Sem o excêntrico e imprevisível trompetista, a história da música americana seria totalmente outra. Há 25 anos morria Miles Davis, pioneiro e explorador, do be-bop ao pop.
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O som do trompete paira suave e puro acima do contrabaixo e bateria. Solitário, galga notas mais agudas, para tombar em seguida. Cool e relaxado, brinca com as harmonias, explorando trilhas melódicas sempre novas, até aterrissar delicadamente, abrindo espaço para o próximo instrumento solista.
Bags' Groove dura 11 minutos e 12 segundos, mas para o ouvinte o tempo parece voar. A gravação é o resultado de uma sessão na noite de Natal de 1954, com a Miles Davis Band e dois convidados já famosos na época: Milt Jackson (vibrafone) e Thelonious Monk (piano).
Nascimento do modern jazz
A sessão não transcorrera sob um bom signo. O chefe da gravadora havia chamado os dois outros artistas sem o conhecimento de Miles. Ele não tinha nada contra Jackson, mas, a seu ver, esse Monk "só toca acordes errados". Por isso, ficou proibido de acompanhar o trompetista líder durante os solos.
Tais circunstâncias acabam se revelando um golpe de sorte. Pois Miles tem plena liberdade para improvisar, e a diferença entre Jackson e Monk é valorizada de forma genial. Os estilos extremamente distintos dos músicos transformam essa gravação numa das mais excitantes do jazz dos anos 50.
São gravadas logo duas versões de Bags' Groove, lançadas três anos mais tarde num LP homônimo. Entre as cinco outras faixas, igualmente antológicas, está Oleo, do saxofonista Sonny Rollins. Aqui se ouve pela primeira vez o típico som nasal do trompete com surdina de metal, que se transformará na marca registrada de Miles.
O crítico Whitney Balliett descreve o jeito do trompetista tocar nesse álbum como "alguém que anda sobre cascas de ovos". A opinião da cena jazzística é unânime: o álbum Bags' Groove é a pedra fundamental do modern jazz. Mas a história não acaba aí.
Miles e seu segundo quinteto em 1965Foto: picture alliance/IMAGNO/Votava
Vanguarda e "liberdade controlada"
Desde que, em meados dos anos 1940, o lendário saxofonista Charlie Parker contratara o jovem trompetista para tocar em seu be-bop combo, Miles Davis trabalhava como um louco, explorando dimensões musicais sempre novas.
Após fundar seu primeiro quinteto, em 1957 ele gravou nada menos do que quatro LPs. Os integrantes eram o saxofonista John Coltrane, o pianista Red Garland, o baixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones – todos músicos que mais tarde ocupariam o primeiro escalão do jazz.
Tendo Bill Evans como arranjador, nasce também um álbum de big band inusitado: a orquestra não tem saxofones, mas, em compensação, flautas, um oboé e trompas. O único solista é Miles, ao flugelhorn, instrumento de som mais doce e redondo do que o do trompete. Miles ahead (jogo de palavras com "milhas adiante") é quase um álbum conceitual; uma suíte em que cada peça se funde com a seguinte.
Um ano mais tarde, Miles Davis volta a ativar seu quinteto, ampliando-o com Cannonball Adderley ao saxofone alto. O resultado é mais um disco lendário, de título evocativo: Milestones pode ser interpretado tanto como "marco miliar" quanto como "sons de Miles".
Surdina de metal, marca registrada do jazzistaFoto: picture-alliance/akg-images/Binder
De lenda em lenda, o ano de 1959 vê o lançamento de Kind of blue. A essa altura, Miles é um dos músicos mais bem-pagos do mundo – um feito ainda mais admirável por se tratar de um afro-americano. Ele se torna modelo para toda uma geração de artistas negros, casais batizam os filhos com seu nome.
O jazzista pode escolher à vontade com quem quer tocar, e opta pelos melhores. Em 1964, funda seu segundo quinteto, com Herbie Hancock ao piano, Wayne Shorter ao sax soprano, o contrabaixista Ron Carter e a bateria de Tony Williams.
Todos são solistas estabelecidos e pertencem à cena vanguardista do free-jazz dos anos 60. Porém Miles os integra num grupo e mostra a diferença entre tradição e vanguarda. "Você não deve simplesmente tocar de maneira caótica. Isso não é liberdade. Você precisa de liberdade controlada", cita o especialista alemão de jazz Joachim Ernst Berendt.
"O maior" em crise pessoal e criativa
A inclusão de recursos eletrônicos no mundo da música pop e rock é uma inspiração para Miles Davis. Ele afirma ser capaz de formar uma banda melhor do que a de Jimi Hendrix, e recruta, entre outros, os pianistas Joe Zawinul e Chick Corea, o baterista Billy Cobham, o guitarrista John McLaughlin e Dave Holland no contrabaixo.
Encontro de titãs: Miles (esq.) e Quincy Jones em Montreux, em julho de 1991Foto: picture-alliance/dpa/Keystone
O resultado são dois álbuns pioneiros: In a silent way e Bitches Brew. Um novo estilo conquista a cena, numa eletrizante combinação de jazz-rock, fusion jazz, electric jazz, com os instrumentos indianos sitar e tabla contribuindo com elementos de world music. Miles transforma o som do trompete com efeitos eletrônicos como o wah-wah, até então reservado aos guitarristas soul e funk, sua sonoridade se torna mais percussiva.
Miles quer fazer música para o público negro, mas tem que constatar que seus ouvintes são predominantemente brancos. À revista londrina Melody Maker, desabafa: "Eu não toco para os brancos, cara. Quero escutar um negro dizer: 'Sim, eu curto Miles Davis'!"
Como quer a lenda, esse seria o motivo para ele passar a tocar quase sempre de costas para o público. Mas desse modo também se concentra melhor em sua banda e seus músicos; por vezes, toca com uma mão no trompete, a outra no sintetizador.
Miles é "o maior" e quer continuar sendo. Mas, com o passar do tempo, a necessidade constante dessa sensação se torna quase uma doença. Em meados dos anos 70, afasta-se da vida pública, tendo excedido os próprios limites, perdido o fio condutor musical. A psique o aflige, as drogas também.
Sempre concentrado: apresentação em Hamburgo, 1991Foto: picture-alliance/Jazzarchiv/H. Schiffler
Obra inacabada
Seis anos mais tarde, contudo, a crise está superada. Em 1981 ele fascina o público do New York Jazz Festival: o velho Miles está de volta, com o som puro do trompete, sem eletrônica. Ele volta a colocar ordem no jazz-rock, tornado caótico, torna-o novamente consumível.
Após dois vigorosos álbuns funk, acaba por descobrir o pop. Em You're under arrest, de 1985, inclui o sucesso de Michael Jackson Human nature e Time after time, de Cyndi Lauper. Seus críticos consideram o disco – enfim – pop demais.
Miles nem liga: com quase 60 anos, ele já revolucionou o jazz pelo menos três vezes, foi "o maior": agora faz o que lhe dá prazer. Longe da imagem de artista problemático, até brinca com o público, é simpático com os jornalistas. Liberto, ele sabe que não precisa renovar a música mais uma vez, e por seu tranquilo álbum Tutu, de 1986, conquista um terceiro Grammy.
Cinco anos mais tarde, entra no estúdio pela última vez, com o produtor de hip-hop Easy Mo Bee, para começar a gravar Doo-Bop. No entanto, só consegue completar seis faixas, antes de um derrame colocá-lo em coma. Em 28 de setembro de 1991, a família decide mandar desligar os aparelhos médicos que o mantêm vivo.
Seu último disco é lançado postumamente no ano seguinte. Easy Mo Bee acrescenta faixas adicionais a partir de gravações inéditas do trompetista. Doo-Bop é o álbum mais vendido de Miles Davis.
Para o seu documentário sobre a cantora, o diretor britânico Asif Kapadia encontrou imagens reveladoras de Winehouse. São fotografias que mostram uma jovem e frágil mulher.
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Excessos e fragilidade
Amy foi uma jovem divertida, com senso de humor, e uma cantora de talento fora do comum. A britânica viveu uma vida digna de um drama, alcançando enorme sucesso, mas sucumbindo de forma fatal. O documentário do diretor britânico Asif Kapadia, o mesmo do premiado "Senna", já estreou nos cinemas europeus. Ele ainda não tem data para entrar no circuito brasileiro.
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Cachos negros e cílios longos
Mesmo que o filme de Kapadia se concentre pouco na história da artista antes de atingir o sucesso, o documentário ilustra, com fotos até então desconhecidas, trechos sobre a juventude de Amy no norte de Londres. De origem judaica, a artista viu os pais se separarem quando tinha nove anos. Nesta foto não datada, Amy mostra que já era pensativa desde criança.
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Juventude rebelde
Também presente no documentário, a imagem acima mostra Amy nos tempos de escola. Excêntrica, a britânica nunca se adaptou totalmente aos colégios por qual passou – cinco, no total. A faculdade no Londoner Theater School também foi interrompida depois de um ano. Porém, a música já tinha um papel importante na vida da cantora, que começou a escrever as primeiras canções na época de colégio.
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A conquista da Inglaterra
Amy dizia que só era capaz de compor músicas baseada em experiências próprias. Aos 19, ela assinou o primeiro contrato com uma gravadora. Com exceção de duas faixas, a cantora escreveu todas as letras do primeiro álbum, “Frank". O disco foi um sucesso na Inglaterra e a catapultou para o sucesso. Em 2004, a maquiagem de sombra já era uma marca registrada da cantora – porém, mais discretamente.
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A filhinha do papai
Em 2004, Amy se apresentou em um festival em Wimbledon. As imagens daquele concerto mostram uma artista ainda inocente. Na época, o pai, Mitch, assessorava a carreira da britânica.
Foto: Getty Images/B. Vincent
Sucesso com visual retrô
O reconhecimento internacional veio em 2007, com “Back to Black”. O segundo álbum da cantora alcançou o topo das paradas de 14 países. Simultaneamente, Amy assumia o visual retrô, com tatuagens extensas e o coque típico das divas do soul. Naquele ano, a britânica se apresentou em festivais pelo mundo e excursionou em seu país natal. Porém, em novembro, os problemas com o alcoolismo viriam à tona.
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Prêmios e honrarias
Em novembro de 2007, Amy foi se apresentou em Munique pelo MTV Europe Music Awards. De quebra, ela ainda levou o prêmio na categoria “Artist’s Choice”. Durante oito anos, a artista esteve no centro da indústria fonográfica, tendo gravado dois álbuns. Mesmo com a morte de Amy, em 2011, hits como “Back to Black” e “Rehab” fazem dela uma cantora eterna.
Foto: Getty Images/MTV
Escândalos e abusos
Amy Winehouse ganhou vários Grammys, e suas canções dominaram por muito tempo as paradas internacionais. Entretanto, a partir de 2007, a cantora começou figurar mais e mais nas manchetes dos tabloides por causa da sua predileção por álcool e drogas. A foto acima mostra Amy durante um show em Dublin, na Irlanda.
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Afundando no vício
Logo depois do ápice, veio a queda. Amy não conseguia se livrar do nocivo relacionamento com Blake Fielder-Civil, com quem foi casada entre 2007 e 2009. Segundo boatos, Blake teria levado a esposa a drogas pesadas e impedido mais de uma vez que ela se internasse em clínicas de reabilitação. As interferências do empresário e do pai também fizeram Amy tomar uma série de decisões questionáveis.
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O lado negro do sucesso
No fim de 2007, Amy era a mulher mais bem paga do show business do Reino Unido. Na cerimônia do Grammy, um ano depois, ela levaria nada menos que cinco estatuetas. A participação da cantora, contudo, teve de ser feita por vídeoconferência, já que a britânica havia tido problemas para tirar o visto para os EUA por causa de incidentes com drogas.
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Apoio a Nelson Mandela
No festival em comemoração aos 90 anos de Nelson Mandela, no Hyde Park de Londres, Amy se apresentou sem grandes problemas. O show também serviu para prestar apoio às iniciativas, fomentadas pelo sul-africano, de prevenção à Aids e promoção da saúde. Porém, a própria saúde de Amy se manteve instável, o que fez com que ela fizesse poucos shows em 2008.
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Sobrevivendo de lampejos
Em 2008, Amy Winehouse se mostrava cada vez mais vítima da autodestruição. Por causa do vício, ela se tornou bulímica, aparentando uma fragilidade crescente. Ainda assim, nenhuma cantora do mundo vendeu tantos álbuns entre 2007 e 2008.
Foto: picture-alliance/dpa
No tribunal
De janeiro a agosto de 2009, Amy se internou em uma clínica de reabilitação em Santa Lúcia, no Caribe. O pai continuava a apoiando, mas a artista praticamente não se apresentava mais. Em julho de 2009, ela teve de ir ao tribunal, em Londres, responder por uma agressão a uma fã. Na ocasião, Amy aparentava seriedade, trajando um colar de pérolas e um belo penteado.
Foto: Getty Images/AFP/S. Curry
Perdendo o equilíbrio
Amy continuou longe dos palcos. Em janeiro de 2010, ela teve de ir novamente a tribunal por ter agredido um gerente de teatro de Milton Keynes, na Inglaterra. A cantora se declararia culpada.
Foto: dapd
Esperança e declínio
Em 2011, a cantora finalmente, conseguiu se apresentar novamente. O retorno, por sinal, aconteceu em Florianópolis, em janeiro daquele ano. Na apresentação, Amy interpretou, pela primeira vez em cinco anos, novas canções – que deveriam entrar no seu terceiro disco. A estreia da turnê europeia, porém, terminou em desastre, com a cantora bêbada e mal conseguindo se manter em pé.
Foto: picture-alliance/AP Photo/N. Goulart
O trágico fim
Depois disso, a cantora perdeu as últimas energias que ainda a faziam ter esperança de voltar aos palcos. Por fim, há quatro anos, em 25 de julho de 2011, Amy foi encontrada sem vida em seu apartamento, em Londres. A causa mortis foi uma intoxicação alcoólica. Muitos, porém, acreditam que a pressão da indústria fonográfica teve culpa na morte precoce da cantora – que tinha apenas 27 anos.
Foto: picture-alliance/dpa
Monumento em memoria a uma grande cantora
Ano passado, Mitch Winehouse inaugurou um memorial à filha, localizado na estação londrina de Campten Town. Para o filme de Asif Kapadia, Mitch forneceu um extenso material. O resultado, porém, não o agradou. Segundo ele, o filme retrata Amy de forma equivocada. Kapadia, por sua vez, apenas tentou prestar uma homenagem a uma inesquecível cantora.