Papamóvel vai virar unidade de saúde para crianças de Gaza
5 de maio de 2025
Meses antes de morrer, papa Francisco doou para fins humanitários em território palestino o veículo usado em sua viagem à Terra Santa. Porém iniciativa exige criação de um corredor humanitário.
Papamóvel em que papa Francisco visitou Belém, em 25/05/2014, será convertido em unidade médica.Foto: Andrew Medichini/REUTERS
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Atendendo os últimos desejos de Francisco, um dos papamóveis do sumo-pontífice será remanejado em unidade de saúde móvel para crianças da Faixa de Gaza. Como informou o serviço de imprensa Vatican News neste domingo (04/05), o veículo que ele empregou em sua viagem à Terra Santa, em 2014, será equipado com aparelhos de diagnóstico, exames e tratamento médico.
No Mitsubishi convertido, em exposição e juntando poeira desde então, médicos e enfermeiros terão acesso aos menores necessitados em locais isolados do território palestino sob crescente ocupação israelense. Desde 1930, os líderes máximos da Igreja Católica usam papamóveis em suas visitas internacionais.
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Segundo a Vatican News, meses antes de sua morte, em 21 de abril de 2025, o pontífice argentino confiou o projeto à organização católica de assistência humanitária Caritas Jerusalém. Entretanto não está claro quando estará disponível o corredor humanitário essencial à iniciativa. A agência vaticana citou ainda um apelo frequente de Francisco: "Crianças não são números. Elas são rostos. Nomes. Histórias. E cada uma é sagrada."
"O mundo não esqueceu as crianças de Gaza"
"É uma intervenção concreta, salvadora de vidas, numa época em que o sistema de saúde de Gaza entrou em colapso quase total. Com o veículo, vamos poder atender crianças que hoje não têm acesso aos cuidados de saúde, crianças feridas e subnutridas", comentou ao serviço de imprensa vaticano o secretário-geral da Caritas Suécia, Peter Brune. "Não é só um veículo, é uma mensagem de que o mundo não esqueceu as crianças de Gaza."
O do sumo-pontífice foi um defensor eloquente da paz naquele território palestino, sobretudo condenando os bombardeios de áreas com crianças e pedindo o fim das hostilidades. Desde que eclodiu a guerra em escala plena, em seguida aos ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, Francisco telefonava regularmente para os palestinos abrigados numa pequena paróquia da Cidade de Gaza.
Especulou-se que por esse apoio aos palestinos, Israel tenha retirado as condolências postadas na plataforma X, em seguida à morte do pontífice, instruindo ainda suas representações diplomáticas em todo o mundo a evitarem postagens elogiosas ao papa. O Ministério de Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, registra 52.535 mortes do lado palestino desde o 7 de Outubro.
av (AP, Reuters)
Vida e obra do papa Francisco em imagens
Pontífice faleceu após 12 anos na liderança da Igreja Católica. Durante esse período, ele pediu paz, inclusão, preservação do meio ambiente e justiça econômica.
Foto: Riccardo De Luca/Anadolu/picture alliance
Líder da "Igreja dos pobres"
Após a surpreendente renúncia do papa Bento 16, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o 266º papa em março de 2013. Ele foi o primeiro pontífice a adotar o nome Francisco, em homenagem ao santo católico Francisco de Assis, que era venerado por sua vida de pobreza, humildade e cuidado com os seres vivos. Ao fazer isso, o papa Francisco pediu uma "igreja para os pobres".
Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo/picture alliance
Imigrantes no centro
O papa Francisco usou seu papado para chamar a atenção para o sofrimento dos imigrantes. Em meio à crise de imigração à Europa, em 2016, Francisco visitou refugiados no centro de detenção Moria, extremamente superlotado, na ilha grega de Lesbos. Lá, ele conclamou o mundo a "responder de uma forma digna de nossa humanidade" e levou 12 refugiados muçulmanos para Roma em seu avião papal.
Foto: Andreas Solaro/AFP/Getty Images
Defensor do meio ambiente
Em sua encíclica papal de 2015, "Laudato Si" ("Louvado Seja"), o papa Francisco criticou o sistema capitalista, argumentando que o modelo econômico explora os pobres e destrói o meio ambiente. Durante todo o seu papado, defendeu a preservação ambiental e chamou a atenção para a crise climática. Ele levou essa mensagem a todos os lugares de sua Igreja, como no Sínodo da Amazônia, em 2019.
Em 2021, Francisco desafiou preocupações de segurança quando se tornou o primeiro pontífice a visitar o Iraque. Lá, cercado pelas ruínas de igrejas destruídas, ele orou pelas vítimas da guerra em Mossul, que já foi a capital do chamado "Estado Islâmico". A visita de Francisco foi parte de seu esforço mais amplo para preencher as lacunas entre a fé cristã e as religiões não cristãs.
Foto: Andrew Medichini/AP/picture alliance
Pedido de desculpas pela política missionária no Canadá
Em 2022, o papa Francisco se reuniu com delegações dos povos das Primeiras Nações Inuit e Metis do Canadá para pedir desculpas pelo papel da Igreja no abuso sistemático, na violência e no apagamento cultural cometidos por missionários no país. Ele não estendeu a "peregrinação de penitência" aos EUA, onde internatos protestantes também forçaram a educação cristã a crianças indígenas.
Foto: Nathan Denette/The Canadian Press/AP/dpa/picture alliance
Figura religiosa e "rock star"
Francisco nomeou uma série de cardeais para realizar suas ambiciosas reformas e chegou a ser capa da revista de rock "Rolling Stone" por liderar uma "revolução suave". No entanto, as reformas ficaram aquém do esperado, por exemplo, abrir caminho para o sacerdócio feminino.
Foto: picture alliance/dpa/ROLLING STONE
Construção de pontes
A fama de Francisco atraiu multidões, como na Indonésia, quando visitou a maior nação muçulmana do mundo, em 2024. Apesar dos esforços para construir pontes e uma Igreja mais inclusiva, o papa foi apenas parcialmente bem-sucedido em iluminar a comunidade LGBTQ+. Francisco autorizou a benção a casais do mesmo sexo, mas não permitiu o rito matrimonial.
Foto: Indonesia Papal Visit Committee
A solidão na pandemia
Em 2020, o papa Francisco celebrou a bênção "Urbi et Orbi" ("À Cidade e ao mundo") na Praça de São Pedro, deserta devido ao confinamento imposto pela pandemia da covid-19. A imagem do pontífice rezando solitário se tornou símbolo de como a crise sanitária impactou o planeta e marcou seu papado. Na ocasião, ele concedeu o perdão dos pecados aos fiéis católicos que vivem sob "um mundo enfermo".
Foto: Reuters/G. Mangiapane
Benção final
Aos 88 anos de idade, o papa Francisco faleceu em 21 de abril de 2025 em decorrência de um AVC e insuficiência cardíaca. Apenas um dia antes de sua morte, ele deu a tradicional bênção Urbi et Orbi ("À cidade e ao mundo") ao final da missa de Páscoa de domingo e andou de papamóvel em meio à multidão. Francisco acabou sendo sucedido pelo papa Leão 14, que também veio das Américas