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O alto preço da sobrevivência política de Assad

9 de fevereiro de 2018

Após sete anos de guerra civil, presidente da Síria se mantém no poder graças aos dois países que lhe protegem: Rússia e Irã. Por trás do apoio há uma série de interesses econômicos e políticos de Moscou e Teerã.

Assad (esq.) e Putin se encontraram em Sochi, na Rússia, em novembro de 2017
Assad (esq.) e Putin: com atuação na Síria, Rússia garante reputação de potência que não pode ser ignoradaFoto: Getty Images/AFP/M. Klimentyev

O regime do presidente Bashar al-Assad parece ter dificuldade para acabar com os bastiões rebeldes de Idlib e Ghouta Oriental. Nos últimos dias recorreu a ataques aéreos massivos contra os jihadistas. Somente nesta terça-feira (06/02), 63 civis morreram, incluindo 14 crianças, afirmou o Observatório Sírio de Direitos Humanos. Segundo relatos não confirmados, armas químicas teriam sido utilizadas.

Se conseguisse remover os insurgentes das duas áreas, o regime daria um passo decisivo para recuperar o controle de partes do território sírio. Com um triunfo militar em Ghouta Oriental, Assad consolidaria novamente seu poder, especialmente em torno da capital, Damasco.

Leia também: A profunda transformação do Exército Livre da Síria

O regime já conseguiu êxitos significativos: as grandes cidades do país estão novamente sob seu controle. Porém, os sucessos vêm acompanhados de perdas amargas. Quase um terço de todo o território continua nas mãos dos rebeldes. E, mesmo onde o regime conseguiu restaurar seu domínio, as milícias ditam as regras no cotidiano. Em linhas gerais, Assad não chega a controlar nem mesmo 50% do território sírio.

Apesar disso, o presidente pode se sentir seguro, pois conta com a proteção de dois aliados fortes: Rússia e Irã. Ambos foram fundamentais para garantir sua sobrevivência política. Diante do ódio acumulado após sete anos de guerra, isso também significa, já há muito tempo, sua sobrevivência física.

Assim, o regime pode se dar o luxo de agir de forma confiante e arrogante. Durante as negociações de paz conduzidas pela Rússia em Astana, no Cazaquistão, nas quais os principais grupos de resistência seculares estavam presentes, a administração Assad mostrou pouca vontade de se engajar nas conversações com os rebeldes.

"Os representantes do regime não tinham interesse algum nas negociações. Sem a pressão da Rússia, o processo político não funcionará", disse Nasr al-Hariri, negociador-chefe da oposição síria, ao jornal britânico The Guardian.

A impotência da oposição

O fato de a Rússia não exercer essa pressão atualmente fortalece o regime sírio. Moscou e Teerã mudaram de posição depois que, em 2012 e 2013, inúmeros soldados do Exército sírio desertaram para lutar ao lado dos insurgentes. Sem a Rússia e o Irã, Assad já teria perdido a guerra há anos.

Agora, ele parece estar prestes a obter outro triunfo militar. Tal impressão é compartilhada por vários países do Ocidente, segundo a ativista síria de direitos humanos Suhair Atassi. "Disseram-nos com muita clareza que nós, como oposição, estaríamos fora do jogo se não reconhecêssemos que Assad permanece no poder", disse Atassi ao jornal americano The New York Times.

Ela tem a impressão de que o Ocidente quer deixar o problema sírio para a Rússia resolver, e, por isso, estaria disposto a aceitar o modus operandi de Moscou na Síria. No entanto, justamente isso pode se tornar um problema para Assad no longo prazo. Moscou e Teerã não apoiam o presidente sírio por pura amizade. Para eles, a permanência de Assad no poder é a maneira mais fácil de fazer valer seus respectivos interesses na Síria.

"Atualmente, Irã e Rússia deixam Assad trabalhar para si, porque ele ainda não os decepcionou", escreveu a ativista síria Malak Chabkoun no site da emissora Al Jazeera. "Assad personifica um provérbio árabe: alguém lhe diz que ele deve ir para a esquerda, então ele faz. Se pedirem para ele ir para a direita, ele obedece."

A Assad não resta muito mais do que seguir as instruções dadas por quem o protege. Enquanto a Rússia fornece tecnologia militar, o Irã está ativo massivamente na Síria por meio de forças de combate e mercenários. Segundo Chabkoun, Teerã destacou 70 mil combatentes próprios para a Síria e, no total, financia 250 mil combatentes no país, entre eles, 90 mil sírios xiitas. Os combatentes oferecem lealdade ao país que paga seus salários – portanto, ao Irã, e não à Síria.

País vendido

Assad permanece no poder, mas tem que aceitar que ambos os países que lhe protegem persigam rigorosamente seus próprios interesses. Com sua atuação na Síria, a Rússia garante bases para seus militares e, principalmente, sua reputação como uma potência internacional que ninguém pode ignorar. O Irã, por sua vez, expande sua posição como supremacia regional. Além disso, assim como Moscou, Teerã tem interesses econômicos concretos na Síria.

Desde 2014, correm boatos de que empresários iranianos estão comprando não só empresas sírias, mas também terras agrícolas e lotes urbanos, afirma Chabkoun. Isso indica que o Irã quer se estabelecer tanto ideológica quanto economicamente na Síria. E, quanto mais obediente é o governo sírio, mais fácil é para Teerã alcançar tais objetivos.

Na verdade, Assad tem poucas razões e ainda menos poder para contrariar os interesses iranianos e russos. Após sete anos de guerra, o saldo parece ser ruim para Assad e a Síria: o presidente está a salvo, mas a terra que lhe foi confiada, completamente vendida.

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Kersten Knipp Jornalista especializado em assuntos políticos, com foco em Oriente Médio.
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