Peru caminha para 2º turno entre Keiko e ultradireitista
13 de abril de 2026
Em eleições marcadas por erros logísticos e número recorde de candidatos, apuração indica que filha de Alberto Fujimori deverá disputar Presidência com Rafael López Aliaga, admirador de Donald Trump.
Keiko Fujimori deve disputar segundo turno presidencial pela quarta vez consecutivaFoto: Angela Ponce/REUTERS
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As eleições presidenciais no Peru caminham para um segundo turno entre a direitista Keiko Fujimori (Força Popular) e, provavelmente, o ultradireitista Rafael López Aliaga (Renovação Popular), que denunciou fraude sem apresentar provas e pediu a prisão do organizador do pleito, após uma jornada eleitoral marcada por problemas logísticos que obrigaram a extensão da votação para esta segunda-feira (13/04) em 13 colégios.
Com 40% dos votos apurados, Fujimori lidera a corrida com 17,1%, seguida por López Aliaga (16,4%) e centrista Jorge Nieto (13,8%), o único que poderia colocar em xeque a vaga no segundo turno do empresário admirador de Donald Trump.
Com 35 candidatos à Presidência – número recorde no país –, era esperado que nenhum deles alcançasse os 50% dos votos necessários para vencer no primeiro turno. Caso a apuração parcial das atas eleitorais se confirme, será a quarta vez consecutiva que Fujimori estará no segundo turno, tendo perdido nas três ocasiões anteriores.
Apoiadores de Keiko evocam a imagem de seu pai, Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos e corrupçãoFoto: Angela Ponce/REUTERS
A campanha da candidata foi marcada pela defesa do governo de seu falecido pai, Alberto Fujimori (1990-2000) – autor de um autogolpe de Estado em 1992 e posteriormente condenado a 25 anos de prisão por violações aos direitos humanos e outras sentenças por corrupção. Segundo Keiko, "há 25 anos somos governados pelo antifujimorismo, que a única coisa que fez foi buscar desculpas e lançar muitos insultos".
" Os resultados da contagem rápida são um sinal muito positivo para o país, porque o inimigo é a esquerda e, de acordo com os resultados da contagem, não estariam no segundo turno, e isso é muito positivo para todos os peruanos", disse Fujimori ao observar o campo político de seus adversários mais próximos.
Já López Aliaga é empresário do setor de trens de luxo e hotéis, ex-prefeito de Lima e e admirador declarado de Donald Trump. Por sua semelhança com o personagem de desenho animado Porky Pig (Gaguinho, na tradução para o português), adotou o apelido de "Porky", chegando a usar bonecos infláveis gigantes do porquinho em sua campanha.
Entre as propostas de campanha de Rafael Lopez Aliaga está a expulsão de "migrantes ilegais" da Venezuela Foto: Angela Ponce/REUTERS
O segundo turno está previsto para 7 de junho, e seu vencedor será o nono presidente do Peru em dez anos, substituindo, em 28 de julho, o atual presidente interino, o esquerdista José María Balcázar.
Atrasos e confusão
O processo eleitoral do domingo contou com atrasos na abertura de importantes centros de votação, sobretudo na capital Lima, devido à falta de material eleitoral, o que fez com que cerca de 52 mil eleitores ficassem sem votar – num país onde o voto é obrigatório. Por isso, a Justiça eleitoral peruana esticou para esta segunda a votação nesses locais, uma decisão inédita no país.
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O Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), responsável pela organização das eleições, atribuiu o problema à empresa contratada para a distribuição, que em alguns pontos chegou cinco horas após o horário de início da votação. De acordo com o relatório oficial, foi possível instalar 99,8% das seções eleitorais no país.
López Aliaga processou criminalmente o chefe da ONPE, Piero Corvetto, por omissão de funções e solicitou ao Ministério Público que ordene sua prisão, por considerar que "não é coincidência" que tenham ficado sem abrir colégios em zonas onde, segundo ele, votam majoritariamente no seu partido, o Renovação Popular.
As falhas na votação embaralharam ainda mais uma disputa já complicada, em meio a um ambiente de forte crise política, descrédito nas instituições e aumento da criminalidade.
Eleitores tiveram de escolher entre 35 candidatos, número recordeFoto: Luis Robayo/AFP
Grande parte dos peruanos desconfia da classe política, a quem responsabiliza pela violência que coincide com a chegada de grupos criminosos transnacionais em guerra com os locais.
Os discursos de campanha se concentraram em combatê-los com truculência, com propostas como tribunais anônimos para julgar criminosos, prisões cercadas por cobras, recompensas por matar criminosos ou retirar o país da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Em entrevista à AFP na véspera da eleição, Fujimori prometeu expulsar migrantes sem documentação, atrair investimentos americanos e se juntar ao bloco de governos de direita da região, que cresce com o apoio de Donald Trump.
Além do presidente e do vice-presidente, os eleitores peruanos elegeram ainda deputados e senadores. O presidente eleito certamente terá de lidar com um Congresso dividido, um desafio de governabilidade e permanência no poder.
sf/cn (EFE, AFP, OTS)
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.