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O conceito da "arte paralela à natureza" em Hombroich

Em entrevista, paisagista da Fundação Ilha Hombroich, Burkhard Damm, falou sobre "a arte paralela à natureza", lema que conduziu a criação do museu na década de 1980. Hoje, esse lema é seguido por vários outros museus.

Insel Hombroich Museumsinsel
Foto: DW/C.Albuquerque

A motivação para construir a Fundação Ilha Hombroich foi manter um ecossistema para plantas, animais e para os seres humanos, diz Burkhard Damm, paisagista do Museu Ilha Hombroich, localizado em Neuss, no oeste da Alemanha.

Com base nessa ideia, o já existente foi transformado pelo colecionador de arte Karl-Heinrich Müller (1936-2007), a partir de 1984, seguindo o lema cunhado pelo pintor francês Paul Cézanne "a arte paralela à natureza".

Segundo Damm, ali os objetos não têm plaquetas ou descrições, ou seja, ali se pede ao visitante que encontre o próprio ponto de observação. Ele explicou também que os prédios do parque não foram concebidos como arquitetura, mas como esculturas transitáveis.

E quanto à natureza, ele disse que tenta permitir um grande volume de auto-organização para garantir a maior diversidade possível. Pois é "essa oferta de diversidade que atrai tanto os seres humanos quanto as plantas e animais."

DW Brasil: O projeto da Ilha Hombroich foi dividido em arte, arquitetura e natureza desde seu início?

Burkhard Damm: Eu não falaria de uma divisão, mas de uma interpenetração das três áreas, elas são colocadas uma em frente à outra. Aqui, a força criativa da natureza se depara com a força criativa do ser humano. E, nesse encontro, a natureza é deixada da forma mais livre possível. Mesmo assim é um local cultivado. Tudo que se vê aqui foi feito pela mão humana, tendo assumido sempre novas formas ao longo dos séculos.

Para a época da criação do museu, nos anos 1980, esse diálogo com a natureza foi uma abordagem bastante inédita.

Vendo isso em conexão com a arte, sim. O fato de pavilhões de exposição serem inseridos na paisagem foi certamente algo inédito, mas existem museus que já fizeram isso anteriormente. Existe o Museu Kröller Müller, na Holanda; o Museu Louisiana, em Copenhague.

Burkhard Damm: 'para acessar a arte, seguimos um caminho estético'Foto: DW/S. Hüls

Talvez seja algo especial a forma consequente com que fizemos Hombroich. E acredito que o nosso caminho para acessar a arte e a paisagem seja algo muito especial. Nossa forma de acessar a arte não é científico-artística, aqui seguimos um caminho estético. E estética significa originalmente uma percepção sensorial. Isso significa que, aqui, a percepção funciona através dos sentidos, através da observação da paisagem por meio de todos os sentidos.

Como este conceito influencia o projeto dos edifícios e do paisagismo?

Quando falamos em edifícios, pensamos em primeira linha na arquitetura. Estes prédios nunca foram concebidos como arquitetura, mas como esculturas transitáveis. Quem projetou estes edifícios, Erwin Heerich, foi um escultor, não um arquiteto. Isso significa que ele se interessava pelas relações de proporção. E a arte de Heerich também abordava uma objetividade, ou seja, tudo pode ser relacionado a um sistema de medidas.

E quando se tomam como base os princípios necessários à criação desses edifícios, talvez se encontrem na natureza princípios semelhantes. São princípios que não se mostram de forma óbvia, mas quando se observa o crescimento de uma árvore, então se nota que são módulos interligados uns aos outros. E esse tipo de construção pode ser visto novamente em módulos de 1,5m x 1,5m nos edifícios de Heerich. Ou seja, há certamente traduções desses princípios, existem relações que não aparecem de forma óbvia, mas que estão lá.

Então como funciona esse princípio no paisagismo?

Ambas as coisas são autênticas em si, ou seja, o paisagismo foi projetado independente dos edifícios. Isso significa que ele é autêntico e independente, e não é direcionado a um edifício, como num parque barroco ou num jardim projetado clássico, onde as perspectivas são encenadas de forma bastante consciente.

Talvez seja uma inovação aqui, também no paisagismo, o fato de se tratar de um parque aperspectivado, ou seja, nós não fixamos um ponto de onde se pode observar algo, mas ele se modifica e dessa modificação surgem novos pontos de observação.

Em sentido figurado, isso também acontece aqui com a arte. Os objetos não têm plaquetas ou descrições, ou seja, aqui se pede ao visitante que ele encontre o seu próprio ponto de observação. Nós não pré-estabelecemos isso e também não se trata de um agrupamento histórico artístico da arte em forma de pinturas, mas o que importa é encontrar o próprio ponto de vista.

Inhotim-Hombroich: a arte paralela à natureza

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Num museu, geralmente o caminho a percorrer já está pré-estabelecido. Aqui, o visitante chega e tem de encontrar o seu próprio caminho?

Existem pessoas que consideram isso uma brutalidade ou se sentem impotentes. Mas a arte não tem por função ser agradável. Nós vivemos numa sociedade baseada em serviços, onde estamos acostumados a receber tudo em mãos. Aqui, não é assim. É preciso trabalhar para se conseguir o que quer, pois acreditamos que, quando se trabalha para conseguir uma coisa – e isso não precisa ser cansativo, também pode ser prazeroso –, ela torna-se mais sustentável e mais própria.

Como é feita a escolha das árvores e plantas?

Eu falei no início que aqui se trata de uma paisagem planejada. A pergunta que me faço – e sou paisagista – é qual deve ser o tamanho da corda que a prende. No caso de um jardim barroco, essa corda é muito pequena. Nele, a auto-organização da natureza foi reduzida a um tamanho muito pequeno.

Aqui eu tento produzir ou, antes, permitir um grande volume de auto-organização. Mas isso também significa que nós sempre tentamos uniformizar plantas com efeito invasivo através de medidas adequadas, ou seja, um valor da paisagem é a diversidade, a diversidade de um prado. E o conceito de prado já sugere um cuidado. E a forma de cuidado condiciona a diversidade de um prado. Ou seja, a forma como eu ceifo e quando eu ceifo e, eventualmente, o que eu semeio.

A partir daí se mostra a diversidade para animais, plantas e, finalmente, para o ser humano. Sob esse princípio, trabalhamos aqui com pessoal especializado sobre quem podemos dizer: um bom jardineiro pode substituir dez ruins ou, melhor dizendo, é insubstituível. Pois essa constante observação da natureza é mais importante do que uma intervenção apressada e exagerada.

Existe uma estrutura básica pré-estabelecida pelo paisagista Bernhard Korte. Os lagos são todos artificiais. O jogo dançante dos chorões que existem aqui forma a estrutura, a base desta paisagem, mas também o horizonte e a abertura. Então temos de observar que avancemos nesse contexto. Ou seja, se árvores crescem muito, devemos considerar se deixamos crescer, onde deixamos crescer, mas também podemos podar. Essa é a responsabilidade que temos como jardineiros.

Mesmos obras do artista americano Alexander Calder não têm plaquetas ou descriçõesFoto: DW/C.Albuquerque

Existe uma preocupação em torno da proporção de espaço construído e não construído?

Você está falando de um conceito estético. Nesse caso, esse conceito estético seria de que cuidamos da paisagem segundo o ponto de vista do que o ser humano considera bonito. Mas a natureza é autônoma.

Queremos evitar cortar uma árvore porque ela atrapalha nossa noção de estética. Mas isso está sujeito a modismos, a estados de espírito. Isso não pode ser visto de forma absoluta. No final, isso é uma decisão intuitiva, segundo a qual eu digo: ali a mata está crescendo demais e a diversidade está ameaçada.

É um constante balanceamento entre a diversidade da paisagem, entre a abertura da paisagem, entre o horizonte da paisagem e as condições requeridas por plantas e animais. Tudo isso consideramos, ou tentamos considerar, em qualquer intervenção que fazemos.

Então havia um plano inicial e a partir desse plano inicial, as ampliações são praticamente feitas como reações ao entorno existente?

Podemos dizer que há uma linha contínua, que são os edifícios e a implantação dos edifícios na paisagem. Mas as árvores morrem, são derrubadas pelas tempestades. A paisagem se modifica, há acréscimo de nitrogênio pelo ar, ou seja, os campos também se modificam, todas as condições se modificam. Essa uma dinâmica bastante natural, que na botânica se chama sucessão.

É um processo bastante natural, que acompanhamos. Nós acompanhamos um processo em vez de tentar manter algo estável. E sempre temos de nos perguntar onde estamos, o que almejamos e para onde queremos ir.

Os jardins de Hombroich

03:31

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Há uma preocupação com os animais?

Tudo isso está ligado à paisagem. Eu não diferencio entre plantas e animais. Nós nos preocupamos em manter um ecossistema para plantas, animais e para os seres humanos. E essa foi a motivação de Müller para construir tudo isso aqui. E temos de cuidar para que isso seja possível e, naturalmente, quando trabalhamos aqui, de uma forma ou outra, é claro que isso sempre tem consequências sobre os animais.

E, naturalmente, há animais aqui que nem sempre nos agradam. E quando há animais que cavam as margens dos cursos d'água, então temos que pensar sobre o que podemos fazer contra isso. Em contrapartida, muito me alegra ver um martim-pescador fazer seus ninhos nessas margens. Ou seja, o martim-pescador como componente estético da paisagem pode ser visto por aqui.

Então temos que criar as condições para que ele venha. Ele não pode ser plantado ou instalado, ele vem devido à oferta que criamos. O mesmo acontece com os visitantes. Os visitantes aceitam o que oferecemos, da mesma forma que as plantas e os animais.

Então qual é o lugar da arte nesse contexto?

Trata-se de um equilíbrio entre as coisas, entre a arte e a natureza. Ou seja, a arte paralela à natureza. Uma coisa anda ao lado da outra. E talvez o que aconteça não possa ser descrito, mas vivenciado.

Aqui temos uma paisagem com diversos edifícios espalhados. E existem lugares onde eu vivencio um estímulo espiritual. Isso é algo muito, muito individual. E eu também vivencio um estímulo na paisagem. Isso se completa de forma mágica, mas também pode haver um confronto. Alguma coisa acontece, mas é algo tão individual que cabe a cada um vivenciar.

E isso não pode ser descrito, é como falar sobre o efeito de Mozart em vez de escutá-lo. Eu prefiro escutá-lo a falar sobre ele. É a experiência que provoca isso, mas não o fato de falar sobre alguma coisa. E isso tem de ser vivenciado por cada um.

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