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O que se sabe sobre a fuga de Flávio Bolsonaro

27 de outubro de 2026

Candidato derrotado deixou o país rumo aos EUA de Trump após ignorar ordem judicial para entregar passaportes. Senador usou Argentina como rota de fuga.

Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro após a derrota na eleição presidencial de domingoFoto: Adriano Machado/REUTERS

O senador Flávio Bolsonaro (PL) fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos. Ao longo de terça-feira (27/10) e a madrugada de quarta-feira persistiu o mistério sobre onde exatamente Flávio estava. Houve relatos conflitantes.

Alguns, disseminados por aliados, indicaram que ele já teria chegado aos EUA no início da noite de terça-feira. Já veículos de imprensa da Argentina apontaram que Flávio teria somente decolado de um aeroporto regional no início da madrugada de quarta-feira rumo ao território americano.  Nesta quinta-feira, finalmente veio a confirmação que a segunda versão era a correta, e Flávio só desembarcou nos EUA depois das 10h

O episódio ocorre dois dias após o senador de extrema direita perder a eleição presidencial para Lula numa virada histórica e depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo a um pedido da Polícia Federal, determinar que Flávio entregasse seus passaportes e proibir o político de deixar o Brasil.

Nesta terça-feira, a Polícia Federal (PF) cancelou os passaportes brasileiros de Flávio após o senador não entregar os documentos. No mesmo dia, começaram a surgir relatos na imprensa argentina de que Flávio pretendia usar o país vizinho para seguir rumo aos EUA. Flávio não é visto em público desde segunda-feira.

Veja o que se sabe até agora sobre o paradeiro de Flávio Bolsonaro.

A ordem de Moraes a pedido da PF

Na noite de domingo, o ministro Alexandre de Moraes proibiu o senador Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil e ordenou que ele entregasse todos os seus passaportes.

A decisão partiu da Justiça com base num pedido protocolado pela Polícia Federal (PF) sete minutos após a confirmação matemática do resultado das urnas, que apontou a derrota do senador, segundo informação obtida pelo jornal O Globo.

A PF viu risco de fuga. Flávio é investigado em duas ações criminais: por suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito dos escândalos do Banco Master e dos desvios no INSS – neste último caso, ele é investigado junto com o advogado e amigo Willer Tomaz, que já deixou o Brasil rumo aos EUA em agosto.

Derrotado na eleição presidencial e com o mandato de senador se aproximando do fim, Flávio deve perder o foro privilegiado no Supremo a partir de fevereiro.

Na ordem, Moraes ainda determinou a entrega dos passaportes brasileiros (o comum e o diplomático) de Flávio e outras nacionalidades em até 24 horas. Além do documento brasileiro, Flávio tem um passaporte italiano.

Irmão de Flávio defendeu que senador deixasse o país

O pedido da PF a Moraes mencionou uma fala do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, ao podcast americano Louder with Crowder. No programa, o deputado federal cassado disse que, se o senador perdesse a eleição, deveria deixar o país.

"Se meu irmão não ganhar [a eleição], sou a favor de que ele deixe o país", afirmou Eduardo Bolsonaro no podcast.

Moraes também proibiu o contato de Flávio com Willer Tomaz, de quem o senador é amigo. O prazo para entrega dos passaportes expirou às 11h desta terça sem que fosse cumprida a determinação.

Depois disso, a PF cancelou os passaportes do senador: o comum e o diplomático. Porém, não tinha o mesmo poder sobre o documento italiano de Flávio.

"Nunca pensei em sair do país" 

A última aparição pública de Flávio Bolsonaro ocorreu na tarde de segunda-feira. Na ocasião, ele publicou um vídeo nas redes sociais dizendo ter sido intimado pela PF para entregar seus passaportes. Nas imagens, o senador apareceu sozinho, em frente a um muro em local não identificável.

Na mesma publicação, Flávio agradeceu aos eleitores que votaram nele e afirmou que pretendia pedir cassação da chapa de Lula por abuso de poder econômico.

"Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou", disse.

No mesmo vídeo, Flávio afirmou que não pretendia deixar o Brasil: "Eu nunca pensei em sair do país", disse. "Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar".

Argentina como rota de fuga

Durante a madrugada desta terça-feira, o site argentino Infobae reportou que Flávio Bolsonaro havia cruzado a fronteira entre o Brasil e a Argentina rumo à cidade de Puerto Iguazú. De lá, segundo a publicação, Flávio pegaria um voo particular para Miami, nos Estados Unidos. 

O aeroporto de Puerto Iguazú fica a cerca de 22 quilômetros da fronteira com o Brasil. Após a publicação da reportagem do Infobae, aliados de Flávio relataram que não conseguiam mais contato com o senador. Jornalistas também reportaram que ele não estava em nenhuma de suas residências.

Segundo o Infobae, o jatinho privado havia sido fretado da companhia aérea Baires Fly S.A. e a viagem envolveria quatro passageiros e três tripulantes. Flávio, de acordo com o site, teria cruzado a fronteira com um documento comum de identidade, o que é permitido entre países do Mercosul.

A PF brasileira não identificou registros da passagem do senador por algum ponto regular de migração brasileira. O governo da Argentina negou à DW que Flávio Bolsonaro tenha ingressado no país.

De acordo com dados do site de monitoramento aéreo FlightRadar24, o jatinho voou de Buenos Aires para Puerto Iguazú na noite de segunda-feira.

Já o jornal argentino La Nación, citando fontes da Polícia de Seguridad Aeroportuaria (PSA) da Argentina, informou que o voo tinha partida prevista para às 2h, sem destino.

A aeronave, no entanto, não decolou ao longo dia.

Aliados de Flávio disseminaram sem apresentar provas que ele já estava nos EUA

Horas depois da divulgação de informações desencontradas sobre o avião em Puerto Iguazú, começaram a surgir relatos de que Flávio havia conseguido embarcar rumo aos Estados Unidos.

Segundo relatos disseminados por aliados de Flávio à imprensa brasileira, o avião em Puerto Iguazú seria um mero despiste, e o senador teria seguido por outro caminho. A informação de que Flávio teria sido bem-sucedido em desembarcar nos EUA foi inicialmente divulgada por aliados do senador e uma fonte do governo Trump citada pela agência Reuters. 

Segundo o jornal O Globo, aliados de Flávio Bolsonaro relataram que o senador foi recebido pelo irmão Eduardo Bolsonaro ao chegar aos Estados Unidos. Segundo as fontes ouvidas pelo jornal, Flávio chegou em um voo para Miami e foi recebido pelo irmão, que teria articulado a operação de fuga junto a membros do governo Trump. Eduardo mora no estado americano Texas desde 2025, mas, segundo o jornal, se deslocou até a Flórida para receber Flávio.

Na noite desta terça, a TV Globo noticiou que o Departamento de Estado americano pretendia conceder vistos a Flávio Bolsonaro e a sua família. O governo Trump, porém, não informou oficialmente se eles já estavam em território dos EUA.

Nas horas seguintes não foram divulgadas imagens de Flávio em solo americano. Nenhum membro identificado do governo dos EUA também confirmou  em caráter oficial a informação de que Flávio já estaria nos EUA.

Decolagem transmitida pela TV argentina

Finalmente, no início da madrugada de quarta-feira (28/10), o canal argentino C5N mostrou ao vivo uma intensa movimentação no aeroporto de Puerto Iguazú e um jatinho decolando, sugerindo que Flávio só estaria deixando a argentina naquele momento e que a fuga ainda estaria sendo executada, ainda por cima com o auxílio do governo argentino, em contraste com os relatos de que o senador já estaria nos EUA e que uma rota alternativa foi usada.

Um avião decolou do aeroporto por volta de 0h15, em direção aos céus do Paraguai, de acordo com o site de monitoramento Flighradar24.

O site argentino Infobae, primeiro a revelar a história sobre a aeronave mais cedo, também apontou que Flávio só embarcou com sua família no início da madrugada de quarta e que o jatinho deve fazer uma parada no Equador antes de seguir para os EUA.

Mais tarde, depois da decolagem do avião, foi a vez de Donald Trump afirmar que "ouviu falar" que Flávio "estava na Argentina" e que ele concederia vistos para que o senador ingressasse nos EUA.

Na sequência, foi a vez do departamento de migração da Argentina confirmar que Flávio realmente tinha entrado no país. No entanto, o órgão afirmou que o ingresso só teria ocorrido às 22h50 de terça-feira, com o pressuposto que ele teria passado o dia em solo brasileiro. A mesma nota do órgão afirmou que não havia impeditivos contra a entrada de Flávio e que ele depois seguiu no avião parado ao longo do dia em Puerto Iguazú rumo ao Equador.  O comunicado não informava se o Equador seria o destino final do grupo.

Finalmente, pouco depois das 10h, surgiram imagens de Flávio e sua família desembarcando nos EUA.

A posição do governo Trump sobre as eleições no Brasil

Até a madrugada desta quarta-feira, os Estados Unidos não haviam parabenizado Lula oficialmente pelo resultado da eleição presidencial brasileira, em contraste com países como Alemanha, França, China, Espanha e Portugal.

Apesar de Trump não ter endossado nominalmente qualquer candidato no pleito, a Casa Branca transparecia que tinha preferência por Flávio Bolsonaro. A vitória inesperada de Lula interrompeu na América Latina uma sequência de eleições bem-sucedidas de políticos de direita próximos da Casa Branca de Trump.

Lula derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial ao receber 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador. A vantagem foi de quase 4,4 milhões de votos.

Na segunda-feira, Donald Trump disse achar que a eleição brasileira "parece fraudada". Questionado por repórteres sobre sua avaliação do pleito, ele disse que foi "terrível" e que "achou uma situação muito ruim".

"Passou uma impressão muito ruim. A eleição, a maneira como os votos foram contabilizados, sabe? Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho", disse Trump, em referência à prorrogação por duas horas do período de votação determinada pelo STF.

As reações

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta terça-feira às notícias sobre a saída de Flávio do Brasil, classificando o episódio como um ato "vergonhoso".

"Eu estou sabendo agora que o meu adversário foi embora, não sei. Não tenho informações precisas. Veja, eu perdi eleições para o Collor. Eu fiquei no Brasil. Eu perdi eleição para o Fernando Henrique Cardoso duas vezes, eu fiquei no Brasil. O Alckmin perdeu para mim, ficou no Brasil. O Serra perdeu para mim e ficou no Brasil. Eu fico imaginando que culpa. Fico imaginando que culpa tem na consciência um cidadão que acaba de perder as eleições e foge do seu país. Quando fui acusado tive muito convite para fugir do Brasil, ir para embaixada, eu resolvi ficar aqui no Brasil e resolvi me entregar na Polícia Federal para desmascarar meus investigadores. Quem não deve não teme", disse Lula.

O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-geral da Presidência, disse que Flávio Bolsonaro "deu um tapa na cara" de seus apoiadores.

"É uma coisa vergonhosa, que deve fazer a sociedade brasileira como um todo refletir, sobretudo aqueles que apoiaram e votaram no Flávio Bolsonaro. Ele deu um tapa na cara dos seus apoiadores e os deixou na estrada, largados. Poucas vezes na história brasileira se viu um episódio tão vergonhoso quanto o que nós estamos vivenciando hoje. O Flávio Bolsonaro, faz menos de dois dias, teve quase 60 milhões de votos. Ou seja, quase 60 milhões de brasileiros confiaram nele como liderança política para dirigir o país. 24 horas depois, ele foge. E não adianta vir com essa conversa de perseguição, de ditadura. Ele fugiu porque deve", disse Boulos.

Aliado de Flávio, o ex-juiz e governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), classificou como "compreensível" a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. "Em que tipo de país o candidato da oposição à presidência, que teve 59 milhões de votos, tem o seu passaporte apreendido no dia seguinte à eleição?", questionou Moro em publicação nas redes sociais.

 

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