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Merkel remove quadros de pintor com passado nazista

Stefan Dege
9 de abril de 2019

Chanceler federal decidiu tirar de seu gabinete dois quadros de Emil Nolde, um dos mais importantes expressionistas alemães. Discussão sobre o passado do artista, que era antissemita, foi novamente retomada no país.

Merkel com um quadro ao fundo
Angela Merkel com um quadro de Nolde ao fundoFoto: picture-alliance/ dpa

Dois quadros do pintor Emil Nolde que decoravam o gabinete da chanceler federal Angela Merkel, Blumengarten – Thersens Haus, de 1915,  e Brecher, de 1936, foram devolvidos à proprietária das obras, em meio ao debate na Alemanha sobre o passado nazista de um dos maiores nomes do expressionismo alemão. 

Os quadros, que decoravam o local de trabalho da chefe de governo alemã, eram um empréstimo dos Museus Estatais de Berlim, que fazem parte da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano.

Duas exposições em Berlim podem ter desencadeado a devolução: o museu Hamburger Bahnhof abre no final de semana a exposição Emil Nolde, Uma lenda alemã - O artista no nacional-socialismo. Pouco depois, o museu Brücke em Berlim terá a mostra Fuga pelos quadros?, sobre artistas do grupo expressionista Die Brücke nos tempos do nazismo.

Óleo sobre tela "Brecher", de Emil Nolde (1936)Foto: Nolde Stiftung Seebüll/J. P. Anders

Ambas as casas pertencem à Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano. Nas duas exposições, os organizadores tentam esclarecer o mito do artista proscrito durante a era nazista. O fato de Nolde ter sido um nazista fervoroso já deveria ser conhecido na Chancelaria Federal. O mais tardar há cinco anos, com a exposição sobre Nolde na galeria Städel, em Frankfurt, que trouxe essa visão para a consciência pública.

Os escritos do pintor, sua autobiografia e numerosas cartas que o artista escreveu a lideranças nazistas comprovam isso. Eles incluem comentários antissemitas, especialmente contra artistas judeus como Max Liebermann e galeristas como Bruno Cassirer.

Mesmo depois do início da Segunda Guerra Mundial, Nolde lutou pelo reconhecimento junto aos nazistas. Durante muito tempo ele manteve a esperança de que o regime reconhecesse o expressionismo como arte estatal, tendo ele como um representante excepcional. Afinal, Nolde – ao contrário de Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein, Erich Heckel, Hannah Höch e Otto Dix – tinha evitado temas críticos. Em vez disso, ele permaneceu fiel a temas alemães e cristãos.

As exposições em Berlim mostram os resultados das pesquisas feitas até agora sobre Emil Nolde. Elas revelam que o pintor não foi seduzido pelos ideais nazistas. Em sua autobiografia no pós-guerra ele tentou se retratar como "não ajustado". E dizem que nenhum outro pintor teve tantas obras confiscadas e, em 1937, elas foram exibidas de forma destacada na exposição de propaganda em Munique chamada "Arte Degenerada".

Emil Nolde em 1952Foto: picture alliance/akg-images

O próprio Nolde não foi o único a cultivar o mito do artista perseguido e banido. Críticos de arte e até mesmo a literatura abordaram a questão, como o romance de Siegfried Lenz Deutschstunde (aula de alemão, em tradução livre), por exemplo, enfocou indiretamente a história do pintor.

Numa pesquisa meticulosa apoiada pela Fundação Nolde, a historiadora de arte Aya Soika e o historiador de Cambridge Bernhard Fulda atualizaram a pesquisa sobre Nolde. A conclusão deles é que o artista odiava judeus e demonstrou apoio a Hitler.

Depois de tomar posse em 2013, o diretor da Fundação Nolde, Christian Ring, abriu os arquivos, que permaneceram guardados por longo tempo. No site da fundação, lê-se que ela se vê "na obrigação de esclarecer equívocos sobre a pessoa de Emil Nolde que surgiram no passado como um fenômeno da repressão alemã do pós-guerra".

Christian Ring diz não entender a recente excitação em torno do artista, pois, segundo ele, a história já era conhecida há bastante tempo. "Por um lado, ele é um grande artista cuja arte teve uma influência decisiva no desenvolvimento da história da arte alemã e que ainda hoje é visto como exemplo por muitos artistas, por ter proclamado a cor como o meio real. Por outro lado, é uma pessoa que ficou presa no seu tempo, como muitos outros milhões de alemães."

Isso ainda não afetou a popularidade de Nolde. Suas luminosas paisagens pantanosas e marítimas ainda são favoritas do público, assim como suas cenas bíblicas e as recorrentes e coloridas aquarelas de flores. A procura pelas obras de Nolde continua ininterrupta, com preços estáveis no mercado de arte.

Para substituir as pinturas de Nolde no gabinete de Merkel, foram encomendadas à Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano duas pinturas do expressionista Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976).

O diretor da Fundação Nolde considera essencial um debate mais amplo. "Como lidamos com a música criada naquela época, assim como com os prédios da era nacional-socialista? Questionamos os princípios democráticos dos artistas contemporâneos?", pergunta o historiador da arte. "Acho que temos de nos conscientizar do elevado valor da liberdade na arte". E agora temos oportunidade para discutir isto.

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