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Moeda revela povoado onde 337 espanhóis morreram de fome

22 de abril de 2026

Peça de prata foi enterrada por navegador em 1584 nos alicerces de uma igreja na Patagônia. Quatro séculos e meio depois, arqueólogos a encontraram exatamente onde ele disse que a havia deixado.

Moeda de prata sobre a terra, ao lado de pequena régua
Moeda de prata confirmou a fundação espanhola do assentamento no Estreito de MagalhãesFoto: Richard Bezzaza/Jam Press/IMAGO

Após anos de investigações, a descoberta de uma pequena moeda de prata "real de a ocho" (também conhecida como "dólar espanhol"), cunhada na época do rei Filipe 2°, pôs fim a uma das lendas mais trágicas da colonização espanhola da América.

Uma equipe interdisciplinar chilena encontrou o objeto onde o navegador galego Pedro Sarmiento de Gamboa disse tê-lo colocado: nos alicerces da efêmera cidade de Rey Felipe, a segunda colônia mais meridional fundada pelos conquistadores espanhóis e mais conhecida como "Puerto del Hambre" (Porto da Fome) devido à terrível história de abandono que a acompanha. 

Um clarão circular prateado, emergindo da lama, confirmou que foram os espanhóis que fundaram este assentamento fadado ao infortúnio no Estreito de Magalhães, a cerca de 56 quilômetros ao sul da atual cidade de Punta Arenas, no Chile.

"Encontramos a moeda exatamente no local e na posição descritos por Sarmiento em seus escritos", explica Soledad González Díaz, pesquisadora do Centro de Estudos Históricos e Humanidades da Universidade Bernardo O'Higgins, sobre a peça, que tem a cruz de Jerusalém de um lado e o brasão de armas de Filipe 2° do outro.

Díaz e vários outros pesquisadores trabalharam em sua pesquisa no âmbito de um projeto financiado pela Agência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Chile (Anid), intitulado: Mergulhando na epopeia do fracasso: uma abordagem multidisciplinar à cidade de Rey Don Felipe (Puerto del Hambre), Magalhães, século 16.

Primeira pedra de uma colônia fadada ao fracasso

Foi o próprio Sarmiento de Gamboa quem, em 25 de março de 1584, lançou a primeira pedra da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação e enterrou aquela moeda em seus alicerces como símbolo que marcava o nascimento oficial da primeira tentativa de colonização da costa norte do Estreito de Magalhães.

Moeda foi encontrada sobre uma pedra nos alicerces da igreja em ruínas na colônia Rey Don FelipeFoto: Richard Bezzaza/Jam Press/IMAGO

O batismo, no entanto, acabou se tornando a crônica de uma expedição infeliz, cujo fracasso representou a morte por inanição de 337 pessoas: dois frades franciscanos, colonos, soldados e marinheiros que acabaram abandonados.

Seus corpos foram encontrados três anos depois, em 1587, pelo corsário inglês Thomas Cavendish, que ancorou em uma cidade bem planejada, mas repleta de cadáveres: uma imagem macabra que o levou a apelidar o lugar de "Porto da Fome".

Descoberta que confirma a história

"É extremamente importante encontrar evidências dessa natureza in loco, não isoladamente, e que, por sua vez, dialoguem com as evidências documentais do local", disse o pesquisador Simón Urbina, arqueólogo da Universidade Austral do Chile.

A descoberta deste metal ritualístico permite aos arqueólogos projetar a localização das restantes estruturas do povoado – como casas e adegas – que aparecem num mapa do local, que foi um projeto do Império Espanhol para fortificar o estreito, após a passagem de Fernão de Magalhães em 1520.

Os pesquisadores utilizaram um sistema de geolocalização e detecção de metais com precisão milimétrica para mapear vários pontos do terreno e, nesse procedimento, a moeda foi encontrada.

"Naquela época, não sabíamos o que era, apenas detectamos um sinal muito intenso. Com todos esses dados em mãos, decidimos onde escavar e foi lá que o encontramos", explicou Francisco Garrido, arqueólogo do Museu Nacional de História Natural.

Magalhães: cinco séculos de história da Patagônia a serem descobertos

Em 2019, uma equipe de arqueólogos chilenos já havia encontrado peças de artilharia de bronze da conquista espanhola, dois canhões "meio-sacres", que pertenciam à expedição do marinheiro Sarmiento.

Em 1584, a Espanha fundou a colônia de Rey Don Felipe no Estreito de Magalhães como uma fortalezaFoto: Richard Bezzaza/Jam Press/IMAGO

Este novo evento, além de ampliar a lista de estudos na área, conecta diretamente as descrições de documentos históricos do arquivo colonial com a paisagem arqueológica do Estreito de Magalhães, explica Joaquín Zuleta, filólogo da Universidade dos Andes (Chile).

"E estudar, além disso, a interação dos conquistadores com os povos nativos que viajavam pelo estreito, como os tehuelches e os kawésqar", acrescentou.

A fracassada epopeia de Sarmiento deixou para trás mais do que uma moeda, uma bússola, que cinco séculos depois serve de âncora para a reconstrução da história das tentativas hispânicas de povoar as terras da Patagônia. 

md (EFE, DW)

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