Quando o próprio nome vira motivo de piada
27 de outubro de 2026
Quando era criança na Austrália, Louise Pain odiava seu sobrenome, que em inglês significa "dor".
"As pessoas costumavam zombar de mim; eu era chamada de coisas como 'Pain in the a*s' [um trocadilho em inglês com a expressão 'dor no traseiro' – algo como "pé no saco" em português]", contou ela à DW. "Lembro de detestar meu sobrenome quando era criança e de querer mudá-lo."
As piadas a acompanharam por toda a vida, mesmo depois de ela se mudar para a Alemanha. Mas uma coisa acabou mudando: os sentimentos de Pain em relação ao próprio nome.
Os nomes não são apenas uma parte fundamental de como nos identificamos. Além das provocações, eles também podem influenciar a maneira como outras pessoas nos tratam. Então, o que acontece quando não gostamos do nosso próprio nome ou quando ele é percebido negativamente por quem está ao nosso redor?
"O nome de uma pessoa é vital para seu senso de identidade", explica o psicanalista Mikita Brottman à DW. "Quando alguém tem um nome constrangedor, esse constrangimento pode ser incorporado a sua identidade."
Pesquisas sobre preconceito relacionado a nomes associaram nomes percebidos negativamente à rejeição romântica, além de piores resultados educacionais, menor autoestima e maior frequência de tabagismo.
Isso sugere que os nomes podem influenciar a trajetória de vida de uma pessoa, especialmente por meio da autoestima e das oportunidades.
Mas a relação de uma pessoa com seu nome não é necessariamente imutável. A experiência de vida de Pain, assim como a de outra mulher chamada Tiny – "minúscula" em inglês –, mostra como algumas pessoas conseguem ressignificar e até passar a valorizar nomes que antes provocavam zombaria e rejeição.
Como os nomes moldam as primeiras impressões
Os nomes podem funcionar como "sinais" quando conhecemos alguém pela primeira vez, explica à DW o psicólogo da personalidade Jochen Gebauer.
Esses sinais podem perder importância à medida que as pessoas passam a se conhecer melhor, mas Gebauer afirma que seus efeitos também podem se acumular ao longo da vida, contribuindo potencialmente para "vantagens e desvantagens reais e mensuráveis".
Uma pesquisa liderada pelo sociólogo Anthony Lee descobriu que um nome pode despertar suposições imprecisas sobre inteligência, competência, confiabilidade, sociabilidade e atratividade.
Para Pain, as reações das outras pessoas foram além das piadas. No ensino médio, uma professora se recusou a acreditar que "Pain" fosse seu sobrenome verdadeiro e a repreendeu na frente da turma.
"Seu sobrenome não pode ser Pain. Escreva seu nome verdadeiro!", recorda-se do que ouvira da professora.
Por que alguns nomes despertam reações negativas
Na pesquisa de Lee, realizada no Reino Unido, os nomes menos familiares tendiam a se enquadrar em uma dimensão parcialmente caracterizada como "estranheza", o que pode ajudar a explicar por que nomes difíceis de pronunciar ou culturalmente pouco familiares recebem avaliações mais negativas.
Tiny, que hoje tem 54 anos, enfrentou as mesmas perguntas sobre seu nome incomum enquanto crescia na Grécia.
Seus pais adaptaram "Tiny" para "Tinie" para que soasse mais grego, mas as pessoas repetidamente perguntavam qual era seu nome verdadeiro ou de batismo.
Até parentes se recusaram a aceitá-lo. Recentemente, duas tias idosas a apresentaram a alguém como "Haritini", um nome grego convencional.
"Nem me dei ao trabalho de corrigi-las desta vez", contou Tiny à DW.
A relação dela com seu nome também evoluiu.
"As piadas [dos outros] ficaram repetitivas e entediantes muito rápido, então pelo menos fiquei com a sensação de que havia algo único no meu nome."
Pain, hoje com 41 anos, descobriu o quanto o contexto cultural pode mudar a reação a um sobrenome quando começou a aprender francês, língua nativa de seu pai, ainda na adolescência. Em francês, "pain" significa pão.
"As pessoas começaram a me chamar de 'Pão! Louise Pão'."
Mais tarde, depois de se mudar para a Alemanha, as piadas passaram a ser principalmente relacionadas a pão, em vez das mais agressivas que ela havia enfrentado na Austrália.
"Isso me ajudou a me sentir melhor em relação ao meu nome", disse ela.
O humor como estratégia de enfrentamento
Ao ficarem mais velhas, tanto Pain quanto Tiny desenvolveram estratégias para se antecipar às reações das pessoas aos seus nomes.
Tiny às vezes se apresenta dizendo: "Oi, eu sou Tiny. Esse é meu nome, não uma descrição", ou: "Sou Tiny. Não é exatamente um nome difícil de estar à altura."
"Isso geralmente faz com que as pessoas parem de fazer perguntas constrangedoras."
Pain também começou a abraçar o humor em torno de seu sobrenome.
"Eu estava convencida de que deveria me tornar médica ou dominatrix, ou talvez as duas coisas, para virar 'Doutora Dor' ou 'Senhora Dor'."
Entre vergonha, identidade e pertencimento
"Os nomes podem evocar todo esse espectro entre vergonha e orgulho", explica à DW a psicanalista Melissa Daum.
Hoje, Pain considera que as pessoas tendem a enxergar seu sobrenome como "engraçado e cativante". "Tornou-se mais um assunto divertido de conversa", avalia.
Mas o desconforto da infância não desapareceu completamente. Quando pensa em ter filhos, seus sentimentos em relação ao sobrenome se tornam mais complexos.
"Eu realmente não quero transmitir meu sobrenome […]. Então existe uma ferida mais profunda aí."
Ao mesmo tempo, Pain acredita que seu pai ficaria profundamente magoado se seus futuros filhos tivessem um sobrenome diferente. O nome que ela já odiou a conecta ao pai e à sua herança francesa.
"Algo que antes parecia um inconveniente ou uma fonte de constrangimento pode se tornar um símbolo de singularidade, história ou pertencimento", conta Daum.
Tiny descreve uma ambivalência semelhante.
"Meus pais aparentemente fizeram uma escolha infeliz, mas hoje já abracei tanto o nome quanto a sensação de singularidade que vem com ele."
Isso não significa que ela use o nome em todos os contextos. Ela evita utilizá-lo em aplicativos de relacionamento, porque "Tiny pode transmitir a mensagem errada" e também não o usa em seu endereço de e-mail quando deseja parecer mais profissional.
Pain, por sua vez, usa uma versão germanizada da palavra francesa para pão como sobrenome em suas redes sociais.
Na internet, as pessoas têm mais controle sobre o nome que apresentam aos outros. "Escolher o próprio nome pode parecer um ato de domínio, até mesmo uma recusa daquela passividade original: eu decidirei como serei chamada e como serei vista", aponta Daum.
Mas aceitar um nome não significa necessariamente adotá-lo em todas as situações.
Pain já quis mudar de sobrenome. Tiny considerou usar seu nome do meio quando estava na casa dos 30 anos. Nenhuma das duas acabou abandonando os nomes que lhes causaram dificuldades.
Pelo menos para Tiny, um nome que antes a fazia sentir constrangimento se tornou algo que ela consegue imaginar carregando pelo resto da vida.
"Talvez seja até fofo um dia ser uma vovó chamada Tiny."
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