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"O terrorismo tem raízes econômicas, disfarçadas de fundamentalismos religiosos"

Soraia Vilela8 de setembro de 2006

Em entrevista à DW-WORLD, a socióloga Barbara Freitag fala das feridas simbólicas deixadas pelo 11 de setembro e discute as diversas formas de segregação que geram violência no mundo contemporâneo.

Violência: conseqüência comum da segregaçãoFoto: picture-alliance/ dpa/dpaweb

DW-WORLD: No ensaio “Cidade e violência”, a senhora cria a categoria das "cidades feridas", aquelas que sofrem ou sofreram ataques, seja através de guerras (tomamos como exemplo recente Beirute), catástrofes naturais (Nova Orleans) ou atentados (Nova York). Há algo em comum entre essas cidades?

Barbara Freitag: Quando falei de “cidades feridas”, procurei inseri-las entre duas outras categorias: as “cidades vivas” e as “cidades mortas”. Em outros ensaios falei em “cidades em ruínas”. As cidades feridas incluem duas subcategorias, aquelas “feridas” por catástrofes da natureza (terremotos, enchentes, erupções vulcânicas, tsunamis) e aquelas cujas feridas resultam da intervenção dos homens (guerras entre povos, conflitos de classe, lutas religiosas). Não é difícil encontrar exemplos para cada uma das categorias.

As “cidades feridas” podem também ser consideradas "feridas" em momentos de passagem, de transição. Ou a vida da cidade atingida por destruições se recupera, assegurando a vida urbana, ou elas são abandonadas, precipitando a “morte”. Nova York é uma cidade viva, que foi ferida pelos atentados do “9/11”, mas conseguiu, em cinco anos, recuperar sua substância urbana e sair das ruínas.

Ao discutir as conseqüências simbólicas do 11 de setembro, a senhora diz que os atentados destruíram o orgulho e a segurança da sociedade norte-americana, “embalada anteriormente na certeza de que ninguém jamais conseguiria agredir o poder hegemônico do mundo contemporâneo". Quais são as conseqüências desta perda simbólica, cinco anos depois dos atentados?

11 de setembro: 'feridas simbólicas'Foto: AP

Permaneceram ”feridas simbólicas" entre os nova-iorquinos e os norte-americanos em geral. O sentimento de segurança em que se embalavam os cidadãos da maior superpotência do mundo foram atingidos. A conseqüência necessariamente é o medo, a insegurança e a xenofobia.

Os valores democráticos estão sendo corroídos e a democracia norte-americana, modelo para o resto do mundo, está assumindo formas autoritárias. Confirmando as previsões de George Orwell em 1984 (aliás, a origem do conceito de Big Brother, que vê e controla tudo no interior de nossas casa e vidas e hoje se torna realidade). O sentimento de vingança está sendo materializado nas guerras contra o Afeganistão, o Iraque e quem sabe, proximamente o Irã.

Os efeitos posteriores do 11 de setembro podem ser sentidos também em outras sociedades, como a brasileira? Durante os recentes tumultos coordenados pelo PCC em São Paulo, falou-se que o crime organizado no Brasil teria se inspirado nos atentados às torres gêmeas. Qual é sua opinião sobre esta suposição?

Os efeitos do 11 de setembro certamente estão presentes em outras sociedades. Creio, contudo, que isso atinge mais a Inglaterra e o continente europeu, inclusive a Alemanha reunificada. O aumento do terrorismo no Primeiro Mundo tem raízes econômicas, mas se disfarça por detrás de fundamentalismos religiosos perigosos, que dissolvem a concepção de cidadania e favorecem uma ideologia culturalista, associada ao laissez-faire anglo-saxônico.

No Brasil, a raiz dos “tumultos” está nas discrepâncias sócio-econômicas da sociedade e na falta de uma formação política cidadã efetiva, que se sinta comprometida com os direitos humanos e a democracia. Nas estatísticas de assassinatos por ano (55 mil), as motivações são vingança pessoal, ciúmes, ódio etc, acoplados a uma dificuldade social de resolver conflitos pessoais.

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Anos antes do 11 de setembro, Richard Senett descrevia em “Carne e Pedra” os "parênteses étnicos" de Nova York, o silêncio sedimentado dos habitantes da cidade e a incapacidade das pessoas de "acolher a diferença". A segregação é o destino das grandes cidades norte-americanas e européias, da mesma forma que a violência acompanha o desenvolvimento do espaço urbano nas sociedades do chamado Terceiro Mundo?

Tumultos nos subúrbios de Paris, em novembro de 2005Foto: AP

Tomando o termo “segregação” no seu sentido mais amplo, poderia até concordar com Sennet. Mas creio que, na Europa, América do Norte e no “Terceiro Mundo” (se é que essa expressão ainda tem validade), as formas de segregação são diferentes.

Existe a segregação racial (ideológica), usada pelos nazistas para exterminar os judeus. Existe a segregação cultural, que abrange a linguagem, a educação, a formação (ou não para a cidadania), a falta de bildung, no sentido alemão, de uma base cultural internalizada, comum aos membros de uma sociedade. A segregação religiosa, sexual/de gênero, de gerações (os velhos vivendo em guetos) e, acima de tudo, a segregação sócio-econômica. Essas diferentes formas se mesclam e não se tornam mais discrimináveis espacialmente.

Não creio que haja um destino comum para as grandes cidades, em que a violência sempre esteja presente. Os urbanistas e sociólogos urbanos falam em “conurbação”, "descentralização” e/ou “cidade policêntrica”, remetendo ao fato de uma certa “dissolução” do conceito e da realidade de “cidade” como citadela, com muros que protegem os moradores de dentro dos ataques de fora.

No futuro, será mais difícil praticar a “segregação” como ela foi possível no passado. Os “excluídos”, que estão virando maioria, tomarão a cidadela, como derrubaram a Bastilha em Paris.

A senhora elucida o contexto de violência das grandes cidades brasileiras, ao pontuar a criminalização da miséria e a falta de escrúpulos do Estado, explícita, por exemplo, em chacinas como as da Candelária e do Carandiru. Quais soluções a senhora vislumbra para a metrópole brasileira – cenário e matriz da violência?

Possíveis soluções para a violência precisam ser buscadas na superação das diferenças sócio-econômicas e injustiças intoleráveis no mundo e dentro de suas diferentes sociedades. Sabemos que o Brasil tem uma das distribuições de renda mais injustas do mundo. Em certas regiões do Brasil vivem brasileiros em condições de quarto mundo ou sub-Saara; em outras, vivem como os mais ricos do primeiro mundo.

É preciso superar esses hiatos que estão acoplados ao desemprego e ao analfabetismo. Os fatos são conhecidos, os remédios também, mas não são postos em prática por nossos políticos. Seria necessário consolidar o Estado de Direito em que todos têm os mesmos direitos e deveres. O filósofo alemão Jürgen Habermas chamou isso de Verfassungspatriotismus, a volta à crença na validade e vigência de leis, feitas para todos e por todos.


Existe algum ponto de interseção nos universos violentos de adolescentes revoltosos dos banlieues franceses, jovens que se matam diariamente nas favelas brasileiras, neonazistas nas cidades alemãs que atacam estrangeiros e terroristas islâmicos aptos a colocar bombas em metrôs? Há fatores comuns gerando estas diferentes manifestações urbanas de violência?

Violência nas ruas de São Paulo, em maio últimoFoto: AP

Há um trabalho interessante de uma colega minha da UnB, Wivian Weller, que estudou jovens de Berlim (descendentes de turcos) e jovens da periferia paulista, (descendentes de nordestinos). Em termos gerais, ela aponta para problemas universais da adolescência com sua revolta. Esses jovens, quando se dão conta das injustiças que reinam, apesar de todas as conquistas tecnológicas e econômicas, sentem-se inconformados e descontentes.

Os muçulmanos aderem em número cada vez maior aos projetos terroristas e da violência dos homens-bomba (como mostrou o caso recente dos jovens ingleses, descendentes de paquistaneses na Inglaterra). Um estudo na França mostrou que a revolta dos banlieues franceses tem conotação diferente. Esses jovens querem participar das aquisições sócio-econômicas e se revoltam contra o fechamento do mercado de trabalho do mundo globalizado.

Enquanto nossos “falcões”, no Brasil, morrem por violência dentro dos grupos rivais e em conflitos dos jovens com a polícia, sem chances de sobrevivência. São problemas que não são gerados na cidade, mas que nela têm condições melhores para se desenvolverem e radicalizarem.

A socióloga Barbara Freitag foi professora da Universidade Livre e da Universidade Técnica de Berlim e professora convidada da Universidade Humboldt, na mesma cidade. É professora titular (emérita) da Universidade de Brasília (UnB). Autora de, entre outros, A Escola de Frankfurt: Ontem e Hoje, Dialogando com Habermas, A Cidade dos Homens e Teorias da Cidade.

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