1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Maiores projetos militares da Europa estão ameaçados

Shristi Mangal Pal
26 de maio de 2026

Disputas entre França e Alemanha sobre liderança, prioridades e controle industrial ameaçam fragmentar projeto de caças de € 100 bilhões. Tensões agora atingem também um projeto franco-alemão de tanques.

Protótipo do caça exposto em uma área externa
Modelo do futuro caça em exposição no Salão Aeronáutico de Paris 2025Foto: VDWI Aviation/Visually/picture alliance

A Europa queria se unir para construir um caça de nova geração. Em vez disso, o maior projeto de defesa do bloco pode agora resultar em duas aeronaves separadas.

A Airbus, que representa o lado alemão e espanhol no sistema Future Combat Air System (FCAS), disse à DW que está aberta a reestruturar o programa após anos de disputas políticas e industriais.

Isso poderia incluir uma "solução de dois caças", permitindo que França e Alemanha desenvolvam aeronaves de combate separadas, ao mesmo tempo em que continuam cooperando em drones, sensores e nos sistemas digitais que conectam o campo de batalha em tempo real.

A reviravolta: o próprio caça pode deixar de ser a parte mais importante do projeto.

A proposta marca uma mudança significativa para um projeto que antes era visto como símbolo da unidade militar franco-alemã.

"No FCAS, o trabalho continua com os governos francês, alemão e espanhol para decidir o caminho a seguir", disse um porta-voz da Airbus à DW.

FCAS ainda pode ser salvo?

O presidente-executivo da Airbus, Guillaume Faury, afirmou que o programa mais amplo ainda faz sentido, mesmo que o caça — seu elemento central — permaneça travado.

"O impasse de um único pilar não deve comprometer todo o futuro dessa capacidade europeia de alta tecnologia”, disse, acrescentando que a Airbus apoiaria uma solução com dois caças, caso os governos assim decidam.

A disputa levanta agora uma questão mais ampla: as principais potências europeias ainda conseguem desenvolver grandes sistemas de armas em conjunto?

A história por trás do FCAS

O FCAS foi lançado pela França e pela Alemanha em 2017, com a Espanha aderindo posteriormente. Avaliado em cerca de 100 bilhões de euros, o projeto pretende entregar um sistema de combate aéreo de sexta geração por volta de 2040.

Em 2023, o então chanceler federal alemão Olaf Scholz (esq.) posa para foto ao lado do então líder do FCAS, Bruno Fichefeux, e do presidente francês Emmanuel MacronFoto: Benoit Tessier/AP Photo/picture alliance

Mas o programa vai muito além de um caça de nova geração. Ele inclui drones, plataformas remotas, motores e uma "nuvem de combate" projetada para conectar aeronaves, sensores e dados do campo de batalha em tempo real.

Mas o próprio caça se tornou a principal fonte de conflito.

Ambições nucleares dividem parceiros

A França quer que a futura aeronave possa operar a partir de porta-aviões e transportar armas nucleares. A Alemanha, que não é uma potência nuclear, não compartilha desses requisitos. Berlim já decidiu comprar caças F-35 de fabricação americana para missões nucleares no âmbito da Otan.

O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, reconheceu recentemente essa divisão. Segundo ele, a França precisa de um caça de nova geração com capacidade nuclear, enquanto a Alemanha não tem essa mesma necessidade para suas forças armadas. Caso essas diferenças não sejam resolvidas, alertou, "não será possível manter o projeto".

Conflito industrial trava o projeto

O desacordo político é consequência de uma disputa industrial. A Dassault Aviation, fabricante francesa do caça Rafale, quer liderar claramente o desenvolvimento da nova aeronave. Já a Airbus Defence and Space, que representa interesses alemães e espanhóis, busca um papel maior.

O resultado é um conflito prolongado sobre liderança, divisão de trabalho e transferência de tecnologia. Diversas tentativas de mediação não conseguiram produzir um avanço.

Agora, a Airbus sinaliza que a solução pode ser parar de tentar fazer uma única aeronave atender a todas as necessidades.

"Nuvem de combate” pode sobreviver

Para muitos analistas, a parte mais importante do FCAS pode já não ser o caça em si.

A chamada "nuvem de combate" — o sistema digital que conecta aeronaves, drones, sensores e armamentos — é vista como a área em que a cooperação europeia ainda tem maior potencial.

Apresentação do futuro caça do FCAS no Salão Aeronáutico de Paris 2022Foto: Benoit Tessier/dpa/Pool/Reuters/AP/picture alliance

Especialistas destacam que a Europa continua fortemente dependente dos Estados Unidos nesse campo. Outros argumentam que drones, software e integração de sistemas podem avançar mesmo que o projeto do caça seja dividido ou reduzido.

Isso representaria uma vitória política menor do que a visão original, mas poderia evitar o colapso total do FCAS.

Futuro "supertanque" europeu também em risco

Os problemas do FCAS já começam a afetar outro grande projeto franco-alemão: o Main Ground Combat System (MGCS).

O MGCS deve substituir os tanques Leopard 2, da Alemanha, e Leclerc, da França. O projeto foi lançado junto com o FCAS, em 2017, como parte de um acordo político mais amplo entre Paris e Berlim.

A divisão era clara: a França lideraria o caça do futuro, enquanto a Alemanha ficaria responsável pelo novo tanque, devido à sua forte indústria de veículos blindados. A ideia não era apenas desenvolver armamentos, mas também reforçar a cooperação militar entre duas das maiores potências europeias.

Mas esse equilíbrio agora parece frágil. Se o FCAS for dividido, reestruturado ou enfraquecido, isso pode comprometer o acordo por trás do MGCS. O projeto do tanque já enfrentou atrasos. França e Alemanha concordaram em avançar para a próxima fase em 2024, mas o sistema não deve entrar em operação antes de 2040.

Um teste para a indústria de defesa europeia

A invasão da Ucrânia pela Rússia levou os governos europeus a aumentarem os gastos com defesa e a reduzirem sua dependência dos Estados Unidos. Desde então, a União Europeia tem defendido uma maior aquisição conjunta de armamentos e uma indústria de defesa europeia mais forte. No entanto, a incerteza em torno do programa FCAS demonstra o quão difícil essa ambição pode ser na prática.

Analistas de defesa da Carnegie Endowment for International Peace afirmam que o resultado do FCAS poderá moldar o futuro da cooperação europeia no campo da defesa nos próximos anos. Caso o programa fracasse, os governos poderão tornar-se muito mais cautelosos quanto ao lançamento de projetos multinacionais de armamento desta magnitude.

Como a IA se tornou importante na estratégia militar moderna

07:18

This browser does not support the video element.

Pular a seção Mais sobre este assunto
Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque