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CriminalidadeBrasil

Ouro amazônico é "lavado" com conivência do sistema oficial

Publicado 29 de maio de 2026Última atualização 29 de maio de 2026

Investigação do Greenpeace mostra como falhas da Agência Nacional de Mineração persistem, ajudando garimpos a movimentar bilhões e a "esquentar" ouro extraído ilegalmente em unidades de conservação da Amazônia.

Garimpo ilegal no Parque Nacional do Rio Novo
Garimpo ilegal no Parque Nacional do Rio Novo, no estado do ParáFoto: Lais Modelli/Greenpeace

Dentro da Terra Indígena (TI) Kayapó, no estado do Pará, faixas extensas de terra revirada e lagos artificiais de tom esverdeado indicam que um crime está em andamento. O cenário é típico do garimpo ilegal de ouro, uma atividade que deixa pouca chance para a Floresta Amazônica se regenerar.

De origem ilegal por ser extraído dentro de um território indígena, o metal proveniente dessas áreas costuma passar por um processo de simulação de rito legal para poder ser vendido. O roteiro é conhecido há décadas pelas autoridades, mas segue se repetindo.

A poucos quilômetros fora do limite da TI, um local autorizado para explorar ouro comercializa uma quantidade completamente desproporcional.

Considerando a área em questão, o peso do metal declarado em notas de vendas é dez vezes maior do que a produção seria capaz de suprir. A suspeita é que parte desse ouro tenha vindo, na verdade, do garimpo dentro da terra indígena.

Este é apenas um dos casos de "lavagem de ouro" identificados numa investigação da ONG Greenpeace. Ao longo de um ano, a organização rastreou a origem de 26,8 toneladas de ouro declaradas por empresas que exploram o metal e concluiu que o esquema de irregularidades continua vivo.

"A culpa não é só do garimpeiro. É do barão que financia o garimpo e de todas as lacunas e brechas que a legislação deixa para que ele opere", afirma à DW Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil.

A denúncia faz parte do relatório Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude, publicado nesta sexta-feira (29/05). O documento detalha como o sistema previsto pela lei tem sido usado para "esquentar" o minério extraído ilegalmente e as falhas na fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM).

A falha no sistema

A manipulação começa na Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). Esse tipo de autorização foi criada em 1989 pelo governo do então presidente José Sarney e libera extração de minérios – como ouro e diamante – em pequena escala, numa área de até 0,5 quilômetro quadrado por pessoa física.

Entrar com um pedido de PLG é relativamente simples e pode ser feito online: o requerente precisa indicar as coordenadas geográficas da área, fornecer um plano de aproveitamento e o método de extração e alguns documentos pessoais. Não é exigida uma ​​pesquisa mineral prévia e, depois de autorizada, cabe à ANM fiscalizar as atividades.

O relatório do Greenpeace analisou 187 PLGs ativas entre 2018 e março de 2026. Segundo a investigação, 98 delas, que representam quase a totalidade do ouro declarado (97%), apresentaram irregularidades. Elas foram concedidas a pessoas e cooperativas nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia. No período, esse grupo declarou ter comercializado 26,8 toneladas de ouro – o que corresponderia a cerca de R$ 19,5 bilhões.

O problema já foi denunciado no passado pela sociedade civil, foi alvo de inquérito da Polícia Federal, movimentou o Supremo Tribunal Federal (STF) e foi escancarado por auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU).

"Mesmo com todos esses alertas já dados, a ANM não está fazendo o que cabe a ela, que é fechar o canal de lavagem de ouro dentro do país", critica Aguiar.

André Porreca, procurador da República na Amazônia Ocidental, acompanha o debate de perto. Conhecedor de cada detalhe da trajetória que o ouro faz até chegar às joalherias, ele afirma que é preciso a fiscalização na origem.

"Na primeira etapa da produção, a origem do ouro é baseada na autodeclaração. O garimpeiro extrai o ouro, que vende para a cooperativa, que vende para a Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM). E essa vai transformar o metal em artigo financeiro e vai vender o ouro para a refinadora. Mas o problema está lá no começo", pontua o representante do Ministério Público Federal.

Garimpo ilegal no Parque Nacional do Rio Novo. Para os indígenas, o garimpo provoca destruição e graves problemas de saúde. Foto: Lais Modelli/Greenpeace

Furos rastreáveis

Todos os dados analisados pelo Greenpeace são públicos. O rastreio é possível por meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), uma espécie de imposto pago à União, estados e municípios por quem explora o minério. O documento registra informações como nome, local de extração e valor arrecadado.

Depois de analisar imagens de satélite, de radar e realizar diversos sobrevoos para checar se as informações da CFEM correspondiam com a realidade da área de extração, o Greenpeace concluiu que a maioria das PLGs declaradas tinham sinais de fraude. Algumas delas eram, de fato, garimpos fantasmas ou mantinham operações desproporcionais de escala industrial.

"A ANM tem capacidade de cruzar dados com a Receita Federal – que são inacessíveis à sociedade civil – e utilizar o sistema Brasil Mais, que já se provou eficiente no trabalho da Polícia Federal e Ibama para identificar fraudes. Mas não o faz", aponta Aguiar.

O programa Brasil Mais, criado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, fornece imagens diárias de satélite em alta resolução e alertas como desmatamento, garimpo, incêndios e plantio de culturas ilegais com o objetivo de inibir crimes ambientais.

O impacto nefasto do garimpo

A TI Kayapó é a mais afetada pelo garimpo entre os territórios indígenas no Brasil. O mapeamento detalhado do projeto Amazon Mining Watch, da Amazon Conservation, Earth Genome e Pulitzer Center, aponta que a área destruída pela atividade saltou de 4,2 hectares em 2018 para 8 hectares em 2025. A situação também é crítica nos Yanomami e Munduruku.

"A atividade garimpeira não é capaz de conviver com a floresta. Se fosse símbolo de desenvolvimento, Itaituba seria uma Amsterdã", avalia Aguiar, referindo-se ao município paraense conhecido como "capital do ouro".

No Índice de Progresso Social (IPS), ferramenta que pontua de 0 a 100 o nível de bem-estar social e ambiental das cidades, Itaituba é uma das últimas colocadas no ranking nacional, com nota 51. Quesitos como acesso à água e saneamento e direitos individuais têm as piores avaliações.

Para os indígenas, o garimpo provoca destruição e graves problemas de saúde. O mercúrio usado para separar o ouro é despejado nos rios, acumula-se nos peixes consumidos e causa danos neurológicos irreversíveis.

Ouro e fiscalização

Não se sabe quantos garimpeiros atuam no país. A alta do preço do ouro registrada desde 2025, motivada pelo cenário geopolítico incerto e a disparada de compras por bancos centrais, é apontada como um dos gatilhos para a ilegalidade na Amazônia.

Em 2023, um estudo do Instituto Escolhas calculou que 94% do ouro brasileiro importado pela Europa vinham de áreas de risco. O material exportado sai principalmente dos estados do Pará e do Amazonas, dominados por permissões de lavras garimpeiras. Alemanha e Itália são os maiores compradores europeus do metal extraído no Brasil.

Questionada pela DW, a ANM admitiu que o "chamado "esquentamento” de ouro ilegal constitui um dos principais desafios regulatórios e fiscalizatórios do setor mineral brasileiro. Afirmou ainda que está fortalecendo mecanismos de controle documental, geoespacial e operacional voltados especialmente às PLGs.

Em julho de 2025, uma auditoria do TCU havia determinado que a agência cancelasse as permissões de lavra garimpeira ilícitas em um prazo de três meses. Em março de 2026, como o relatório recente apontou, muitas continuavam ativas

Existem atualmente 17,3 mil requerimentos de PLG em tramitação na ANM, informou a agência à DW. Em todo país, aproximadamente 3,2 mil permissões foram outorgadas. O órgão não disse quantas já foram canceladas por irregularidades.

Para acabar com a fraude, especialistas ouvidos pela DW recomendam a implementação de um sistema de rastreabilidade e uma fiscalização rígida. Aguiar defende que o órgão exija pesquisa mineral prévia para outorga de novas PLGs e que identifique e cancele todas as PLGs fantasmas.

"A gente já apontou casos demais nesses anos e a ANM continua sem tomar a devida providência", critica Aguiar.

Nota da redação: após a publicação do texto, a ANM informou sobre o número de requerimentos de PLG em tramitação na agência. A informação foi acrescentada na matéria.

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