Marco Aurélio, um líder ainda atual, 18 séculos depois
Petra Lambeck
11 de junho de 2025
O que é preciso para ser feliz? O que é uma boa governança? Em suas "Meditações", o imperador-filósofo abordou questões tão antigas quanto a humanidade, e é constantemente citado nas redes sociais.
Para os romanos, Marco Aurélio foi um imperador exemplarFoto: imageBROKER/dpa/picture alliance
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"Olha para dentro de ti! Lá está uma fonte de bem que nunca deixa de jorrar, se tu não paras de cavar."
Frases sábias como esta se encontram nas Meditações do imperador romano Marco Aurélio (121-180). Apesar de não terem sido concebidas para publicação, hoje, traduzidas para numerosos idiomas, elas contam entre os escritos mais divulgados, ao lado da Bíblia e do Alcorão. Um bestseller, por assim dizer.
O soberano-filósofo anotou essas considerações para si mesmo numa época em que as guerras com a tribo germânica dos marcomanos abalavam as bases do Império Romano. Além disso, problemas econômicos, tensões sociais e a epidemia de peste antonina, uma forma de varíola, assolavam todo o império.
Enquanto grande admirador do estoicismo, a escola filosófica fundada pelo grego Zenon de Cítio por volta de 300 a.C., um dos princípios fundamentais para Marco Aurélio era a equanimidade. E uma questão o ocupava intensamente: o que caracteriza um bom soberano?
A grande mostra dedicada a Marco Aurélio no Museu Municipal Simeonstift de Trier, de 15 de junho a 23 de novembro de 2025, parte do princípio de que essa e outras reflexões expostas nas Meditações seguem relevantes até hoje. Seus curadores são a historiadora Viola Skiba, diretora da instituição, e o arqueólogo e diretor do Museu Estadual Renano, sediado em Trier, Marcus Reuter.
Museus de Trier homenageiam o romano com uma grande mostraFoto: Landesmuseum Trier
Filho de sua época
Segundo Skiba, a atualidade da exposição é maior do que se esperava: especialmente numa época de crises e polarização, ganha nova urgência a questão – tão antiga quanto a própria história humana – de o que constitui uma boa governança.
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Marco Aurélio se orientava pelas virtudes cardinais da Antiguidade, entre as quais sabedoria, justiça, prudência e temperança. Um ponto chave era garantir que as decisões servissem realmente ao bem comum. A historiadora lembra que, já para o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), a orientação pelo bem comum era o que separava a boa da má liderança.
Reuter complementa que Donald Trump certamente não seria um bom exemplo, aos olhos do imperador estoico, porém ressalva que este era um filho de seu tempo, crescido nas estruturas sociais da Antiguidade. Assim, ele nunca considerou acabar com a escravidão, ou questionou que houvesse indivíduos privados dos direitos de cidadão romano, ou que as mulheres fossem menos privilegiadas do que os homens.
Do ponto de vista atual, pode parecer estranho que um imperador considerado virtuoso travasse guerras sangrentas, porém os critérios da época ditavam que ele "cuidasse pela segurança do império e de seus habitantes, se necessário também com meios muito brutais", frisa o arqueólogo.
Assim, para os romanos, Marco Aurélio foi um imperador exemplar, que "estudava os processos judiciais de modo abrangente, se preocupava em pronunciar sentenças justas, sempre colocando os interesses do Estado em primeiro lugar". A ele a cidade de Trier deve sua célebre marca registrada, a Porta Nigra, parte das muralhas que mandou construir para proteger a população.
'As últimas palavras de Marco Aurélio', quadro de Eugène DelacroixFoto: Lyon MBA – Photo Alain Basset
Legado duradouro de um soberano esclarecido
A imagem do imperador-filósofo só se formou depois da publicação das Meditações, no século 15-16. Frases sábias como "Só é preciso pouco para ter uma vida feliz" podem parecer ironia, partindo de um abastado monarca, porém eram absolutamente sinceras.
De fato, Marco Aurélio praticava um estilo de vida simples, e quando o Estado entrou numa crise financeira, ele chegou a leiloar parte dos bens imperiais – isto é, de sua fortuna pessoal. "Até onde eu sei, isso é algo que nenhum outro imperador romano fez, nem antes, nem depois dele", comenta Reuter.
Em geral, ele refletia muito sobre o sentido da vida, o que talvez explique por que hoje em dia tantos jovens se interessem pelos seus escritos: "É preciso dizer: suas Meditações são um pequeno tesouro, onde se pode encontrar algo para quase toda e qualquer situação de vida."
Para Reuter, não se trata de uma obra para ser lida do início ao fim, mas sim para folhear e colher inspirações: em última análise, são as anotações particulares de um ser humano que refletia sobre o que é importante na vida. Portanto não é de espantar que, mais de 18 séculos depois, esse líder estoico seja citado com tanta frequência nas redes sociais, por todo o mundo.
A mostra em Trier visa também incitar seus visitantes à reflexão, sobre si mesmos e a sobre a sociedade, à luz das ideias de um imperador romano esclarecido. Ou, como formula Viola Skiba: "Cada sociedade se baseia no indivíduo, e se cada um também se colocar essas questões filosóficas e políticas, ela também funcionará como um todo."
Helenismos e latinismos no alemão
Para muitas palavras de origem grega ou latina, há na língua alemã também um termo de raiz germânica. Além de enriquecer o idioma, isso facilita a compreensão e mostra "porque só é possível filosofar em alemão."
Foto: Michael Zaschka/gemeinfrei
"Astrologie" é "interpretação das estrelas"
Muitas vezes, a língua alemã contém um termo correspondente de origem germânica para uma palavra com raiz grega ou latina, os chamados helenismos. Como, por exemplo, para "Astrologie" ou astrologia, que na língua germânica também pode ser chamada de "Sterndeutung", de "Stern" = estrela e "Deutung" = interpretação. Ou seja, para os alemães, "Astrologie" é a "interpretação das estrelas".
Foto: Fotolia/Noel Powell
"Melancholie" é "dor do mundo"
Muitos desses helenismos chegaram ao alemão através do latim, e a partir daí foram transformados, muitas vezes por cientistas ou artistas, numa linguagem germanizada e pictórica, o que facilitou a compreensão por uma parcela maior da população. Um exemplo é o termo "Weltschmerz" ou "dor do mundo", cunhado pelo poeta Jean Paul (1763-1825) para descrever o estado da melancolia.
Foto: imago/emil umdorf
"Labyrinth" é o "jardim da perdição"
Em alemão, para o termo "Labyrinth" ou labirinto também pode ser usada a palavra "Irrgarten", do verbo "irren" = estar errado, perder-se; e "Garten" = jardim. Nesse caso, um labirinto seria então algo como um "jardim da perdição".
Foto: Fotolia/leungchopan
"Spital" é "casa de doentes"
No alemão falado na Suíça e na Áustria, a palavra usada para hospital é "Spital", mas na Alemanha, o termo usado é "Krankenhaus", de "Kranken" = doentes e "Haus" = casa, ou seja, uma "casa de doentes". É bom lembrar que na língua germânica, a palavra "Hospital" também existe, mas ela é hoje usada em partes da Alemanha para definir um asilo de idosos ou doentes.
Foto: Getty Images/China Photos
"Telefon" é "falador de longe"
Muitas vezes, na formação por justaposição, a palavra germânica recupera o significado inicial do termo grego, como em "Telefon" ou telefone. Em grego, "tele" é longe, e "fon" = voz, tom. Embora seja um termo antigo, ainda hoje se escutam senhores ou senhoras de idade usando em vez de "Telefon" a palavra "Fernsprecher", de "fern" = longe, e "Sprecher" = falador, aparelho que fala.
Foto: Museum für Kommunikation Berlin
"Onomatopöie" é "pintura do som"
Talvez boa parte dos alemães não saiba o que a figura de linguagem "Onomatopöie" ou onomatopeia significa, mas certamente a maior parte deles sabe o que é uma "Lautmalerei", de "Laute" = som, tom e "Malerei" = pintura. Assim, para um nativo da língua germânica, uma palavra como miau não é nada mais que uma "pintura do som".
A partir, sobretudo, do Renascimento muitos textos gregos e latinos foram traduzidos para o alemão, e a invenção da imprensa por Gutenberg possibilitou que tais escritos fossem lidos por uma parcela maior da população. Nada mais óbvio que facilitar a sua compreensão. Assim uma palavra como "Kalligrafie" (caligrafia) se tornou "Schönschrift", de "schön" = belo e "Schrift" = escrita.
Foto: picture-alliance/dpa
"Patriarchat" é "domínio dos pais"
Assim como no inglês, muitas vezes o uso de helenismos ou latinismos em alemão denota maior escolaridade, ou algumas vezes talvez maior presunção. De qualquer forma, para os que não preferirem usar o termo "Patriarchat" ou patriarcado, há também a palavra justaposta "Väterherrschaft", de "Väter" = pais e "Herrschaft" = domínio. Para um alemão, patriarcado nada mais é que o "domínio dos pais".
Foto: picture-alliance/dpa
"Xenophobie" é "hostilidade ao estrangeiro"
Uma palavra que volta regularmente aos noticiários é "Xenophobie" ou xenofobia, o seu uso, no entanto, é mais frequente na forma germanizada: "Fremdfeindlichkeit". De "Fremd" = estranho, estrangeiro; e "Feindlichkeit" = hostilidade, animosidade. Embora helenismos existam até mesmo antes que seu correspondente germânico, tais palavras são muitas vezes chamadas de "estrangeiras" pelos alemães.
Foto: picture-alliance/dpa
"Epitaph" é "inscrição na tumba"
Talvez nem toda criança saiba o que é um "Epitaph" ou epitáfio, mas todos podem compreender quando se fala em "Grabinschrift", de "Grab" = tumba e "Inschrift" =inscrição, ou seja, uma "inscrição na tumba". Aparentemente, o uso de uma linguagem pictórica remonta a algo bastante atávico, como faziam nossos antepassados indígenas, mas isso talvez explique "por que só é possível filosofar em alemão."