Alguns vencedores do Nobel perdem o contato com a realidade e, de repente, começam a proferir absurdos sem fundamento científico. Quando alguém se considera um gênio, mas não é, alguns chamam isso de "nobelite".
James Watson, vencedor do Nobel de Medicina em 1962, é um bom exemplo de "nobelite": chegou a dizer que pessoas negras seriam menos inteligentes que pessoas brancasFoto: Ivan Sekretarev/AP Photo/picture alliance
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Linus Pauling recebeu não apenas um, mas dois Prêmios Nobel. Em 1954, o americano foi agraciado com o Prêmio Nobel de Química por suas pesquisas sobre a estrutura das ligações químicas. Em 1962, ele também ganhou o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços contra a corrida armamentista nuclear.
Foram duas premiações que Pauling não precisou dividir com ninguém. Para um cientista, não há nada melhor do que isso. Os laureados com o Nobel se tornam celebridades da noite para o dia, e suas palavras passam a ter enorme peso.
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Delírios de grandeza após o Prêmio Nobel
Isso também representa um perigo, afirma Nils Hansson, historiador da medicina do Instituto de História, Teoria e Ética da Medicina da Universidade Heinrich Heine, em Düsseldorf, Alemanha. Segundo o especialista, a situação se torna particularmente difícil "quando alguém passa a divulgar teorias científicas absurdas e sem comprovação", diz Hansson. Afinal, as pessoas dão ouvidos ao que dizem os laureados com um Nobel.
Foi exatamente isso que aconteceu com Linus Pauling. A partir de meados da década de 1960, ele começou a afirmar que a vitamina C era uma espécie de panaceia, por exemplo, no combate ao câncer, doenças cardiovasculares ou doenças degenerativas.
Pauling foi o precursor da chamada medicina ortomolecular, que se concentra no uso de vitaminas e minerais no tratamento de doenças. Trata-se de um método terapêutico para o qual as evidências científicas ainda são insuficientes.
Pauling, portanto, preenche todos os critérios para "nobelite" ou "doença do Nobel". Apesar do nome, este não é um diagnóstico ou doença oficial.
Na verdade, o termo se refere a um comportamento que os ganhadores do Prêmio Nobel às vezes exibem quando conquistam a mais alta honraria: delírios de grandeza. O termo foi cunhado por Paul Nurse, ele próprio laureado com o Prêmio Nobel de Medicina e presidente da Royal Society, a academia nacional de ciências do Reino Unido.
Abusos em instituto recordista do Nobel
20:37
Quando a autoridade engana
"Seja cético em relação a tudo, inclusive a si mesmo e às suas próprias ideias", disse Nurse em entrevista à universidade belga KU Leuven, ao ser questionado sobre o que define um bom cientista. No entanto, quando a "nobelite" se manifesta, o ceticismo em relação a si mesmo e às próprias ideias é a primeira coisa a desaparecer.
Este também foi o caso de Luc Montagnier. O virologista descobriu o vírus da imunodeficiência humana (HIV) em 1983, descoberta pela qual ele e sua colega Françoise Barré-Sinoussi receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 2008.
Mais tarde, ele defendeu a homeopatia e afirmou, em entrevista, que a transmissão do HIV na África poderia ser reduzida com uma alimentação melhor e melhores condições de higiene.
Durante a pandemia de covid-19, Montagnier anunciou que o coronavírus Sars-cov-2 era um vírus manipulado em laboratório e conteria sequências do HIV. O virologista alemão Christian Drosten afirmou na época, no podcast Coronavirus Update, que "é difícil para um cientista atuante na área de virologia dizer que um ganhador do Nobel de virologia está espalhando absurdos. Mas isso é um completo absurdo."
Também no caso de James Watson, que já não era conhecido por sua modéstia, a fama produziu efeitos peculiares. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1962, juntamente com Maurice Wilkins e Francis Crick, pela descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA. No início dos anos 2000, ele fez repetidos comentários racistas, afirmando que pessoas negras seriam menos inteligentes que pessoas brancas.
Para o historiador da medicina Nils Hansson, Watson é, portanto, um bom exemplo de que receber um Nobel não transforma automaticamente alguém em uma pessoa digna de servir de modelo. "Você pode ter feito uma descoberta extraordinária, mas isso não o torna um gênio universal."
Durante a pandemia, Luc Montagnier disse que o Sars-cov-2 era um vírus manipulado em laboratório com sequências do HIVFoto: imago/Xinhua
É preciso questionar criticamente os ganhadores do Nobel
É possível, porém, que as expectativas do público contribuam para o desenvolvimento da "nobelite". Paul Nurse recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2001. De repente, foi inundado por perguntas da imprensa sobre todos os tipos de assuntos. "Como se eu tivesse, de repente, compreendido todas as conexões entre o mundo e a humanidade", afirmou à DW.
Nurse, portanto, aconselha os pesquisadores: "sejam muito cuidadosos com o que dizem. Falem sobre assuntos que vocês entendem – isso é perfeitamente normal. Se vocês não sabem muito ou não têm certeza sobre algo, deixem bem claro que não têm certeza."
Hansson também observa que declarações de ganhadores do Nobel são avidamente repercutidas pela mídia, mesmo que o laureado já tenha se afastado há muito tempo de sua área de especialização.
As pessoas acometidas pela "nobelite" são mestres em suas áreas e foram homenageadas com o Prêmio Nobel justamente por isso. Mas também são seres humanos como quaisquer outros e não estão imunes a delírios de grandeza e outras anormalidades comportamentais. Portanto, a homeopatia, a medicina ortomolecular ou outras pseudociências não se tornam automaticamente mais válidas apenas porque contam com o apoio de um ganhador do Nobel.
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Por que Yasser Arafat, as Nações Unidas ou mesmo Barack Obama receberam o Nobel da Paz? Esta pergunta é feita praticamente após cada anúncio em Oslo. A crítica ao prêmio é tão antiga quanto o próprio Nobel.
Foto: picture-alliance/dpa/B. Roald
Uma longa discussão
Já no primeiro Prêmio Nobel da Paz, para Henry Dunant, da Suíça (à esquerda), e Frederic Passy, da França (à direita), em 1901, a Comissão do Nobel estava dividida. Dunant fundou a Cruz Vermelha Internacional e, juntamente com Passy, iniciou as Convenções de Genebra. Os membros da comissão temiam que, ao tornarem a guerra "mais humana", as Convenções de Genebra pudessem torná-la mais aceitável.
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Beligerante e pacificador
O ex-presidente americano Theodore Roosevelt nunca foi considerado um pacifista, por causa de seu envolvimento na Guerra Hispano-Americana. Ele ajudou os cubanos a se libertarem do colonialismo, mas logo tropas americanas chegariam a Cuba, garantindo aos EUA o controle da ilha. Roosevelt recebeu o prêmio em 1906 por outro motivo: seus esforços de paz na guerra russo-japonesa.
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Pacificador racista
O 28º presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, recebeu o Nobel da Paz de 1919 "por suas contribuições para o fim da Primeira Guerra Mundial e a fundação da Liga das Nações", precursora da ONU. Mas ao mesmo tempo, ele acreditava na supremacia dos brancos e era um defensor da segregação racial
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Prêmio da paz sem paz
O então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, e o líder norte-vietnamita Le Duc Tho tiveram papel decisivo nos Acordos de Paz de Paris de 1973, para acabar com a guerra no Vietnã. Mas Tho se recusou a aceitar o prêmio, alegando que ainda não havia paz. De fato, enquanto os EUA se retiraram em grande parte após os acordos, o conflito no Vietnã, no Laos e no Camboja duraria mais dois anos.
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De golpista a Nobel da Paz
Em 1978, Anwar Sadat (esq.), do Egito, e Menachem Begin (dir.), de Israel, acertaram um acordo de paz entre os dois países, sob mediação de Jimmy Carter (centro). No mesmo ano, Sadat e Begin receberam o Nobel. O prêmio para Sadat, no entanto, causou polêmica, pois ele participou do golpe de 1952, que derrubou o rei Farouk.
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Manutenção da paz e omissão
Os capacetes azuis são as forças de paz das Nações Unidas. Pelo seu trabalho, eles receberam o Nobel em 1988. No entanto, não faltaram críticas nos anos seguintes: as tropas foram acusadas de abusar sexualmente de mulheres e crianças e forçá-las à prostituição. No genocídio de Ruanda e no massacre de Srebrenica, foram criticados por não intervirem.
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Heroína vencida
Quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1991, Aung San Suu Kyi era um símbolo da luta sem violência pela democracia na sua terra natal, Myanmar. Nos anos de 2010, no entanto, ela caiu em descrédito, acusada de não proteger a minoria muçulmana rohingya do genocídio em 2017. Não lhe foi permitido tomar o poder, mas o seu partido tem a maioria no parlamento.
Foto: picture-alliance/AP Photo/D. Wong
O homem de duas caras
Embora tenha sido considerado um defensor do apartheid antes de ser presidente da África do Sul, Frederik de Klerk desempenhou um papel fundamental para o fim do regime de segregação racial em seu país. Ele tirou da prisão Nelson Mandela e outros políticos do Congresso Nacional Africano, defendeu a liberdade de imprensa e aboliu as leis do apartheid. Em 1993, ele e Mandela receberam o Nobel.
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"Ganhador indigno"
Também houve polêmica em 1994, quando o chefe da Organização para a Liberação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, juntamente com o então premiê israelense, Yitzhak Rabin, e seu ministro de Relações Exteriores, Shimon Peres, recebeu o prêmio por seus esforços de paz no Oriente Médio. Um político norueguês até renunciou em protesto contra o Comitê do Nobel, chamando Arafat de "ganhador indigno".
Foto: Getty Images
Um mundo melhor graças à ONU?
As Nações Unidas e seu então secretário-geral, Kofi Annan, receberam o Nobel da Paz de 2001 "por seu trabalho para um mundo melhor organizado e mais pacífico". Mas os críticos acusam a ONU de não defender esses ideais e de fracassar frequentemente, porque alguns países podem bloquear resoluções e ações conjuntas no Conselho de Segurança.
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Louros antecipados para Obama
Barack Obama estava na presidência dos EUA há nove meses quando ganhou o prêmio em 2009 por seus "esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos". Os críticos consideraram a homenagem prematura. Mais tarde, Obama se notabilizaria por expandir ataques com drones no Iêmen e na Líbia, algo altamente controverso, de acordo com o direito internacional.
Foto: Reuters/C. Barria
"Luta não-violenta" e ajuda a criminoso de guerra
O ex-presidente da Libéria Charles Taylor foi condenado por crimes de guerra vinculados a milhares de assassinatos, estupros e tortura. Os críticos acusam sua sucessora, Ellen Johnson Sirleaf, ministra das Finanças de Taylor, de tê-lo apoiado na violência e corrupção. No entanto, em 2011, ela ganhou o Nobel por sua "luta não violenta pela segurança das mulheres".
Foto: T. Charlier/AFP/Getty Images
Tratamento questionável a requerentes de asilo
Cercas de arame farpado, detenção, condições desumanas nos campos de refugiados: ativistas dos direitos humanos criticam as políticas de refugiados da União Europeia há anos. Mesmo assim, a UE foi homenageada em 2012 pelo "avanço da paz e da reconciliação, da democracia e dos direitos humanos na Europa".
Foto: picture-alliance/dpa/K. Nietfeld
Um pouco de paz
Abiy Ahmed mudou muito desde que se tornou primeiro-ministro etíope em 2018. No impasse do conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia, a aproximação diplomática e a abertura das fronteiras foram incluídas. Mas o processo de paz estagnou - e enquanto Abiy goza da fama do Prêmio Nobel, na Eritreia Isayas Afewerki continua governando com mão de ferro.