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FilmeGrécia

O que os gregos acham da versão de Nolan para a "Odisseia"

14 de julho de 2026

Estreia do filme reacende debate sobre adaptações de clássicos; na Grécia, professores, pais e especialistas veem releituras como parte da perseverança da obra de Homero.

Still do filme em que estão os atores Jimmy Gonzales, Matt Damon e Himesh Patel caracterizados como guerreiros
A adaptação de Christopher Nolan reacende o debate na Grécia sobre releituras de uma história contada há quase 3.000 anosFoto: Cinema Publishers Collection/IMAGO

A Odisseia, de Christopher Nolan, estreia nesta sexta-feira (17/07) cercada por expectativa global e alguma controvérsia em torno das escolhas de elenco. Mas o que pensam os gregos sobre a adaptação cinematográfica do poema épico?

O grau de fidelidade ao texto original não tem sido uma questão. Em um país onde a história escrita por Homero é ensinada e recriada em toda escola, muitos destacam que a epopeia permaneceu viva por quase 3.000 anos não apesar das releituras, mas graças a elas.

"O que queremos que as crianças entendam é que cada nova criação é exatamente isso, uma nova criação", disse à agência Associated Press Filippos Mantzaris, que ensina a "Odisseia" para alunos do sétimo ano.

O filme, repleto de astros de Hollywood, incluindo Matt Damon no papel do rei Odisseu *em grego) ou Ulisses (em latim), segue a estrutura da obra original: o retorno do rei para casa após a guerra, enfrentando deuses e monstros, para encontrar seu palácio ocupado por rivais.

Cena da nova adaptação de Christopher Nolan sobre o retorno do rei Odisseu a Ítaca após a Guerra de TroiaFoto: Supplied By Lmk/Landmark Media/IMAGO

Um clássico nas salas de aula gregas

No sétimo ano, a Odisseia é ensinada em todas as escolas da Grécia.

Na classe de Mantzaris, os alunos discutem com entusiasmo os encontros de Ulisses com monstros e suas demais aventuras. Eles são incentivados a comparar a inteligência do herói com sua força, a refletir se a vingança é moral, se o rei endurecido pela guerra é realmente um modelo a ser seguido e se é justificável que ele mate os pretendentes de sua esposa. Exercícios de interpretação estimulam as crianças a imaginar o que fariam no lugar de Ulisses.

"É um texto literário extraordinário, com o qual as crianças podem se identificar, talvez se ver em Ulisses, mas também enxergar nele sua própria pátria", afirmou Mantzaris.

Kyriakos Agapiou, de 12 anos, disse que a leitura do poema nas aulas de Mantzaris lhe ensinou "que tudo é possível e que nunca devemos desistir".

O engenheiro agrônomo Nikos Varelas assistiu a uma adaptação teatral com seu filho de 4 anos, depois que os dois leram juntos versões infantis tanto da Ilíada quanto da Odisseia.

"É nosso dever como pais, como gregos", afirmou Varelas.

Anne Hathaway interpreta Penélope, rainha de Ítaca e esposa de OdisseuFoto: Cinema Publishers Collection/IMAGO

Segundo o ator Manos Pintzis, que interpretou Ulisses em uma produção local, levar a história ao teatro ajuda as crianças a descobrir a mitologia de uma forma que os livros, sozinhos, não conseguem proporcionar.

"Você não diz a uma criança: 'simplesmente leia a história porque precisa fazer isso', porque ela resistirá quando algo lhe é imposto", explicou Pintzis. "Quando a criança vê tudo isso se desenrolar diante de seus olhos, isso se transforma em um passo valioso em direção ao aprendizado, em direção à vontade de estudar por iniciativa própria aquilo que se espera dela."

A polêmica sobre o elenco de Nolan

Nos círculos conservadores dos Estados Unidos, grande parte das atenções se concentrou nas escolhas de elenco de Nolan, mais do que em sua adaptação da história de Homero.

Elon Musk sintetizou o incômodo dos reacionários ao afirmar que Nolan havia profanado a Odisseia ao escalar a atriz negra Lupita Nyong'o para interpretar Helena de Troia, sem ter assistido ao filme.

Lupita Nyong'o dá vida a Helena de Troia na produçãoFoto: Markus Schreiber/AP/picture alliance

Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Nolan afirmou que as reações negativas "fazem parte do jogo" e acrescentou que "essas conversas que acontecem antes de as pessoas verem o filme são sempre irrelevantes, porque quem as tem ainda não sabe de fato o que é o filme".

Nolan disse à agência AP que quis fazer um filme acessível e próximo do público, sem "olhar para versões passadas de Hollywood sobre como abordar o mundo antigo".

"O objetivo é questionar as suposições das pessoas sobre como as coisas deveriam ser representadas no cinema e em que essas suposições se baseiam", explicou. "Há um desafio nisso e também um risco. Mas espero que, ao criar um mundo coerente, as pessoas compreendam esse mundo enquanto assistem ao filme e sintam que o entendem."

Como tem sido a reação dos gregos

A polêmica do elenco não prosperou na Grécia, onde o público está acostumado a ver personagens da Antiguidade grega interpretados por atores de outros lugares.

O escocês Gerard Butler eternizou o grito "Isso é Esparta!" ao interpretar o rei Leônidas em 300. O americano Brad Pitt viveu Aquiles em Troia. O irlandês Colin Farrell interpretou Alexandre, o Grande, ao lado de Angelina Jolie no papel de sua mãe.

A atuação do mexicano-americano Anthony Quinn em Zorba, o Grego, em 1964, continua icônica no país e além.

A versão de Nolan não inova nesse quesito, portanto. Seu elenco conta ainda com estrelas como Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya e Charlize Theron, com narração do rapper Travis Scott.

Diretor afirma que elenco foi selecionado para "representar o mundo", mas não conta com nenhum talento grego entre personagens principaisFoto: Coadic Guirec/Bestimage/IMAGO

Uma das poucas manifestações contrárias no país à escalação dos atores veio do pequeno partido nacionalista Niki, que criticou ainda a decisão do governo grego de conceder cerca de 6 milhões de euros (aproximadamente R$ 34,8 milhões) em subsídios para apoiar a produção local.

O partido argumentou que os contribuintes gregos estavam financiando a imposição de uma "ideologia do tipo woke" sobre a história e a identidade cultural gregas, citando Musk.

A ministra da Cultura, Lina Mendoni, respondeu de forma contundente.

"Não cabe ao Estado dizer a um criador como ele deve interpretar artisticamente uma obra ou um mito", declarou à revista grega de cultura popular Lifo. "Estamos realmente tendo uma conversa sobre se o Estado deveria censurar Christopher Nolan?"

Matt Damon interpreta o rei Odisseu na nova adaptação de NolanFoto: Supplied By Lmk/Landmark Media/IMAGO

Uma epopeia universal

Christos Tsagalis, professor de literatura grega antiga da Universidade Aristóteles de Tessalônica, afirmou que, em última instância, cabe ao público decidir se a nova interpretação da Odisseia funciona. O importante, disse ele, é saber se ela consegue captar o essencial de uma das grandes histórias da humanidade.

As obras de Homero, recriadas e reinterpretadas ao longo de gerações, sobreviveram precisamente por terem se tornado universais, afirmou.

"Acho maravilhoso que algo criado em um momento específico por um povo específico seja compartilhado por tantas pessoas em todo o mundo. É uma cultura compartilhada", disse Tsagalis.

"É uma história fascinante", acrescentou. "É como um filme."

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