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O que é o Teatro de Contêiner, alvo de disputa em São Paulo

22 de agosto de 2025

Prefeitura determinou despejo da Companhia Mungunzá de Teatro de terreno público antes abandonado, em ação que gerou protestos. Justiça garantiu a permanência do coletivo até, no mínimo, fevereiro.

Pessoas se juntam do lado de fora do Teatro de Contêiner
Teatro de Contêiner Mungunzá ocupa há nove anos terreno da prefeitura antes abandonadoFoto: Rovena Rosa/Agência Brasil

No coração da Santa Ifigênia, região central de São Paulo marcada por contrastes sociais e urbanísticos, está erguida uma estrutura nada convencional: 11 contêineres marítimos transformados em palco, plateia, camarins e salas de convivência.

Desde 2016, o Teatro de Contêiner Mungunzá tornou-se referência de resistência cultural e social na cidade. Hoje, porém, sua continuidade está em risco diante de uma ordem de despejo da prefeitura de São Paulo.

O projeto nasceu após a Companhia Mungunzá de Teatro vislumbrar que, em vez de direcionar recursos culturais para aluguéis de imóveis privados, fazia mais sentido ocupar um terreno público ocioso e transformá-lo em espaço cultural, com a participação da comunidade do entorno.

Inspirados por movimentos sociais que atuam pela garantia do direito à moradia, os artistas solicitaram à prefeitura uma concessão temporária de dois meses para o projeto em um terreno municipal abandonado, próximo à estação da Luz – região marcada pela antiga "Cracolândia". E quase que da noite para o dia, montaram a estrutura.

"A população seria o nosso termômetro. Eles é que decidiriam se deveríamos ficar ou sair", afirmou a atriz e produtora Sandra Modesto em reportagem ao jornal Valor Econômico.

A resposta veio rápido: o teatro se consolidou como ponto de encontro, arte e inclusão social. Desde então, o espaço já recebeu mais de 4.000 atividades culturais, oferecendo ingressos a preços populares e até gratuitos.

Também abriu portas para projetos comunitários, como o Tem Sentimento, que gera renda para mulheres em situação de vulnerabilidade.

O reconhecimento pela iniciativa, dentro e fora do país, não tardou. Em 2017, a Mungunzá recebeu um Prêmio Especial da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por seu projeto de ocupação e criação do Teatro de Contêiner.

Mulheres em situação de vulnerabilidade aprendem a costurar no projeto Tem sentimentoFoto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Embate com a prefeitura

Em maio deste ano, a gestão do prefeito Ricardo Nunes notificou a companhia a desocupar o terreno em 15 dias, alegando necessidade da área para um empreendimento habitacional popular. O projeto prevê 95 apartamentos em um prédio de 14 andares, além de quadra esportiva e praça.

"A prefeitura já ofereceu três terrenos alternativos, inclusive um no Bixiga, três vezes maior que o atual", alegou o secretário-executivo de Cultura, Totó Parente, em artigo para a Folha de S.Paulo. Para ele, a companhia estaria politizando a disputa: "A prefeitura é a favor da cultura, não da baderna".

O prefeito Ricardo Nunes sustenta que o teatro ocupa área estratégica: "Se não deixarem o espaço, terão que responder criminalmente".

A prefeitura argumenta que quer revitalizar a região, inclusive com a construção de um prédio de habitação de interesse social. Também reitera que já ter repassou R$ 2,5 milhões em apoio às atividades culturais do grupo.

Manifestação contra ação de despejo promovida pela prefeitura de São PauloFoto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mobilização e resistência

A ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) no último dia 19 de agosto acirrou os ânimos em torno da disputa. Agentes de segurança fecharam o acesso dos artistas a um prédio anexo usado para guardar cenários e figurinos. Houve resistência, e o uso de spray de pimenta por parte da guarda municipal.

A prefeitura havia montado um palco para anunciar o projeto habitacional no dia, mas desistiu horas depois que vídeos mostrando a ação repercutirem nas redes sociais.

O episódio gerou reação imediata de artistas, estudantes e coletivos, que denunciaram violência e autoritarismo. O Ministério Público de São Paulo notificou a prefeitura pedindo esclarecimentos sobre a ação.

A mobilização deu resultado: a prefeitura prorrogou por 60 dias o prazo de desocupação, agora até 20 de outubro. A Justiça de São Paulo foi além, e concedeu uma liminar, na quinta-feira (21/08), garantindo a permanência do Teatro de Contêiner e do Coletivo Tem Sentimento no terreno pelo prazo mínimo de 180 dias – ou seja, pelo menos até fevereiro.

Na decisão, a juíza Nandra Martins Da Silva Machado justifica que o teatro, composto por estruturas de contêineres marítimos interligados, paredes de vidro, cobertura acústica, iluminação, além de um acervo artístico e cultural, precisa de "planejamento técnico e logístico para sua desmontagem, transporte e reestruturação".

O imbróglio envolvendo o teatro e a prefeitura mobilizou nomes de peso. Fernanda Torres enviou carta aberta ao prefeito pedindo a manutenção do espaço. Fernanda Montenegro também se pronunciou: "A Cia. Mungunzá já é parte da história teatral de São Paulo. Pedimos: estenda a sua mão". Outros nomes, como Marieta Severo, Giulia Gam, Marcos Caruso, Camila Morgado e Maria Gadú, assinaram documento solicitando que o teatro seja incorporado ao redesenho urbano da área.

Caruso foi enfático: "Não levem com vocês a mancha do fechamento de um teatro. Este teatro é referência para o nosso país".

Cultura x habitação

A disputa revela uma tensão mais ampla sobre o futuro do centro paulistano: como conciliar a urgente demanda por moradia popular com a necessidade de preservar espaços culturais que transformaram territórios antes marginalizados?

Para Marcos Felipe, um dos fundadores do teatro, a contradição é evidente: "Não somos contra moradias. Mas não compreendemos por que não se usam os tantos terrenos e prédios vazios da região. Um bairro não se faz só de casas; precisa de praças, lazer e cultura. O Teatro de Contêiner deve ficar porque descobrimos modos de sonhar e fazer acontecer onde parecia impossível".

sf (Agência Brasil, ots)