Detido na quarta-feira, Martín Vizcarra foi levado para presídio que já abriga três outros ex-presidentes. Ao todo, Peru viu seis antigos mandatários serem detidos nas últimas duas décadas.
Martín Vizcarra, que governou o Peru entre 2018 e 2020Foto: Carlos Garcia Granthon/Zumapress/picture alliance
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A Justiça do Peru determinou na quarta-feira (13/08) a prisão preventiva, por cinco meses, do ex-presidente do Peru Martín Vizcarra por risco de fuga. No momento, Vizcarra enfrenta uma possível condenação em um processo que envolve acusações de recebimento de propina.
Após a decisão Vizcarra foi detido pela Polícia Nacional.
Ele foi levado para a prisão de Barbadillo, na região de Lima, onde atualmente também seguem detidos três outros ex-presidentes peruanos: Alejandro Toledo (acusado de lavagem de dinheiro), Pedro Castillo (tentativa de golpe de Estado) e Ollanta Humala (corrupção).
Ao todo o Peru soma seis ex-presidentes detidos nas últimas duas décadas. Além de Vizcarra, Toledo, Castillo e Humala, também chegaram a ser detidos os ex-presidentes Alberto Fujimori e Pedro Pablo Kuczynski.
Um sétimo, Alan Garcia, cometeu suicídio em 2019 quando estava prestes a ser detido por policiais na sua residência.
Desde o fim da ditadura militar no Peru, em 1980, apenas 4 dos 11 políticos que cumpriram mandatos à frente da Presidência do país não enfrentaram problemas com a Justiça após deixarem o cargo.
Alejandro Toledo, que governou Peru entre 2001 e 2006 e permanece presoFoto: Peru's National Police/AP/picture alliance
Presídio para ex-presidentes
A prisão de Barbadillo, instalada dentro da sede da Diretoria de Operações Especiais da Polícia do Peru, foi inaugurada nos anos 2000, inicialmente para abrigar especificamente o ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000.
Condenado por crimes contra a humanidade, Fujimori permaneceu no complexo entre 2007 e 2023, com uma breve interrupção entre 2018 e 2019, quando foi beneficiado por um indulto, posteriormente anulado pela Justiça.
Alberto Fujimori, que permaneceu mais de uma década preso em Barbadillo. Ele morreu em 2024Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Por uma década, Fujimori permaneceu como o único preso da unidade. Mas desdobramentos da brasileira Operação Lava Jato que começaram a respingar em políticos peruanos acusados de receber propinas da empreiteira Odebrecht acabaram por aumentar a população de Barbadillo.
Em 2017, Fujimori ganhou a companhia de Ollanta Humala, que governou o Peru entre 2011 e 2016. Humala permaneceu inicialmente preso até 2018. Mas em 2025, após ser condenado a 15 anos de prisão por corrupção no caso Odebrecht, voltou para Barbadillo.
Em dezembro de 2022, o presídio também passou a abrigar o ex-presidente Pedro Castillo, que foi preso logo após ser destituído na esteira de uma tentativa de autogolpe, tendo permanecido na Presidência por pouco menos de um ano e meio.
Pedro Castillo permanece preso desde dezembro de 2022Foto: Guadalupe Pardo/AP Photo/picture alliance
No ano seguinte, a prisão também recebeu Alejandro Toledo, que governo o Peru entre 2001 e 2006, e que foi condenado a 20 em regime fechado após ser acusado de lavagem de dinheiro no âmbito do caso Odebrecht.
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Prisão domiciliar e suicídio antes de prisão
Presidente do Peru entre 2016 até sua renúncia em 2018 em meio a um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski cumpriu três anos de prisão domiciliar entre 2019 e 2022. Assim como Toledo e Humala, ele também se viu envolvido em acusações de corrupção no caso Odebrecht.
Em 2025, ele ainda cumpria medidas cautelares, como uma proibição de deixar o país.
Alan Garcia, que governou o Peru em duas ocasiões (1985-1900 e 2006-2011), e foi outro implicado no caso Odebrecht, poderia ter se somado à lista de ex-presidentes detidos. No entanto, em 2019, quando policiais se dirigiram à sua casa para cumprir um mandado de prisão, Garcia cometeu suicídio com uma arma de fogo.
Ollanta Humala foi preso em duas ocasiões. Ele também segue detido em BarbadilloFoto: Angela Ponce/REUTERS
Vizcarra preso por casos anteriores à sua Presidência
Martín Vizcarra, o mais recente ex-presidente que se somou à lista de presos, governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment.
Sua prisão na quarta-feira envolve uma acusação de crime de suborno passivo que abrange o período em que Vizcarra era governador regional de Moquegua (2011-2014) e posteriormente vice-presidente do Peru (2016-2018).
Em uma audiência pública, o magistrado leu a resolução depois da argumentação do procurador Germán Juárez, que acusou Vizcarra de receber um pagamento de 2,3 milhões de sóis (US$ 611 mil) em propinas por parte de empresas contratadas para obras de irrigação, além de 1,8 milhão de sóis (US$ 510 mil) durante a ampliação de um hospital.
Ao tomar a decisão, o juiz de primeira instância considerou que existe perigo processual e perigo de fuga. Mas ele esclareceu que, com sua decisão, "não determinou culpabilidade", sobre o crime de suborno.
Antes de ser preso, Martín Vizcarra vinha tentando recorrer à Justiça para reverter três condenações que determinaram sua inelegibilidade por um período de dez anos. Ele vinha manifestando interesse em concorrer nas eleições presidenciais peruanas de 2026.
Ex-presidentes latino-americanos que já foram presos
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.