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"Muçulmanos não devem ser força cultural na Alemanha"

Nina Werkhäuser as
16 de agosto de 2017

À frente da chapa populista de direita, Alexander Gauland afirma que nenhum refugiado deve entrar mais no país, descarta o islã como parte integrante da sociedade e diz não ter necessidade de debater com muçulmanos.

Alexander Gauland no estúdio da DW
"O islã, por meio da charia e de determinadas regras, não está de acordo com a Constituição", disse GaulandFoto: DW/R. Oberhammer

Um dos dois nomes à frente da chapa do partido populista de direita AfD para a eleição alemã, Alexander Gauland defendeu o fechamento efetivo das fronteiras externas da Alemanha e da União Europeia (UE), em entrevista à editora-chefe da DW, Ines Pohl, e ao apresentador Jafaar Abdul Karim.

Para o político de 76 anos, é errado que pessoas sem documentos possam atravessar a fronteira e entrar na Alemanha. "Estas pessoas não deveriam mais poder entrar no país." Gauland argumentou que elas deveriam entrar com um pedido de refúgio num centro de acolhimento fora da Alemanha ou da Europa.

Leia a cobertura completa sobre a eleição na Alemanha em 2017

Ele disse que pessoas que fogem da guerra, como os sírios, têm um direito de permanência limitado num país estrangeiro, segundo a Convenção de Genebra sobre refugiados. Porém, a maioria das pessoas que se dirigem para a Europa nos dias atuais o faz por motivos socioeconômicos, argumentou.

Gauland concordou que toda pessoa tem o direito de buscar uma vida melhor para si, mas contra-argumentou afirmando que um Estado também tem o direito de dizer "aqui não há lugar para vocês". "Devemos levar em conta os nossos interesses, e o acolhimento de uma massa de refugiados não é do interesse da Alemanha. Não somos o capacho do mundo."

Gauland afirmou que "a política de refugiados equivocada da chanceler é um presente para a AfD"Foto: DW/R. Oberhammer

Crítica à política de refugiados

Gauland é um dos dissidentes da União Democrata Cristã (CDU), o partido da chanceler federal Angela Merkel, que fundaram a Alternativa para a Alemanha (AfD) em 2013. Ele é um dos dois candidatos de ponta do partido para a eleição legislativa de setembro, ao lado da economista Alice Weidel.

Para Gauland, é legítimo levar de volta para a Líbia um migrante que tenta ir para a Europa através do país africano e do Mar Mediterrâneo. "Ele vem de livre vontade, ele não é obrigado a deixar o sul da África rumo à Líbia ou a atravessar a Líbia", disse Gauland à DW. E, se alguém atravessa a Líbia de livre vontade, também pode ser enviado de volta, acrescentou.

A crítica à política de refugiados do governo alemão é um tema central da AfD, um partido que cresceu desde o início da crise dos refugiados, em 2015. Hoje a AfD está em 13 dos 16 parlamentos regionais, e analistas dão como certo que o partido vai entrar também no Parlamento federal, o Bundestag. Segundo pesquisas, com 8% dos votos.

Gauland, que foi filiado à CDU por mais de 40 anos, até deixar o partido, em 2013, afirmou que "a política de refugiados equivocada da chanceler é um presente para a AfD".

"O islã não faz parte da Alemanha"

Além da política de refugiados, um outro ponto que diferencia a AfD dos demais partidos é a sua posição em relação ao islã. "O islã, como unidade religiosa e cultural, não faz parte da Alemanha", afirmou Gauland, reiterando a posição expressa no programa de governo do partido.

Eleitor alemão tem dois votos

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Segundo ele, a AfD é contra que muçulmanos se tornem uma força cultural na Alemanha. "Isso não está em conformidade com a Lei Fundamental [Constituição], com a Europa, com o Ocidente."

"O que me incomoda é que o islã, por meio da charia e de determinadas regras, é uma religião da qual podemos claramente dizer que essas regras não estão de acordo com a Lei Fundamental", argumentou.

Quem vive sua fé islâmica de forma privada está em concordância com a Lei Fundamental, ressalvou o candidato da AfD. "O que não dá é que regras islâmicas sejam gradualmente introduzidas na nossa sociedade pela porta dos fundos, por assim dizer."

Ao ser questionado por que ele se recusa a se encontrar com muçulmanos, Gauland afirmou não ter "necessidade de um intercâmbio oficial com muçulmanos". "Se eu estiver perto de alguém [que é muçulmano], claro que estou aberto e disposto a conversar com ele. Isso não é de forma alguma um problema."

"A Rússia nunca mais vai devolver a Crimeia"

Na entrevista à DW, Gauland também falou sobre as posições da AfD na política externa. O partido é contra as sanções econômicas impostas à Rússia depois da anexação da Crimeia. "A Rússia nunca mais vai devolver a Crimeia. Eu não acredito que sanções terão algum efeito", disse.

Ele também disse ser contra o ingresso da Turquia na União Europeia. "Devemos interromper imediatamente todos os pagamentos nesse sentido", afirmou, em referência aos recursos que a Turquia recebe dos europeus para se adequar às regras europeias.

A AfD é, porém, favorável à permanência da Turquia na Otan, desde que o presidente Recep Tayyip Erdogan não exerça uma "política neo-otomana". "Afinal, nos tempos da Guerra Fria, a Turquia sempre foi um guardião, e não vejo um motivo para excluí-la da Otan."

Gauland declarou que, "até certo ponto", é responsável pela política externa dentro do seu partido. "Mas, num partido anárquico não há um chefe de verdade, e isso é o que somos", afirmou, em referência às constantes brigas internas da AfD.

O candidato respondeu de forma surpreendente à pergunta sobre qual representante dos demais partido ele levaria consigo para uma ilha deserta: Sahra Wagenknecht, uma das candidatas  de A Esquerda para a eleição de setembro.

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A entrevista com Gauland faz parte de uma série de entrevistas da DW com candidatos às eleições alemãs de setembro: Sahra Wagenknecht, do partido A Esquerda, e Cem Özdemir, do Partido Verde.