Mudanças climáticas impulsionam inflação na Europa
18 de agosto de 2026
A seca persistente na Europa está esvaziando os rios e levando a perdas nas colheitas. Como resultado, os custos de transporte aumentam e os preços dos alimentos disparam, impulsionando a inflação.
Embora até os institutos de pesquisa econômica ainda não consigam quantificar com precisão os efeitos da seca sobre a taxa de inflação, a tendência é clara.
"Quando as embarcações que trafegam pelo Reno conseguem transportar apenas uma fração de sua carga habitual, os custos de transporte por tonelada aumentam significativamente", afirma à DW Torsten Schmidt, chefe de conjuntura econômica do instituto de pesquisa RWI, em Essen.
Isso encarece, entre outros produtos, fontes de energia como diesel e óleo para aquecimento, que em grande parte são transportados por vias fluviais. Os custos mais elevados acabam sendo repassados aos consumidores.
Perdas agrícolas encarecem os alimentos
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) leva em conta, em suas estatísticas, os efeitos do aumento global das temperaturas, dos eventos climáticos extremos e das perdas nas colheitas.
Desde 2020, por exemplo, os preços da carne e das oleaginosas têm aumentado fortemente. No total, segundo a FAO, os preços dos alimentos estão atualmente cerca de 30% mais altos do que em 2020.
Estudos recentes também indicam que as mudanças climáticas e os eventos climáticos extremos influenciam a inflação, somando-se aos gargalos de abastecimento e aos choques nos preços do gás e do petróleo causados pelas guerras no Irã e na Ucrânia.
Eventos climáticos extremos provocam aumentos de preços
O estudo Climate Extremes, Food Price Spikes, and Their Wider Societal Risks ("Extremos climáticos, disparadas nos preços dos alimentos e seus riscos mais amplos para a sociedade", em tradução livre), publicado em julho de 2025, alerta para esse tipo de espiral inflacionária. O trabalho contou com a participação de cinco instituições de pesquisa europeias e do Banco Central Europeu (BCE).
"Para os bancos centrais, poderá se tornar cada vez mais difícil garantir a estabilidade dos preços se eventos climáticos extremos mais frequentes tornarem os preços dos alimentos mais voláteis, tanto nos mercados domésticos quanto nos globais", afirma o estudo.
Aumentos nos preços do café no Brasil, por exemplo, também influenciam a inflação na União Europeia.
Esses desafios podem se agravar ainda mais caso o aumento persistente das temperaturas passe a alimentar a inflação de forma permanente. Isso porque, se a inflação precisar ser combatida com taxas de juros mais elevadas, o crescimento econômico também tenderá a desacelerar.
Diferenças nas taxas de inflação dentro da UE
O próprio BCE já havia publicado, em 2023, um estudo que chegou à mesma conclusão após analisar as quatro maiores economias da União Europeia.
"O aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos na Europa pode gerar uma pressão inflacionária duradoura", afirma a análise.
"Devido ao impacto diferenciado desses choques conforme a estação do ano e o país, nossos resultados também sugerem que as mudanças climáticas podem ampliar as diferenças na evolução da inflação entre os países da zona do euro."
Segundo o BCE, a taxa de inflação em junho variou entre 5,4% na Lituânia e 2% na França. A Alemanha, com 2,4%, ficou ligeiramente abaixo da média da União Europeia, de 2,8%. Um dos principais motores da inflação são os elevados custos de transporte, que registraram aumento de 5,3%.
Seca vai influenciar decisões do Banco Central Europeu?
Ainda é incerto se o BCE voltará a elevar as taxas de juros diante do aumento dos custos nas hidrovias e das prováveis perdas significativas de safra. A instituição havia aumentado sua taxa de depósito em 0,25 ponto percentual, para 2,25%, em 11 de junho de 2026.
"Para a política monetária, o essencial é saber se estamos diante de um aumento pontual e temporário dos custos ou se esse efeito se combina com outros fatores de pressão sobre os preços, como a alta dos custos de energia em decorrência da guerra no Irã", explica Torsten Schmidt, do RWI.
Schmidt acredita que um "aumento de preços provocado pelas condições climáticas" provavelmente não levaria a uma política monetária mais restritiva. Mas pontua que o cenário seria diferente caso várias crises ocorram simultaneamente, gerando uma "inflação mais ampla e persistente que o BCE não poderia mais ignorar".
Para a Associação Alemã de Caixas Econômicas e Bancos de Poupança (DSGV), a palavra de ordem para a economia alemã agora é estocar o máximo possível.
Essa seria a principal lição das recentes crises de interrupção nas cadeias de suprimento, segundo Holger Schulz, especialista financeiro da entidade, em um comunicado recente.
"Seja a pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia ou o fechamento do Estreito de Ormuz", enumera ele, "em um mundo tão imprevisível em tantas frentes, manter estoques maiores funciona como uma espécie de prêmio de seguro."
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