Política de Trump faz alemães hesitarem em ir à Copa
3 de abril de 2026
O trem para Stuttgart, na Alemanha, está praticamente lotado. Em cada parada entram pessoas vestindo a camisa da Alemanha. Há uma animada conversa sobre a seleção alemã de futebol e a Copa do Mundo que se aproxima, nos Estados Unidos, Canadá e México.
Num dos últimos dias de março, a Alemanha enfrentou o Gana no último amistoso internacional antes do início da preparação para a Copa do Mundo. Muitos torcedores começaram a viagem logo pela manhã, incluindo Dennis e Kai.
Os dois amigos do norte da Alemanha embarcaram cedo no trem, vestindo a camisa da seleção alemã e ansiosos para apoiar a equipe pessoalmente naquela noite em Stuttgart.
Para Dennis, em particular, viagens como esta são rotina; ele acompanha a seleção de seu país desde 2015 e, aos 40 anos, praticamente não perdeu um jogo desde então. Kai é presença constante na equipe desde a Eurocopa de 2024, sediada na Alemanha. "Usar a águia no peito e cantar o hino nacional é algo especial", disse Dennis à DW. "Você sempre encontra outros torcedores, viaja para torneios — isso é sempre de arrepiar."
Os dois são o que se conhece como torcedores assíduos, fãs que acompanham o time em todas as partidas, independentemente do local.
Expectativa antes do torneio
Não é de admirar, portanto, que a próxima Copa do Mundo esteja firmemente marcada em seus calendários. "Estou bastante ansioso", disse Kai, com os olhos brilhando enquanto falava. "Quero absorver tudo o que está acontecendo nas cidades. Dennis sempre falava muito sobre isso."
A expectativa começa muito antes do torneio, acrescentou seu amigo Dennis: "A empolgação começa dois anos antes; você começa a economizar e a pensar em como será a viagem."
Ambos já compraram ingressos para os jogos da Alemanha na fase de grupos, e o itinerário está todo planejado. Eles estão muito animados e a atual situação política nos Estados Unidos não está diminuindo o entusiasmo deles. "A política deveria ficar fora do esporte. O esporte serve para construir pontes e unir as pessoas, mas a política muitas vezes gosta de explorar torneios como este", disse Dennis.
Löw alerta contra viagens
Mas nem todos estão tão tranquilos. Recentemente, o ex-técnico da seleção alemã Joachim Löw alertou contra viagens à América do Norte. "Já tivemos debates antes mesmo da Copa do Mundo de 2018 na Rússia e pedidos de boicote antes da Copa do Mundo de 2022 no Catar. Mas jogar em um país que está atualmente em guerra é ainda mais perigoso", alertou Löw em um evento em Colônia.
Löw, que levou a Alemanha à vitória na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, referia-se às políticas do presidente dos EUA, Donald Trump , que declarou guerra ao Irã no final de fevereiro. Além disso, as operações da agência de imigração ICE e outros conflitos geopolíticos estão causando instabilidade e incerteza. A situação política está "ofuscando completamente o torneio", disse Löw.
Preocupação com liberdades individuais
Também houve, e continua a haver, fortes críticas da esfera política. "O que a Fifa está organizando lá em conjunto com Donald Trump não é algo que me anime", disse à DW Boris Mijatovic, político do Partido Verde e ativista dos direitos humanos.
"A divulgação de dados pessoais, como endereços de e-mail, telefones celulares, computadores ou contas de redes sociais, não deve ser ignorada. Trata-se de uma violação da liberdade individual que eu não toleraria", disse Mijatovic. "Um Estado que invade sua privacidade dessa maneira não deve ser recompensado com uma visita."
Mijatovic também teme outros "momentos bizarros de vergonha alheia", como o presidente da Fifa, Gianni Infantino, entregando o recém-criado Prêmio da Paz da Fifa a Trump durante o sorteio da Copa do Mundo.
"Acho absolutamente grotesco o modo como se tem de prestar homenagem a este presidente para ganhar o seu favor. Isto aplica-se tanto a Gianni Infantino como ao chanceler [federal alemão] Friedrich Merz", acrescentou o político, incluindo o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Bernd Neuendorf, nas suas críticas.
Mijatovic considera que falta coragem para expressar críticas à Fifa. "Sinto falta dessa postura", disse ele. "Tudo o que construímos com respeito e jogo limpo foi por água abaixo."
Mais recentemente, um relatório da organização de direitos humanos Anistia Internacional também destacou abusos nos países anfitriões da Copa do Mundo, particularmente nos EUA.
Alemães se dizem céticos
Para Bengt Kunkel, torcedor da Alemanha, a Copa do Mundo deste ano será assistida pela televisão em casa, e não pessoalmente. Kunkel, que foi a vários jogos da Alemanha, não viajará para os Estados Unidos. "Tenho uma visão muito crítica da Copa do Mundo", disse ele. Trump é um grande problema, acrescentou. "Porque está tentando se apropriar da Copa do Mundo e explorá-la para sua agenda política."
"Além disso, existem as restrições à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão, além da condescendência política da Fifa ao conceder o Prêmio da Paz a Donald Trump", disse Kunkel, que também critica o custo para os torcedores .
"Calculamos que, só para a fase de grupos, provavelmente teríamos que gastar entre 5 mil e 8 mil euros (R$ 29,7 mil a R$ 47,6 mil)", explicou o torcedor alemão. "Este não é um torneio que agrade aos torcedores. Nada nesta Copa do Mundo me atrai, então ficou claro que eu não iria."
Os requisitos de entrada mais rigorosos para os fãs também são motivo de preocupação para o torcedor de 27 anos.
"Quando se trata de dizer: 'vamos verificar toda a atividade nas redes sociais de pessoas que desejam entrar nos EUA e ver se alguém curtiu ou publicou algo contra Donald Trump', isso não tem nada a ver com convidar o mundo para sua casa e querer celebrar uma festa do futebol."
Torcida continua, apesar de tudo
Kunkel sabe que a Copa do Mundo de 2026 está dividindo os torcedores no momento. "Mas eu entendo quem vai lá", disse Kunkel, acrescentando que não acredita que um boicote seja a solução.
"Apesar de tudo, não tem problema nenhum apoiar a seleção alemã. Então, vamos aproveitar ao máximo e ter uma Copa do Mundo brilhante."
Até Dennis e Kai admitem que "não é uma Copa do Mundo voltada para o público em geral". Mesmo assim, eles confiam que os Estados Unidos garantirão a segurança de todos e que será um festival de futebol fantástico.
"Queremos nos tornar campeões mundiais", disse Dennis. "Temos que ser uma equipe e agir como uma equipe, e se nós, torcedores, apoiarmos o time, podemos ir muito longe."