O que leva um escritor a ser festejado e outro a ser esquecido? Podemos confiar no julgamento de gerações anteriores? Uma pequena nota sobre escritores famosos e outros obscuros, no Brasil e na Alemanha.
Romancista e poeta alemão Horst BienekFoto: picture-alliance/dpa/C. Hoffmann
Anúncio
Todo país desenvolve sua tradição nacional, decide quais autores serão lidos nas escolas, e o público em geral pode muitas vezes manter viva a obra de um autor por simplesmente a continuar lendo. Cada caso de recepção de uma obra literária tem uma história individual, com suas idiossincrasias, seus altos e baixos.
Há escritores que são muito famosos em vida, mas caem no esquecimento após a morte, inundando os sebos com seus livros. Outros são completamente ignorados em vida, para depois se tornarem centrais no cânone quando já mortos. Alguns dirão que se trata apenas de uma questão de qualidade. Há obras que sobrevivem e outras que não. Mas sempre há complicações.
Pensemos num caso brasileiro. Este ano, Hilda Hilst será a homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty. Sua obra poética completa foi lançada pela Companhia das Letras, e em breve virá a reunião de sua prosa. Nos últimos anos, os livros haviam sido lançados de forma individual pela Editora Globo. É o sucesso. A consagração. E, no entanto, Hilda Hilst abandonou a literatura na década de 1990, após sua incursão pela pornografia, pela falta de leitores, da qual ela sempre se ressentiu.
Voltemos à Alemanha. Uma passagem pelas livrarias de Berlim poderia nos dar uma visão errônea sobre quais autores são hoje influentes no país. Para os que acham que um Prêmio Nobel salvaria a literatura brasileira, basta pensarmos em Nelly Sachs (1891-1970), que ganhou o prêmio em 1966. É claro que seus livros podem ser encontrados em qualquer livraria. São, imagino, lidos, já que editoras não são exatamente instituições de caridade.
No entanto, não conheço autores alemães jovens que tenham Nelly Sachs como influência. Sua temática terá certamente algo a ver com isso, tendo escrito alguns dos poemas famosos da língua dedicados ao horror da Shoah. Mas o mesmo se dá com outros autores, como Gottfried Benn e Else Lasker-Schüler. São canônicos. São estudados. Mas raramente mencionados em conversa fora do âmbito acadêmico.
Outro exemplo é Marie Luise Kaschnitz (1901-1974), contemporânea das brasileiras Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Seu caso talvez seja parecido ao das brasileiras, e penso aqui no artigo de Juliana Bratfisch publicado este mês no Suplemento Pernambuco (À procura de uma Cecília impossível, Suplemento Pernambuco, fevereiro de 2018).
Trata-se talvez das complicadas expectativas em relação à escrita feminina. O problema que tanto o Brasil quanto a Alemanha parecem ter com o lirismo, um "torcer de beiços" para certa escrita que soterrou por um tempo no Brasil a escrita de Hilda Hilst ou soterra por aqui, por exemplo, a escrita de Inge Müller.
No meu caso, venho me interessando cada vez mais nos últimos tempos pela escrita de Horst Bienek (1930-1990). Romancista e poeta, ele estreou com o volume de poemas Traumbuch eines Gefangenen (Diário de sonhos de um prisoneiro, 1957). À época, o livro foi criticado por usar "metáforas" de encarceramento que, num país que há pouco tempo ainda via o retorno de prisioneiros de guerra do leste, pareciam já datadas.
No entanto, não eram apenas metáforas. Horst Bienek foi preso em 1951 não como soldado, mas pela Stasi, e condenado a 20 anos de prisão por "incitações antissoviéticas". O autor passaria quatro anos no campo de trabalhos forçados conhecido como Workuta, experiência sobre a qual ele ainda escreveria no livro de memórias que traz o nome do campo, publicado postumamente.
Horst Bienek parece-me um escritor excelente. Perguntei sobre ele a meus amigos escritores alemães: a maioria não sabia sequer de quem se tratava, alguns o conheciam de nome mas não o tinham lido.
A literatura de um país pode por vezes ser um labirinto. Descobertas a cada curva. Eu ando emprestando meus volumes de Horst Bienek para quem aceite descobri-lo.
Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.
_______________
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos noFacebook | Twitter | YouTube | WhatsApp | App
Dez clássicos da literatura alemã
De "Fausto" à "História sem fim", de Thomas Mann a Günter Grass, a literatura alemã inclui obras para todos os gostos. Selecionamos dez.
Foto: picture-alliance/dpa/P. Endig
"Fausto"
Dividido em duas partes, o poema trágico de Johann Wolfgang von Goethe, de 1808, "Faust – eine Tragödie" é considerado uma das obras-primas da literatura alemã. Insatisfeito com a própria vida e sedento de conhecimento, o cientista Heinrich Fausto acaba fazendo um pacto com o diabo, Mefisto, prometendo-lhe sua alma. Na foto, a tragédia é interpretada pelos atores Bruno Ganz e Robert Hunger-Bühler.
Foto: picture-alliance/dpa/Expo_2000
"A Montanha Mágica"
Uma das obras mais conhecidas de Thomas Mann, "Der Zauberberg", de 1924, é considerado um retrato da sociedade europeia antes da Primeira Guerra Mundial. O romance aborda a estadia do jovem Hans Castorp, oriundo de uma tradicional família de Hamburgo, num sanatório, nos Alpes suíços, de 1907 a 1914. O romance foi transformado em filme pelo diretor Hans W. Geissendörfer, em 1982 (foto).
Foto: imago/United Archives
"O tambor"
"Die Blechtrommel", de 1959, trouxe reconhecimento internacional ao futuro Nobel Günter Grass e projeção à literatura alemã do pós-guerra. O romance pertence à chamada "Trilogia de Danzig", que lida com a culpa da Alemanha pelo nazismo e a memória do Terceiro Reich. A versão para o cinema da obra, dirigida por Volker Schlöndorff, foi a primeira produção alemã do pós-Guerra a conquistar um Oscar.
Foto: ullstein - Tele-Winkler
"O perfume"
O bestseller de Patrick Süskind, "Das Parfum – Die Geschichte eines Mörders" foi publicado em 1985 e, em 2006, ganhou versão cinematográfica (foto). A história se passa na França no século 18 e tem como protagonista Jean-Baptiste Grenouille, cujo próprio corpo não tem cheiro, mas que é dotado de um olfato fora do comum. Obcecado em criar o perfume perfeito, ele se transforma num assassino.
Foto: picture-alliance/dpa
"O lobo da estepe"
O clássico "Der Steppenwolf" foi publicado por Hermann Hesse (foto) em 1927. Em plenos anos 1920, em Zurique, o protagonista Harry Haller vive uma crise existencial em meio à devastação do pós-guerra e descreve a si mesmo como "o lobo da estepe". Ao conhecer Hermínia, ele começa a ver o mundo de outra maneira. O livro foi o primeiro de Hesse a ser traduzido para o português, em 1935.
Foto: picture-alliance/Sven Simon
"Os bandoleiros"
O drama de Friedrich Schiller "Die Räuber", de 1781, tem como tema as tramas criminosas da nobreza, mais especificamente a rivalidade entre os irmãos Karl e Franz von Moor. Os dois brigam pelo reconhecimento do pai, concorrem pela mesma mulher e lutam por poder e influência. O clássico acaba de ser adaptado para o cinema no ano passado (foto), codirigido por Pol Cruchten e Frank Hoffman.
Foto: Coin Film Francois Fabert
"A honra perdida de Katharina Blum"
"Die verlorene Ehre von Katharina Blum" foi publicado pelo Nobel de Literatura Heinrich Böll em 1974. O autor tematiza a imprensa sensacionalista e suas possíveis consequências por meio da história da dona de casa Katharina Blum e do assassinato do jornalista Werner Tötges. O romance foi adaptado para o cinema em 1975 (foto), sob a direção de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta.
Foto: picture-alliance/Mary Evans Picture Library
"O Leitor"
"Der Vorleser", publicado por Bernhard Schlink em 1995, gira em torno do amor de Michael Berg, de 15 anos, por Hanna, 21 anos mais velha. Numa espécie de ritual romântico, ela sempre lhe pede que leia para ela. Até que Hanna desaparece. Anos depois, Michael a reconhece entre os acusados num processo para julgar crimes do nazismo. O romance transformou-se em filme em 2008 (foto).
Foto: Studio Babelsberg AG
"A história sem fim"
"Die unendliche Geschichte", publicado por Michael Ende em 1979, não pode faltar nas estantes das crianças na Alemanha. Todas conhecem as aventuras do jovem Bastian no país Fantasia, que ganharam projeção internacional desde que "A história sem fim" chegou aos cinemas, em 1984 (foto). O romance fascina não somente o público infantil, mas também adulto.
Foto: picture-alliance/dpa
"Contos de Grimm"
A coletânea dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm "Kinder- und Hausmärchen" foi publicada entre 1812 e 1858, e é considerada a obra alemã mais disseminada no mundo, depois da Bíblia de Lutero. Incluindo clássicos como "Rapunzel", "Chapeuzinho Vermelho" (foto) e "Branca de Neve", os contos já foram traduzidos para mais de 160 idiomas e inspiraram filmes, peças de teatro, desenhos animados e quadrinhos.