Enzensberger o Grupo 47.

Editores à venda

Há muitos editores que se vendem para sobreviver na indústria da literatura. Mas chegar ao ponto de se expor na vitrine, isso só mesmo na performance que houve em Berlim no Dia Internacional do Livro (23). O dia 23 de Abril foi declarado pelas Nações Unidas "Dia Mundial do Livro". A iniciativa foi inspirada no hábito catalão de dar rosas e livros de presente no dia de São Jorge. Além disso, foi nesta data que morreram William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

Biografia de um auto-retratado

A primeira biografia do Nobel de Literatura Elias Canetti, de Sven Hanuschek

Não é fácil biografar um escritor que escreveu tanto sobre sua própria vida como Elias Canetti (1905–1994). Mas o crítico literário Sven Hanuschek convenceu a crítica alemã com seu livro Elias Canetti – Biografie (Munique: Carl Hanser Verlag). O livro foi considerado até mesmo um saudável "antídoto contra as informações romantizadas" que Canetti deu sobre sua própria história (Frankfurter Rundschau).

O Nobel da Literatura de 1981 traçou seu auto-retrato em A Língua Absolvida (Die gerettete Zunge, 1977), Uma Luz no meu Ouvido (Die Fackel im Ohr, 1980), O Jogo de Olhos (Das Augenspiel, 1985) – todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Ao todo, este escritor nascido na Bulgária publicou cerca de mil páginas, sendo que seu espólio é quase dez vezes maior. Não é à toa que Canetti, apesar de ter se tornado mundialmente conhecido por causa do Prêmio Nobel, era insatisfeito com sua produção literária. Este é um dos traços revelados na biografia, que apresenta Canetti como "uma vítima de acidente do século, um escritor de livros megalomaníacos sempre bloqueado por calamidades pessoais" (FAZ).

Elias Canetti recebendo o Nobel de Literatura em 1981Foto: AP

O biógrafo foi um dos primeiros estudiosos a ter acesso ao abrangente espólio de Canetti, que deverá ser publicado gradativamente até 2024 por estipulação do próprio escritor.

Leia resenha do último de livro do poeta Thomas Kling. >>>

Poesia em Resenha

Thomas Kling: Auwertung der Flugdaten. Köln: Dumont, 2005.

Thomas Kling, 'Auswertung der Flugdaten'

Dá para dizer que a morte sempre chega fora da hora. Mas no caso do poeta Thomas Kling, falecido aos 47 anos no último dia 01/04, com certeza ela chegou cedo demais, levando a imprensa alemã a lamentar em uníssono a perda de uma das vozes mais promissoras da poesia contemporânea alemã.

Ligado desde cedo aos poetas do círculo de Viena, especialmente a Friederike Mayröcker e Ernst Jandl, Thomas Kling (1957–2005) lançou seus primeiros experimentos poéticos com oralidade da linguagem na década de 80, misturando variantes dialetais e registros de gíria com referências eruditas. Antes de o rap virar forma de performance poética e o poetry slam se oficializar como evento de entretenimento, Kling já se consagrara como bardo: um poeta que concebia a poesia como código híbrido entre fala e escrita.

Thomas Kling (1957–2005)Foto: dpa

Lançado pouco antes de sua morte, seu último livro de poemas e reflexões poetológicas – Auswertung der Flugdaten (Apuração dos Dados de Vôo; Colônia: Dumont 2005) – é ao mesmo tempo caixa-preta e legado poético. Caixa-preta, por conter referências explícitas ao combate da doença que vitimou o autor (TK morreu de câncer de pulmão), meros indícios de uma fatalidade que se mantém oculta ao leitor. E legado, por esboçar os interesses literários e filosóficos do poeta em forma de breves reflexões e investigações.

Kling resgata as origens da linguagem e poesia, seja em busca de suas formas ritualísticas, no encalço do surgimento da escrita, à procura da expressão humana anterior à articulação, seja o êxtase das bacantes ou o oráculo sibilino. Tudo isso, sem perder de vista a efemeridade da tradição, sem deixar de assinalar que, mesmo inscritas na história literária, as vozes individuais passam.

"e a outra,

camuflagem final:

a memória

se dissipa."

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