Morre o documentarista franco-alemão Marcel Ophüls
26 de maio de 2025
Com o documentário "A Tristeza e a Piedade" (1969), diretor estilhaçou mito da resistência francesa ao expor escala do colaboracionismo com os nazistas na Segunda Guerra. Ele tinha 97 anos.
Marcel Ophüls em 2015Foto: Odd Andersen/AFP/Getty Images
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O documentarista franco-alemão Marcel Ophüls, célebre por suas obras que expuseram momentos dolorosos da história da França, morreu no último sábado (24/05) aos 97 anos, anunciou nesta segunda-feira a família do cineasta em comunicado.
"Através de um olhar pessoal, alimentado por uma rigorosa exigência documental, Marcel Ophüls captou momentos duradouros que a história e a política deixam na vida das pessoas. Exortou-nos a permanecer lúcidos, empenhados e profundamente ligados à democracia", escreveu o neto Andreas-Benjamin Seyfert, na nota distribuída à imprensa.
Em 1969, Ophüls provocou grande comoção na França com o documentário A Tristeza e a Piedade, que ajudou a destruir o mito fundador do pós-Guerra de que a França e os franceses haviam resistido em massa à ocupação nazista entre 1940 e 1944.
Com o documentário, Ophuls expôs como a colaboração com os nazistas era generalizada, da elite até as pessoas mais humildes. Com mais de quatro horas de duração, o filme inclui entrevistas de oficiais alemães, colaboradores e combatentes da resistência. Para as câmeras, vários deles falaram francamente sobre a natureza e os motivos da sua colaboração com os nazistas, incluindo antissemitismo, anglofobia e desejo de poder.
Ophüls disse à época do lançamento do filme que não pretendia julgar a França. "Durante 40 anos, tive que suportar todas as tolices de que era um filme de acusação. Quem pode dizer que sua nação teria se comportado melhor nas mesmas circunstâncias?", questionou.
Marcel Ophüls nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 1927. Mas logo a sua família exilou-se na França e depois nos Estados Unidos para escapar dos nazistas.
Já depois da Segunda Guerra Mundial, Ophüls regressaria à França, tendo começado a trabalhar como assistente de direção de outros cineastas, incluindo seu pai, o conhecido diretor alemão Max Ophüls (1902-1957), que teve uma carreira prolifica tanto na Alemanha quanto nos Estados Unidos.
Após A Tristeza e a Piedade, Marcel Ophuls também dirigiu L'Empreinte de la Justice (A Marca da Justiça, 1976), que aborda diferentes crimes de guerra e contra a Humanidade, usando como pano de fundo os julgamentos de Nurembergue (1946) e a Guerra do Vietnã. Na sequência, lançou Hotel Terminus (1988), sobre o criminoso de guerra nazista Klaus Barbie. Com este filme, venceu o Oscar de Melhor Documentário em 1989.
Segundo a família, Ophüls vinha trabalhando num filme "sobre a ascensão da extrema direita na Europa e nos Estados Unidos e o conflito israelo-palestino". "Nele, analisava a ocupação dos territórios palestinos e a possível relação entre esta situação e o ressurgimento do antissemitismo na Europa", diz o comunicado.
jps/as (AFP, Lusa)
Dez famosos exilados alemães
Muitos pensadores, escritores e artistas tiveram que deixar a Alemanha para escapar da perseguição nazista. Alguns jamais retornaram ao país.
Foto: ZDF
Thomas Mann
Ainda em 1930, o escritor e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura descreveu a ascensão dos nazistas como "barbarismo excêntrico". Em 1933, ano da chegada de Hitler ao poder, Mann e a família decidiram não retornar à Alemanha depois de férias na Suíça. Eles se mudaram para a França e depois foram para os EUA em 1938. A Thomas Mann House, perto de Los Angeles, é hoje um centro cultural alemão.
Foto: picture-alliance/dpa
Hannah Arendt
Enquanto pensadores como Martin Heidegger, mentor e ex-amante de Hannah Arendt, ingressavam no Partido Nazista em 1933, ela decidiu emigrar no mesmo ano para Paris. De lá, ajudou jovens judeus a fugir para a Palestina. Para evitar o destino de muitos refugiados alemães que estavam sendo enviados para campos de internação na França, Arendt fugiu para Nova York com a mãe e o marido em 1940.
Foto: ZDF
Klaus Mann
As obras de Klaus Mann, filho de Thomas Mann, foram proibidas pelos nazistas. Ele emigrou para Amsterdã, onde fundou a revista antinazista "Die Sammlung". Mais tarde, Klaus se mudou para os Estados Unidos e se tornou um dos mais importantes representantes da literatura alemã no exílio. Ele descartou o retorno à Alemanha e morreu na França em 1949.
Foto: picture-alliance/akg-images
Lotte Laserstein
Na República de Weimar, a pintora retratava principalmente mulheres emancipadas da época. Apesar de sua crescente reputação como artista, ela foi forçada a abandonar o cenário cultural em 1933 por causa de suas origens judaicas - o fato de ter sido batizada como protestante não importava. Em 1937, mudou-se para Estocolmo, na Suécia, onde de início retratou emigrantes e, mais tarde, aristocratas.
Foto: gemeinfrei
Bertolt Brecht
Um dia após o incêndio do Reichstag em 1933, Bertolt Brecht fugiu com a família para Paris e posteriormente para a Dinamarca. Logo depois, seus livros foram queimados e banidos pelos nazistas. Muitos de seus poemas foram escritos durante o exílio. Em 1941, a família mudou-se para Los Angeles, e Brecht só voltou para Berlim em 1949 - para o lado comunista da cidade dividida.
Foto: picture-alliance/dpa
Else Lasker-Schüler
A poetisa judia alemã fazia parte da vanguarda literária quando uma tropa da SA (Sturmabteilung) a atacou na rua em 1933. A excêntrica artista, então com 64 anos de idade, fugiu para a Suíça, onde foi apenas tolerada e proibida de trabalhar. Depois de uma viagem à Palestina, as autoridades suíças negaram sua reentrada. Lasker-Schüler passou então a morar em Jerusalém, onde morreu pobre em 1945.
Foto: picture-alliance/akg-images
Walter Gropius
Em 1934, o arquiteto e fundador da Bauhaus viajou para Londres com a esposa, originalmente apenas para um projeto após o qual o casal planejava retornar à Alemanha. Enquanto estavam lá, os nazistas se referiram à escola Bauhaus como a "Igreja do marxismo". Temendo a repressão, permaneceram no exílio. Em 1937, o casal mudou-se para os EUA, e Gropius se tornou professor de Harvard.
Foto: picture-alliance/akg-images
Josef und Anni Albers
O pintor e designer Josef Albers foi professor na Bauhaus antes de fugir para os EUA com a esposa, a artista têxtil Anni. Albers foi diretor, e Anni, professora do recém-criado Black Mountain College, na Carolina do Norte, baseado no modelo Bauhaus. Em 1950, Josef assumiu como chefe do departamento de arte da Universidade de Yale. O trabalho de Anni foi exibido em exposições mundo afora.
Foto: picture-alliance/United Archives/TopFoto
Billy Wilder
Billy Wilder, filho de pais judeus, morava em Berlim, onde primeiro trabalhou como repórter e depois começou a escrever roteiros de filmes. Depois que Hitler chegou ao poder, Wilder mudou-se imediatamente para Paris e um ano depois foi para os EUA, onde se tornou um influente diretor de Hollywood. Entre suas obras está o filme "Quanto mais quente melhor", protagonizado por Marilyn Monroe.
Foto: picture alliance/Mary Evans Picture Library/UNIVERSAL/Ronald Grant Archive
Hilde Domin
A poetisa acompanhou o parceiro, o filólogo Erwin Walter Palm, para estudar na Itália em 1931. Com o início da perseguição aos judeus na Alemanha, o casal fugiu para a Inglaterra e, de lá, para a República Dominicana. Hilde começou, então, a escrever sob o nome artístico Domin, referência ao local do exílio. Em 1954, Hilde Domin voltou para a Alemanha. Ela morreu em 2006.