O que há em Donbass, chave no debate sobre guerra na Ucrânia
20 de agosto de 2025
Ainda são apenas relatos não confirmados na imprensa, mas já causam um debate acalorado nos EUA e na Europa: o presidente russo, Vladimir Putin, e seu homólogo americano, Donald Trump, teriam concordado, em sua cúpula no Alasca, que a Ucrânia deveria ceder as regiões de Donetsk e Lugansk à Rússia. Mas a Ucrânia poderia ser forçada a dar esse passo?
Putin estaria exigindo que as forças ucranianas se retirem completamente da região do Donbass. Em troca, o presidente russo suspenderia os combates ao longo do resto da linha de frente. Isso se aplica em particular às regiões do sul da Ucrânia, Kherson e Zaporíjia, onde as forças russas também ocupam áreas significativas.
Donetsk e Lugansk: ucranianas, mas próximas à Rússia
Nos últimos anos, Putin tem enfatizado a importância das regiões de Donetsk e Lugansk, que compõem o Donbass. Segundo ele, a região tem laços históricos com a Rússia e o legado da União Soviética. No entanto, segundo a Constituição, ela pertence à Ucrânia, e isso era indiscutível mesmo durante a era soviética.
Enquanto a Península da Crimeia só foi transferida da Rússia para a Ucrânia em 1954 pelo então chefe do governo soviético, Nikita Khrushchev – uma medida que ainda hoje é controversa na Rússia –, as regiões de Donetsk e Lugansk fazem parte da Ucrânia desde a fundação da República Socialista Soviética da Ucrânia em 1919.
No entanto, o Donbass sempre teve forte influência russa. Já no século 19, e mais tarde na era soviética, era considerado um centro industrial, rico em recursos minerais. Quando a mineração de carvão e as indústrias siderúrgica e química cresceram, muitas pessoas de toda a União Soviética, mas especialmente da Rússia, mudaram-se para lá em busca de trabalho. Mesmo antes de 2014, uma clara maioria da população era de língua russa.
E essa parte do leste da Ucrânia seguiu próxima da Rússia, mesmo quando muitos no oeste do país já queriam laços mais fortes com a União Europeia (UE) do que com Moscou. Viktor Yanukovych, o ex-presidente ucraniano apoiado pelo Kremlin, também nasceu em Donetsk e obteve seu maior apoio na região.
Donbass é alvo de disputas desde 2014
Quando Yanukovych foi derrubado após a Revolução da Maidan em 2014 e teve que fugir para Moscou, o Donbass virou um ponto de discórdia entre Moscou e Kiev. O Kremlin em seguida anexou a península da Crimeia, e a agitação se espalhou pelo leste da Ucrânia. Grupos armados apoiados por armas e combatentes russos declararam as autoproclamadas "repúblicas populares" em Donetsk e Lugansk.
Mas se Moscou esperava obter amplo apoio para essa medida entre os ucranianos de língua russa, logo se decepcionou. A guerra separatista no leste da Ucrânia foi amplamente rejeitada, e nas eleições presidenciais de 2019 da Ucrânia os eleitores deram ampla maioria a Volodimir Zelenski – mesmo nas áreas do leste da Ucrânia ainda controladas por Kiev. O próprio Zelenski cresceu falando russo, e sua política de buscar acabar com o conflito sem abrir mão da soberania da Ucrânia teve grande apoio.
No início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022, o Donbass continuava sendo um tema central para Putin. Em um discurso televisionado, ele justificou sua "operação militar especial" na Ucrânia dizendo que as "autoproclamadas" repúblicas de Donetsk e Lugansk haviam pedido ajuda a Moscou. Ele alegou que os moradores de língua russa nas áreas do leste da Ucrânia ainda controladas por Kiev estariam sendo vítimas de um "genocídio" – alegações para as quais não há evidências até hoje.
Por que o sudeste da Ucrânia é importante geopoliticamente
Hoje, toda a região de Lugansk e cerca de 70% da região de Donetsk estão sob controle russo. Isso significa que cerca de 88% de todo o Donbass está ocupado pela Rússia. Segundo estimativas, mais de quatro milhões de pessoas vivem nessas duas áreas. Além de depósitos de carvão e minério, acredita-se que haja lá vários depósitos de lítio, cobalto, titânio e terras raras, necessários para a produção de itens de alta tecnologia.
As duas regiões também têm um papel importante para a Rússia em termos de conexão terrestre com a península da Crimeia, que atualmente só pode ser alcançada a partir do território russo através da Ponte de Kerch.
Se o Donbass, ou seja, as regiões de Lugansk e Donetsk, pertencessem à Rússia e a linha de frente nas regiões de Zaporíjia e Kherson fosse congelada – ou seja, se a Rússia ocupasse essas áreas –, a Crimeia também estaria conectada à Rússia por terra. Isso cortaria permanentemente o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov, a parte do Mar Negro que fica entre a Crimeia e a Rússia.
Cinturão fortificado da Ucrânia
Para a Ucrânia, o Donbass também está longe de ter apenas importância econômica. Nas áreas ainda controladas por Kiev, a Ucrânia estabeleceu o seu chamado cinturão fortificado. Esta é a linha de defesa mais importante, que até agora impediu a Rússia de avançar ainda mais para o centro da Ucrânia.
Ela é composta por várias cidades-chave e posições fortificadas, como Kramatorsk, Slavyansk e Kostyantynivka, que a Ucrânia manteve sob seu controle até agora, apesar de grandes perdas. Por trás desse cinturão fortificado encontram-se as vastas planícies abertas do centro da Ucrânia, que sem uma linha de defesa estariam extremamente vulneráveis a uma nova ofensiva russa.
Sem garantias de segurança abrangentes e confiáveis, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski não pode considerar abandonar as áreas restantes do Donbass.
E, mesmo internamente, isso seria muito difícil de implementar. Por um lado, a Constituição do país o proíbe de fazer tal concessão. Por outro, seria extremamente impopular na Ucrânia: segundo uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, cerca de 75% dos ucranianos rejeitam qualquer cessão de território à Rússia.