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Resenha

Simone de Mello4 de abril de 2007

Em seu mais recente livro, 'Kali', o escritor austríaco Peter Handke encontra, entre as rupturas do mundo contemporâneo, lugar para o lirismo e a fábula.

'Monte Kali', no nordeste de HessenFoto: picture-alliance/dpa

"Metamorfose. E então eu a vi, a que me importava desde o início da história, lá fora numa paisagem que não era de todo dissimilar da do quadro antigo, a não ser pelas árvores esparsas se mostrando sem folhas, estratificadas na amplitude da pastagem e da paisagem aquática. Ela estava lá a sós, circundada por um grande silêncio, como se acabasse de transpor um limiar, o limiar para o recôndito. Mesmo assim, continuava sendo o Ponto Morto, esse local que já se tornara mais ou menos familiar, com a mina de sal às costas dela, e agora os sinos da igreja à distância, sem edifício algum onde quer que fosse. Um céu como que amorfo; mas mirando mais de perto, uma nuvem única tomou forma. E em toda a ausência de caminhos, ao se contemplar aparecia algo como uma trilha, uma vereda ou pelo menos um fragmento disso, talvez meramente o rastro de um animal selvagem."

Narrativa de sutileza lírica

Com Kali – Eine Vorwintergeschichte (Kali, uma história antes do inverno), Peter Handke apresenta aos leitores sua mais enigmática narrativa. Com uma intensidade lírica rara na prosa contemporânea, o escritor austríaco mostra neste livro não apenas o domínio rítmico e dramatúrgico que marca suas grandes obras, mas atinge um alto teor de concentração ao explorar as possibilidades de continuidade narrativa através de uma estrutura fragmentária.

O enredo básico, como sempre em Handke, é simples. Uma cantora retorna à sua região de nascença e resolve se estabelecer num povoado em torno de uma salina, onde encontra não apenas a criança desaparecida que estava sendo procurada por toda a população de "sobreviventes da Terceira Guerra", mas também o homem promete se tornar seu grande amor.

"Kali" se refere a "Kaliberg", mina de sal onde se ambienta a narrativa, cujo branco contrasta com a referência à divindade indiana Kali, deusa da morte e da renovação, caracterizada pela cor negra, entre outros atributos. E de fato, o forte contraste entre preto e branco também marca o suspense entre catástrofe insinuada e silêncio, entre a dramaticidade de tudo o que é descrito e a tranqüilidade do tom.

Babel contemporânea

Kali é um espaço textual de misturas e contrastes: epopéia medieval e música pop, conto de fadas com rupturas narrativas modernas, ironia romântica e discurso messiânico, investigação geológica e sublimidade poética. E neste compêndio de materiais heterogêneos e interferências diversas, uma história de amor se consuma no centro de uma mina de sal, espaço ainda intacto.

A misteriosa protagonista desta história tem o talento de reencontrar coisas, uma dessas pessoas "que se chama quando se perde uma lente de contato no cascalho". Isso também poderia se dizer do narrador, cujo olhar aguçado encontra na atualidade conflitos subliminares que parecem se manter aquém da percepção, mas minam o mundo contemporâneo com medo e isolamento.

Os personagens de Handke são sobreviventes de uma guerra que ainda se mantém latente, cada um deles "displaced person" por uma razão ou outra. "Os fugitivos de hoje se mantêm entre si. E entre si não significa entre todos os outros. É que eles provêm – de uma porta para outra, e isso dentro das casas – de regiões do mundo totalmente distintas, não entendem a língua do vizinho de porta e da língua local apenas umas frases feitas. (...) Estão em definitivo estado de choque. (...) E o choque não cede. São náufragos para todo o sempre."

Peter HandkeFoto: AP

Kali talvez tenha sido o livro de Handke mais elogiado pela crítica após a publicação de seu grande "epos", Mein Jahr in der Niemandsbucht (Meu ano na enseada de ninguém, 1997). A tônica das resenhas é o lugar de destaque que o escritor austríaco mantém na literatura contemporânea de língua alemã e o alto grau de elaboração estética que já o tornou há muito tempo um clássico.

Peter Handke – Kali: Eine Vorwintergeschichte. Frankfurt/Meno: Suhrkamp Verlag, 2007; 161pp.

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