Ativista e escritora austríaca, amiga de infância de Anne Frank e posteriormente sua meia-irmã por afinidade, faleceu aos 96 anos em Londres.
Eva Schloss dizia que decidiu falar sobre o Holocausto quando percebeu que continuavam a haver guerras e que persistiam a perseguição, o racismo e a intolerânciaFoto: Chris Jackson/empics/picture alliance
Anúncio
A fotógrafa e autora austríaca Eva Schloss, sobrevivente do Holocausto e meia-irmã por afinidade de Anne Frank, morreu no sábado (03/01), aos 96 anos, em Londres, anunciou no domingo a organização britânica Anne Frank Trust, da qual ela era presidente honorária.
"Eva era uma mulher extraordinária: sobrevivente de Auschwitz, educadora dedicada ao Holocausto, incansável no seu trabalho pela memória, pela compreensão e pela paz", afirmou a instituição.
O rei Charles 3º, que dançou com ela durante um evento em Londres em 2022, e sua esposa Camilla, madrinha da fundação Anne Frank Trust, disseram estar "profundamente tristes".
Amiga de infância de Anne Frank
Eva Schloss nasceu na Áustria em 1929 com o nome de solteira Eva Geiringer, e a família conseguiu fugir em 1938 para a Holanda, refugiando-se numa casa em Amsterdã, perto da de Anne Frank, a adolescente judia alemã que se tornaria célebre pelo diário publicado postumamente, depois da morte dela num campo de concentração.
As duas meninas tinham a mesma idade e costumavam brincar juntas. No entanto, a partir de 1942, as duas famílias tiveram que se esconder para evitar a deportação. Eva e sua mãe, Elfriede, seu pai, Erich, e seu irmão, Heinz, foram delatados dois anos depois por um simpatizante nazista.
Eles foram presos no dia do 15º aniversário de Eva e enviados para o campo de extermínio de Auschwitz em maio de 1944. Eva conseguiu manter contato com a mãe, mas foi separada do pai e do irmão, que foram mortos. Eva e a mãe, Elfriede, sobreviveram e foram libertadas em 1945.
Pouco depois da libertação, Eva seguiu para Londres para estudar, e a mãe Elfriede ficou em Amsterdã, onde acabou se casando com Otto Frank, pai de Anne Frank, também viúvo e sobrevivente do Holocausto. Anne, a irmã Margot e a mãe delas, Edith, também foram mortas pelo regime nazista.
Anúncio
Décadas em silêncio
Em Londres, Eva tornou-se fotógrafa profissional, obteve nacionalidade britânica e passou décadas sem falar sobre a experiência vivida em Auschwitz, até ao dia em que, em 1988, Londres recebeu uma exposição dedicada a Anne Frank.
"Estava longe de me envolver em política, mas percebi que o mundo ainda não tinha aprendido sobre os acontecimentos entre 1939 e 1945, que continuavam a haver guerras e que persistiam a perseguição, o racismo e a intolerância. Então decidi compartilhar a minha experiência", contou Eva Schloss.
Em 1991, ela ajudou a fundar a organização Anne Frank Trust no Reino Unido, como forma de preservar o legado da meia-irmã por afinidade e de falar sobre o Holocausto. Em 2021, Eva Schloss obteve a nacionalidade austríaca.
as/le (Lusa, DPA, AFP)
Jovem alemã escondeu-se na Holanda durante 25 meses, até que a família foi descoberta e deportada para Auschwitz, em 4 de agosto de 1944. Graças a seu diário, ela ainda é conhecida mundo afora.
Foto: picture-alliance/dpa
Margot, a irmã mais velha
Anne (na frente, à esquerda) tinha uma irmã três anos e meio mais velha, Margot (no fundo, à direita). O pai Otto Frank tirou esta foto no aniversário de oito anos de Margot, em fevereiro de 1934, quando a família já estava na Holanda.
Foto: picture-alliance/AP Photo
Escondidos em Amsterdã
Em Amsterdã, o pai de Anne assumiu a filial da empresa Opekta (foto). Quando a perseguição aos judeus começou, ele montou um esconderijo nos fundos da casa. De 1942 a 1944, os quatro membros da família viveram no local junto com outros quatro judeus. No esconderijo, Anne escreveu seu famoso diário. Desde 1960, a casa é um museu.
Foto: Daniel Kalker/picture alliance
O esconderijo
No museu em Amsterdã, os visitantes podem visitar hoje uma réplica do antigo esconderijo nos fundos da casa. Por meses, Anne dividiu um quarto apertado com o dentista judeu Fritz Pfeffer, que no diário ganha o nome "Albert Dussel". À direita, vê-se a escrivaninha sobre a qual ela escrevia quase todos os dias.
Foto: DW/H. Mund
Diário como confidente
O diário tornou-se uma espécie de amiga e confidente de Anne, que ela batizou de Kitty. A vida no esconderijo era totalmente diferente da que a jovem levava antes dele. "O melhor de tudo é que ao menos posso escrever o que penso e sinto, senão, ficaria completamente sufocada", diz um trecho do diário.
Foto: Ade Johnson/picture alliance/dpa
Morte no campo de concentração
Em 30 de outubro de 1944, Anne e a irmã Margot foram levadas de Auschwitz para Bergen-Belsen, onde mais de 70 mil pessoas morreram. Após a libertação do campo de concentração sob a supervisão de soldados britânicos, caminhões transportaram as vítimas para valas comuns. Anne, que tinha apenas 15 anos, e a irmã estavam entre os mortos, em decorrência do tifo.
Foto: picture alliance/dpa
Vida interrompida
Em Bergen-Belsen, há uma lápide com os nomes de Margot e Anne, que imaginava que a própria vida correria de maneira diferente. "Não quero ter vivido em vão como a maioria das pessoas. Quero ser útil e trazer alegria para as pessoas que vivem à minha volta e não me conhecem. Quero continuar viva, mesmo depois da morte", diz um trecho do diário do dia 5 de abril de 1944.
Foto: Julian Stratenschulte/picture alliance/dpa
Famosa pelo diário
O sonho de Anne era ser jornalista ou escritora. Graças ao pai, seu diário foi publicado pela primeira vez em 1947, com o título "Das Hinterhaus"("A casa dos fundos"). Depois, vieram diversas edições e traduções, e Anne tornou-se símbolo das vítimas do nazismo. "Todos vivemos com o objetivo de sermos felizes. Vivemos de maneira diferente e igual ao mesmo tempo", escreveu em 6 de julho de 1944.