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Mudanças climáticas ameaçam ícones da Antártida

Veronika Meduna (brv)30 de novembro de 2015

Apesar do ambiente hostil, continente abriga uma extraordinária vida selvagem. Mas o aquecimento global está mudando os ecossistemas, e famosas espécies como o pinguim-imperador e a foca-de-weddell podem desaparecer.

Foto: Reuters/P. Askin

A melhor forma de descrever a Antártida é com superlativos: o mais frio, o mais ventoso e o mais seco continente da Terra – além de ser o maior e o mais rigoroso deserto do planeta.

O sol se põe apenas uma vez por ano e, no crepúsculo entre a longa noite polar e um verão com 24 horas diárias de sol, a massa de terra congelada torna-se palco de uma das mais espetaculares mudanças de estação do mundo. Lentamente, a superfície do oceano começa a congelar. O gelo se espalha em todas as direções para formar um manto que dobra o tamanho do continente.

O ciclo anual de congelamento e descongelamento do mar define o ritmo de vida da fauna da Antártida. Particularmente pinguins e focas vivem em tamanha sintonia com o ritmo do gelo que mesmo pequenas variações podem causar um grande impacto sobre sua taxa de reprodução. Por isso, ambos têm um futuro incerto pela frente.

Pinguins-imperadores são mestres na arte de sobrevivência na Antártida, e as focas-de-weddell vivem sob o gelo do continente – ambas as vivendo nos limites da biologia.

Pinguins e focas dependem de um delicado ecossistemaFoto: Veronika Meduna

O pinguim-imperador pode muito bem nunca precisar por os pés na terra. Eles ciscam em pedaços de gelo flutuantes e se reproduzem sobre espessos blocos de gelo em meio ao mar, em pleno inverno. Sua vida está tão atrelada ao gelo que é impossível sobreviver sem ele.

Stephanie Jenouvrier, bióloga do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, afirma que o gelo é crucial não só durante o período de reprodução do pinguim-imperador, como também é sua fonte de alimento, já que o gelo determina a abundância de pequenos crustáceos.

"Eles chegam às colônias quando o gelo está se formando e partem quando ele está diminuindo novamente", explica ela.

Se o gelo polar se rompe muito cedo, antes que os filhotes desenvolvam sua plumagem resistente à água, eles não sobrevivem. Se o gelo se rompe muito tarde, a distância entre a colônia de reprodução e os locais de alimentação fica muito grande. Por isso, mudanças no gelo polar podem ter efeitos dramáticos para os pinguins.

O fim dos imperadores?

Se o gelo dos oceanos diminuir conforme o previsto pelos modelos climáticos utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a população de pinguins-imperadores na Antártida sofrerá uma redução drástica até o fim deste século.

Jenouvrier faz parte de uma equipe internacional que estuda a espécie em Terra Adélia, no leste da Antártida. Há cinco décadas, pesquisadores retornam ao local ano após ano para monitorar as mudanças na dinâmica das populações e acompanhar a taxa de nascimentos a cada estação.

Jenouvrier: "Se pinguins-imperadores não conseguirem se adaptar às mudanças, espécie será extinta"Foto: Woods Hole Oceanographic Institute

Se as mudanças no gelo continuarem influenciando o pinguim-imperador, como vem ocorrendo nas últimas décadas em Terra Adélia, Jenouvrier afirma que dois terços das colônias estarão ameaçados e, como consequência, a população cairia pela metade até o fim do século.

Num mundo mais quente, o pinguim-imperador não terá espaço. Jenouvrier pinta um quadro nada animador para o futuro do animal. "Não haverá um único lugar na Antártida que sirva de colônia para eles. Todas as colônias estarão em declínio", afirma a pesquisadora.

"Se eles não conseguirem se adaptar às mudanças do gelo, a espécie será extinta", completa. O dilema do pinguim-imperador é tão sério que Jenouvrier está pedindo que a espécie seja considerada ameaçada como forma de refletir sobre os perigos que as mudanças climáticas representam para os ecossistemas da Antártida.

Derretendo por baixo

A Antártida tem tantos tipos diferentes de gelo que há um vocabulário próprio para isso. Duas camadas de gelo cobrem o continente, enterrando cadeias de montanhas inteiras. Essa capa glacial detém três quartos da água doce do planeta, congelada num frágil equilíbrio.

Ao longo da costa, mantos de gelo se desprendem, formando plataformas flutuantes. Elas podem parecer pouco funcionais, mas na verdade são formadas por uma mescla de pequenas formações de gelo.

Algumas das geleiras, principalmente no oeste do continente, começam a derreter a partir de seus pontos mais baixos – sendo devoradas por um oceano cada vez mais quente. Um dos mistérios da Antártida é que o gelo continental está perdendo volume, mas a área coberta pelo gelo sazonal está crescendo ao longo da costa oriental. Entretanto, acredita-se que essa seja uma anomalia temporária.

Jenouvrier afirma que a cobertura de gelo oceânico está diminuindo ao longo da península Antártica – que está se aquecendo mais rápido do que o restante do continente –, e uma próspera colônia de pinguns-imperadores já desapareceu.

Mudanças climáticas podem levar à extinção da foca-de-weddellFoto: Sarah Johns

De volta ao futuro

Outro vislumbre sobre o futuro da Antártida pode vir do passado. Tim Naish, geólogo da Universidade de Victoria em Wellington, na Nova Zelândia, comandou um ambicioso projeto chamado ANDRILL.

O grupo perfurou sedimentos oceânicos da Antártida e retornou a um período geológico conhecido como Plioceno, quando os níveis de dióxido de carbono na atmosfera eram semelhantes aos de hoje, mas as temperaturas eram em média 3 graus Celsius acima da atual.

Na época, não havia gelo oceânico, nem a plataforma de gelo Ross – a maior do mundo –, ou o manto de gelo na Antártida Ocidental. "Esse é o fim do jogo", afirma Naish, citando o possível cenário caso mantenhamos por séculos os atuais níveis de gases do efeito estufa na atmosfera.

Má notícia para as focas

Esse cenário eliminaria o habitat da foca-de-weddell, afirma Regina Eisert, bióloga da Universidade de Canterbury, que estuda as focas e baleias antárticas. "As focas-de-weddell são especialistas glaciais – elas vivem nas profundezas abaixo dos mantos de gelo", afirma.

"As focas-de-weddell são especialistas glaciais", diz bióloga EisertFoto: Ekaterina Ovsyanikova

Durante a primavera, essas focas se reúnem em áreas onde as marés e ventos criaram rachaduras no gelo. Machos patrulham em territórios marinhos subaquáticos, entoando canções para impressionar as fêmeas.

Os buracos no gelo propiciam o único acesso das focas ao ar – e é por eles, também, que as fêmeas saem para ter seus filhotes. Após o período reprodutivo, elas amamentam e depois se dispersam novamente em busca de alimento.

"Elas precisam de muito gelo para ter uma plataforma estável para seus filhotes. E depois necessitam que o gelo se rompa para ter acesso às fontes de alimentos", explica Eisert. "Se há menos gelo nos oceanos, podemos esperar que o ecossistema mude – como já vimos na península Antártica, onde há menor fornecimento de valor nutricional."

Se o gelo desaparecer, ou mesmo se ele mudar seus parâmetros de maneira significativa, Eisert afirma que o habitat das focas-de-weddell seria invadido por outras espécies de focas, e haveria grandes mudanças na cadeia alimentar. E isso poderia levar à extinção de mais um ícone da Antártida.

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