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O nu não erótico alemão

Karina Gomes
8 de junho de 2018

Movimento FKK, de culto à cultura do corpo livre, é tradição secular na Alemanha. Atividades nudistas em família são guiadas pelos princípios de igualdade entre todos e o contato genuíno com a natureza.

Lago Müggel, Berlim Oriental, 1986: prática do nudismo tem raízes históricas na Alemanha
Lago Müggel, Berlim Oriental, 1986: prática do nudismo tem raízes históricas na AlemanhaFoto: picture-alliance/dpa/T. Uhlema

O sol torra as pequenas pedras ao longo do rio Isar, no centro de Munique. A correnteza refresca o olhar de quem está imerso nessa paisagem. O clima é de relaxamento e liberdade. O cinquentão sentado ao meu lado não hesita em se camuflar na natureza, sem lenço, sem documento. Simplesmente nu, sem pudor, numa atitude natural de quem quer aproveitar os esparsos dias de sol da forma mais simples possível: sem aparatos, sem proteções, sem julgamentos. Ele não é o único. O rapaz de 25 logo atrás, vestido apenas com óculos de sol, se deita sobre a toalha e aproveita a leitura de um clássico de Goethe.

Não estamos num espaço reservado ao naturismo, mas na cidade com uma das áreas para peladões mais famosas da Alemanha – o Englisher Garten. Ficar nu em frente ao Isar é uma atitude espontânea. Estamos todos juntos – nus e vestidos – no espaço público.

Mas esse é um motivo de discórdia entre os cerca de 50 mil adeptos da Freikörperkultur (FKK) – cultura do corpo livre – e os peladões espontâneos na Alemanha, que somam milhões. O movimento naturista alemão iniciado em 1839 por Henrich Pudor (sim, é esse mesmo o sobrenome), com sua obra literária sobre a cultura física ao ar livre, é organizado em torno de associações estaduais que oferecem clubes e espaços privativos para a prática.

A nudez comunitária acontece em locais reservados – e sinalizados – para a prática, como uma trilha de 16 km nas imediações de Hamburgo, onde os naturistas podem curtir o esporte e a natureza equipados com tênis e mochila. Placas podem avisar: "Se não quiser ver alguém nu, não siga por este caminho". As ilhas no norte da Alemanha, em particular, a Ilha Sylt, onde foi inaugurada em 1920 a primeira praia FKK da Alemanha, tem centenas de praias naturistas, com a placa com a sigla.

As Nacktivitäten (atividades de naturismo), como andar a cavalo, fazer canoagem, natação e voleibol nu, são componentes importantes da FKK, que começou uma como prática associativa em 1898, em Essen. A prática de esportes e a união familiar são essenciais, assim como o contato livre com a natureza. Diante da nudez despida de erotismo, todos são iguais. Mesmo com a proibição da prática durante o regime nazista, o movimento voltou com força após a Segunda Guerra Mundial.

A Associação Alemã para a Cultura do Corpo Livre (DFK) traz detalhes de hotéis, campings, cruzeiros, além de debates sobre saúde e meio ambiente, união e igualdade. Os adeptos do naturismo tradicional – que têm em média 50 anos de idade – estão em lenta extinção, mas o número dos que gostam de ficar nus, mesmo em áreas não reservadas, não para de aumentar. A prática do nudismo se disseminou e não está apenas concentrada em clubes ou espaços privativos para a prática da tradicional FKK. Por isso, não fique surpreso caso se depare com um peladão em parques ou na beira do rio em algumas cidades da Alemanha.

Nas saunas, ficar nu é mandatório. Só não vale andar pelado na autobahn. Para quem arrisca tamanha ousadia, há uma multa específica.

Na coluna Alemanices, publicada às sextas-feiras, Karina Gomes escreve crônicas sobre os hábitos alemães, com os quais ainda tenta se acostumar. A repórter da DW Brasil e DW África tem prêmios jornalísticos na área de sustentabilidade e é mestre em Direitos Humanos.

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