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CulturaArgentina

Novo filme sobre Josef Mengele explora a "banalidade do mal"

25 de outubro de 2025

Em "O Desaparecimento de Josef Mengele", cineasta e dissidente russo Kirill Serebrennikov investiga a complexa mente do médico nazista em sua rota de fuga pela América do Sul.

Ator August Diehl no papel do médico nazista Josef Mengele em cena do filme "O Desaparecimento de Josef Mengele", de Kirill Serebrennikov.
Mais recente cinebiografia de Josef Mengele mostra o criminoso de guerra nazista em fuga pela América do SulFoto: Courtesy of Kinology

A decorracada do nazismo e a subsequente tentativa de levar seus algozes à Justiça resultaram na fuga de figuras centrais envolvidas nos crimes cometidos durante o Terceiro Reich.

Um desses fugitivos foi  Josef Mengele, o médico nazista que realizava experimentos sádicos em judeus no campo de extermínio de Auschwitz. Sua fuga destaque devido à midiática descoberta de que fora enterrado, décadas depois, em um cemitério no interior de São Paulo. 

Após o fim da guerra, o chamado "Anjo da Morte" conseguiu escapar da captura na Alemanha e fugir para a Argentina com a ajuda de ex-companheiros da SS – a guarda de elite do regime de Adolf Hitler.

Este é o ponto de partida do filme O Desaparecimento de Josef Mengele, drama que detalha as tentativas bem-sucedidas do criminoso de guerra de escapar de seu julgamento, se mudando de Buenos Aires para o Paraguai, e depois  para o Brasil.

Dirigido pelo cineasta e diretor de teatro russo, Kirill Serebrennikov, o filme em língua alemã estreou em maio no Festival de Cinema de Cannes. No Brasil, foi exibido na última quinta-feira (23/10) na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas ainda não tem previsão de lançamento comercial nos cinemas. 

Baseado no premiado livro homônimo de 2017 do jornalista e escritor francês Olivier Guez, o filme é um retrato sombrio das raízes e consequências do extremismo ideológico. 

Josef Mengele (centro) em 1944 com os comandantes de Auschwitz, Rudolf Höss (direita) e Richard Baer, ​​que supervisionaram o assassinato de mais de um milhão de pessoas no campo de extermínioFoto: Public domain via Wikimedia Commons / Wikipedia

Em busca de justiça

Enquanto arquitetos nazistas do Holocausto, como Adolf Eichmann, enfrentaram a justiça, outros escaparam para a América do Sul com o apoio de colaboradores, simpatizantes de imigrantes alemães e, no caso da Argentina, com a ajuda do presidente Juan Perón, um aliado do fascismo europeu.

O Desaparecimento de Josef Mengele começa no ano de 1956, quando o médico vivia exilado em Buenos Aires sob o nome falso de Helmut Gregor. Mas agentes da Mossad, o serviço secreto israelense, oficiais da Alemanha Ocidental e caçadores de nazistas estavam em seu encalço.

Estrelando August Diehl (Bastardos Inglórios) no papel principal, o filme mostra como dinheiro, conexões e um talento camaleônico para o disfarce ajudaram um dos homens mais procurados do mundo a escapar da justiça internacional por décadas. Mengele acabaria morrendo afogado em uma praia brasileira em 1979. 

O filme também trata sobre como o homem que realizou experimentos eugênicos brutais em Auschwitz jamais conseguiu escapar de seu passado. Idoso, solitário, doente e vivendo sob uma identidade falsa em São Paulo, Mengele tem um encontro com seu filho, Rolf, que o questiona sobre o que realmente aconteceu no campo de concentração. Confrontado com uma nova geração que exige a verdade, Mengele só consegue reproduzir as antigas mentiras fascistas usadas para justificar seus crimes.

De pessoa comum a sádico criminoso

"O que acontece com os criminosos de guerra quando a guerra acaba? Existe justiça divina? Essas pessoas acabarão sendo punidas por seus atos?" Essas são as perguntas que inspiraram Serebrennikov a adaptar o livro de não ficção de Olivier Guez, que explorava a natureza do mal. "A questão do carma, da punição, da justiça. Tudo isso sempre me interessou", acrescentou, durante uma entrevista concedida pela distribuidora do filme.

O diretor, um crítico do regime de Vladimir Putin que passou anos em prisão domiciliar na Rússia, tentou propositalmente aproximar o espectador de Mengele, permitindo-lhe compreender a maneira dogmática de pensar do médico nazista. Tal abordagem foi parcialmente inspirada pela filósofa alemã Hannah Arendt, cujo conceito de "banalidade do mal" – concebido após o julgamento de Adolf Eichmann – conclui "que os monstros não são diferentes de pessoas comuns", esclarece o diretor russo.

"A questão é pedir ao espectador que coloque a máscara de Mengele para entender que o caminho da pessoa comum para o criminoso e o sádico pode ser assustadoramente curto", acrescentou. "Na mente dele, ele não se vê como a personificação do mal absoluto. Havia muitos outros médicos em Auschwitz – por que ele deveria ser o culpado?"

Ainda assim, o cineasta insiste que essa abordagem nunca deve despertar simpatia. "Simpatia por Mengele é impossível", disse ele.

Em novo longa, Kirill Serebrennikov se propõe a retratar a "banalidade do mal"Foto: DW

Serebrennikov também se inspirou no romance histórico As Benevolentes (2006), de Jonathan Littell. O livro trata sobre um oficial muito instruído da SS que vivia confortavelmente na França do pós-guerra e que reconta sua fúria homicida na frente oriental.

Além do personagem principal, O Desaparecimento de Josef Mengele também se concentra na rede de pessoas na Europa e na América do Sul que protegeram, financiaram e esconderam Mengele até sua morte.

"O mal não é apenas Mengele, mas também todas essas pessoas", aponta o diretor. "Muitas delas escaparam impunes."

Um alerta contra o extremismo ideológico

Não sendo falante de alemão, Serebrennikov disse que teve que aprender muito sobre a maneira como gerações de alemães se reconciliaram com essa história.

Atualmente baseado em Berlim, ele entrevistou atores, jornalistas, amigos e produtores para ouvir histórias sobre seus avós e suas vidas antes e depois da guerra.

"Muitos permaneciam em silêncio", recorda. "É um assunto muito doloroso. Mas talvez o filme tenha o potencial de desencadear um grande debate. Isso seria bom."

Com o ressurgimento da ideologia de extrema direita em um amplo espectro político global, O Desaparecimento de Josef Mengele também visa lembrar os espectadores sobre os perigos do dogma.

"Estamos atualmente cercados por sistemas fortemente ideológicos, e espero que o filme, em sua descrição precisa da estreiteza ideológica, ajude a evitar que as pessoas sejam enganadas por ideologias de qualquer tipo", disse o produtor do filme, Felix von Boehm.

 

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