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Saída de Mattis deixa Trump rodeado de bajuladores

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Michael Knigge
21 de dezembro de 2018

Demissão de James Mattis, um dia depois de Trump ordenar retirada da Síria, é alarmante e poderá tornar política externa dos EUA ainda mais errática, opina o correspondente Michael Knigge.

Mattis (esq.) pediu sua saída por meio de uma carta enviada para TrumpFoto: Reuters/Y. Gripas

A lista de ex-colaboradores do presidente Donald Trump é extensa e continua crescendo – e inclui muitos nomes que não precisam ser lembrados. Mas o nome que será adicionado à lista até o final de fevereiro é, sem dúvida, o mais importante e de consequências mais sérias: James Mattis.

O chefe do Pentágono anunciou sua saída iminente em uma carta de duas páginas nesta quinta-feira (20/12), após a surpreendente decisão de Trump de retirar, com efeito imediato, todas as forças americanas na Síria.

A carta foi marcante por dois motivos. Em primeiro lugar, não continha elogios a Trump. Em segundo, deixou muito claro que Mattis renuncia porque sua visão de política externa e defesa dos EUA se choca com a de Trump. Nenhum dos dois motivos surpreende.

Mattis foi o único secretário que resistiu aberta e consistentemente a elogiar o presidente Trump nas reuniões do gabinete, que lembram mais uma autocracia do que uma democracia.

Para ser claro, Mattis, como qualquer um que serve este presidente, é cúmplice em muitas das políticas detestáveis que foram e são implementadas por esta administração, como, por exemplo, a separação desumana de filhos imigrantes de seus pais e, ainda, a proibição de viagens.

Michael Knigge é correspondente da DW em Washington

Mas, ao contrário de outros, Mattis pelo menos tentou mitigar ou evitar o que ele considerou as posições mais insensatas de Trump. Pouco depois das eleições, mas antes de Trump tomar posse, Mattis discordou publicamente da promessa do recém-eleito de fazer novamente da tortura uma ferramenta de interrogatório.

Mattis, apesar de suas dúvidas sobre o acordo nuclear com o Irã, queria que os EUA permanecessem no pacto. Mattis também estava profundamente cético sobre o primeiro impacto de Trump em relação à Coreia do Norte, seguido de um bromance constrangedor entre o presidente dos EUA e o ditador da Coreia do Norte.

Mattis também discordou do desejo expresso por Trump de retirar as tropas americanas do Afeganistão e da Síria. A ordem tuitada pelo presidente na terça-feira para retirar todos os soldados da Síria foi provavelmente a gota que fez transbordar o copo.

Finalmente, e decisivamente, Mattis colidiu com Trump sobre a Aliança Atlântica. Durante a campanha presidencial, Trump chegou a chamar a Otan de obsoleta, uma observação da qual ele nunca recuou de maneira convincente porque, sem dúvida, é o que ele realmente pensa da aliança militar.

É aqui que o contraste com Mattis não poderia ser mais acentuado. General de quatro estrelas cuja carreira incluía liderar um comando da Otan, Mattis vê a aliança como crucial e transmitiu rotineiramente seu apoio à Otan para os ansiosos aliados europeus.

Trump não acredita em alianças duradouras, valores compartilhados ou na importância da história. Para ele, tudo é puramente transacional, pecuniário. Esse sentimento colide com a visão de mundo de Mattis, que coloca importância em parceiras duradouras e valores comuns, e o que tem sido, em termos gerais, a posição tradicional defendida por presidentes anteriores dos EUA.

O que faz com que a saída de Mattis tenha consequências é que ele foi o último conselheiro influente no gabinete de Trump cuja visão de mundo e do papel dos EUA nele se alinhava com a dos principais parceiros europeus dos EUA.

É por isso que líderes e diplomatas europeus consideravam Mattis, cuja influência vinha diminuindo há algum tempo, como o último baluarte de resistência a um presidente totalmente errático e irresponsável. Com o aliado Mattis de saída, a Europa e a Otan devem se preparar.

Quando Mattis deixar seu cargo, no fim de fevereiro, Trump ficará completamente rodeado de bajuladores, que basicamente atuarão para uma plateia de uma pessoa só e sempre dirão o que pensam que o chefe gostaria de ouvir. Essa é uma perspectiva ameaçadora para o mundo, especialmente porque esta presidência ainda não chegou nem na metade.

Em sua recente declaração de apoio à liderança saudita após o assassinato do jornalista Kashoggi, Trump declarou: "Os EUA em primeiro lugar! O mundo é um lugar muito perigoso!" Pode soar hiperbólico e alarmista, mas a saída de Mattis pode fazer com que Trump implemente essas palavras numa amplitude hoje inimaginável.

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