Território palestino foi fraturado pela expansão de colônias israelenses. Questões políticas, territoriais e populacionais estão entre os principais pontos de atrito.
Considerados ilegais sob o direito internacional, assentamentos israelenses na Cisjordânia se expandiram nos últimos anosFoto: Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images
Contudo, a crescente expansão de colônias israelenses – consideradas ilegais pela Corte Internacional de Justiça (CIJ), pelas Convenções de Genebra e pela esmagadora maioria dos Estados-membros da ONU – e o aumento da violência, que deixou cerca de mil palestinos mortos por soldados e colonos israelenses em pouco menos de dois anos, lançam dúvidas sobre a viabilidade da solução de dois Estados.
Ao final da guerra, em 1949, Israel detinha grande parte das terras originalmente destinadas a um Estado palestino.
Muitos dos mais de 750 mil palestinos que fugiram ou foram expulsos de suas casas na época da criação do Estado de Israel foram deslocados para a Cisjordânia – episódio ao qual os palestinos se referem como Nakba ("catástrofe"em árabe).
A Cisjordânia é um território de 5.655 quilômetros quadrados. Ali, os campos de refugiados são até hoje administrados pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA).
O território foi capturado por Israel em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e permanece sob ocupação desde então – a despeito de a maior parte da comunidade internacional não reconhecê-la.
A primeira colônia israelense foi construída na Cisjordânia no final da década de 1960. Essas edificações começaram a proliferar na década de 1980, e seu crescimento acelerou nos últimos anos. Atualmente, entre 500 mil e 800 mil colonos vivem ali, muitos em empreendimentos apoiados pelo Estado.
Embora a maioria dos colonos não seja militante, alguns se envolvem em atos de violência contra palestinos. Sucessivos governos israelenses legalizaram postos avançados antes não autorizados e expandiram as colônias, o que, segundo críticos, torna quase impossível a criação de um Estado palestino contíguo.
Após os atentados terroristas do grupo islamista Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, as forças israelenses intensificaram os ataques a campos de refugiados na Cisjordânia, como Jenin, Tulkarem e Nur Shams. Essas operações têm como alvo militantes, mas acabam também forçando o deslocamento de civis.
Enquanto isso, cresce o descontentamento com a Autoridade Palestina (AP), que administra o território, e seu líder de idade já bastante avançada, o presidente Mahmoud Abbas.
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Economia e política
Aproximadamente 3,2 milhões de palestinos viviam na Cisjordânia em 2023, de acordo com os números mais recentes disponíveis do Escritório Central de Estatísticas da Palestina.
Os palestinos têm uma das maiores taxas de alfabetização do mundo árabe, um setor de tecnologia em desenvolvimento e uma rica vida cultural. A agricultura, especialmente a olivicultura, continua sendo fundamental para a economia.
A Autoridade Palestina foi criada em 1994 sob os Acordos de Oslo. Liderada por Abbas e dominada pelo partido Fatah, a AP governa partes da Cisjordânia, mas exclui o Hamas – o grupo islamista é considerado uma organização terrorista por Alemanha, Estados Unidos, União Europeia (UE) e vários outros países.
Postos de controle, bloqueios e barreiras colocadas por Israel restringem a movimentação de palestinos na CisjordâniaFoto: Tania Kraemer/DW
Sob o 2º Acordo de Oslo, de 1995, a Cisjordânia foi dividida em três zonas:
• Zona A (18%): a AP tem controle civil e de segurança quase total, incluindo as principais cidades: Ramallah, Nablus e Belém. Há entre 2,5 e 3 milhões de palestinos na zona A.
• Zona B (22%): a Autoridade Palestina administra questões civis, mas Israel mantém total controle da segurança, com suas forças autorizadas a entrar em qualquer momento. Abriga entre 700 mil e 800 mil palestinos.
• Área C (60%): sob controle israelense total. Esta área contém todos os assentamentos e abriga de 500 mil a 800 mil israelenses, além de cerca de 300 mil palestinos.
Postos de controle, bloqueios frequentes de estradas e a barreiras de separação restringem a movimentação de palestinos até mesmo entre as zonas A e B, limitando o acesso deles a empregos e serviços.
Alguns políticos israelenses defendem a anexação da zona C, deixando as zonas A e B como pequenos enclaves palestinos – um plano fortemente contestado por palestinos, vizinhos árabes e pela maior parte da comunidade internacional.
A ONU, a União Europeia e a Liga Árabe ainda apoiam oficialmente a solução de dois Estados. Além disso, um número cada vez maior de países fora da região reconhecem o Estado palestino.
A longa história do processo de paz no Oriente Médio
Por mais de meio século, disputas entre israelenses e palestinos envolvendo terras, refugiados e locais sagrados permanecem sem solução. Veja um breve histórico sobre o conflito.
Foto: PATRICK BAZ/AFP/Getty Images
1967: Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU
A Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em 22 de novembro de 1967, sugeria a troca de terras pela paz. Desde então, muitas das tentativas de estabelecer a paz na região referiram-se a ela. A determinação foi escrita de acordo com o Capítulo 6 da Carta da ONU, segundo o qual as resoluções são apenas recomendações e não ordens.
Foto: Getty Images/Keystone
1978: Acordos de Camp David
Em 1973, uma coalizão de Estados árabes liderada pelo Egito e pela Síria lutou contra Israel no Yom Kippur ou Guerra de Outubro. O conflito levou a negociações de paz secretas que renderam dois acordos 12 dias depois. Esta foto de 1979 mostra o então presidente egípcio Anwar Sadat, seu homólogo americano Jimmy Carter e o premiê israelense Menachem Begin após assinarem os acordos em Washington.
Foto: picture-alliance/AP Photo/B. Daugherty
1991: Conferência de Madri
Os EUA e a ex-União Soviética organizaram uma conferência na capital espanhola. As discussões envolveram Israel, Jordânia, Líbano, Síria e os palestinos – mas não da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) –, que se reuniam com negociadores israelenses pela primeira vez. Embora a conferência tenha alcançado pouco, ela criou a estrutura para negociações futuras mais produtivas.
Foto: picture-alliance/dpa/J. Hollander
1993: Primeiro Acordo de Oslo
Negociações na Noruega entre Israel e a OLP, o primeiro encontro direto entre as duas partes, resultaram no Acordo de Oslo. Assinado nos EUA em setembro de 1993, ele exigia que as tropas israelenses se retirassem da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e que uma autoridade palestina autônoma e interina fosse estabelecida por um período de transição de cinco anos. Um segundo acordo foi firmado em 1995.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Sachs
2000: Cúpula de Camp David
Com o objetivo de discutir fronteiras, segurança, assentamentos, refugiados e Jerusalém, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, convidou o premiê israelense Ehud Barak e o presidente da OLP Yasser Arafat para a base militar americana em julho de 2000. No entanto, o fracasso em chegar a um consenso em Camp David foi seguido por um novo levante palestino, a Segunda Intifada.
Foto: picture-alliance/AP Photo/R. Edmonds
2002: Iniciativa de Paz Árabe
Após Camp David, seguiram-se encontros em Washington e depois no Cairo e Taba, no Egito – todos sem resultados. Mais tarde, em março de 2002, a Liga Árabe propôs a Iniciativa de Paz Árabe, convocando Israel a se retirar para as fronteiras anteriores a 1967 para que um Estado palestino fosse estabelecido na Cisjordânia e em Gaza. Em troca, os países árabes concordariam em reconhecer Israel.
Foto: Getty Images/C. Kealy
2003: Mapa da Paz
Com o objetivo de desenvolver um roteiro para a paz, EUA, UE, Rússia e ONU trabalharam juntos como o Quarteto do Oriente Médio. O então primeiro-ministro palestino Mahmoud Abbas aceitou o texto, mas seu homólogo israelense Ariel Sharon teve mais reservas. O cronograma previa um acordo final sobre uma solução de dois estados a ser alcançada em 2005. Infelizmente, ele nunca foi implementado.
Foto: Getty Iamges/AFP/J. Aruri
2007: Conferência de Annapolis
Em 2007, o então presidente dos EUA George W. Bush organizou uma conferência em Annapolis, Maryland, para relançar o processo de paz. O premiê israelense Ehud Olmert e o presidente da ANP Mahmoud Abbas participaram de conversas com autoridades do Quarteto e de outros Estados árabes. Ficou acordado que novas negociações seriam realizadas para se chegar a um acordo de paz até o final de 2008.
Foto: picture-alliance/dpa/S. Thew
2010: Washington
Em 2010, o enviado dos EUA para o Oriente Médio, George Mitchell, convenceu o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, a implementar uma moratória de 10 meses para assentamentos em territórios disputados. Mais tarde, Netanyahu e Abbas concordaram em relançar as negociações diretas para resolver todas as questões. Iniciadas em setembro de 2010, as negociações chegaram a um impasse dentro de semanas.
Foto: picture-alliance/dpa/M. Milner
Ciclo de violência e cessar-fogo
Uma nova rodada de violência estourou dentro e ao redor de Gaza no final de 2012. Um cessar-fogo foi alcançado entre Israel e os que dominavam a Faixa de Gaza, mas quebrado em junho de 2014, quando o sequestro e assassinato de três adolescentes em mais violência. O conflito terminou com um novo cessar-fogo em 26 de agosto de 2014.
Foto: picture-alliance/dpa
2017: Conferência de Paris
A fim de discutir o conflito entre israelenses e palestinos, enviados de mais de 70 países se reuniram em Paris. Netanyahu, porém, viu as negociações como uma armadilha contra seu país. Tampouco representantes israelenses ou palestinos compareceram à cúpula. "Uma solução de dois Estados é a única possível", disse o ministro francês das Relações Exteriores Jean-Marc Ayrault, na abertura do evento.
Foto: Reuters/T. Samson
2017: Deterioração das relações
Apesar de começar otimista, o ano de 2017 trouxe ainda mais estagnação no processo de paz. No verão do hemisfério norte, um ataque contra a polícia israelense no Monte do Templo, um local sagrado para judeus e muçulmanos, gerou confrontos mortais. Em seguida, o plano do então presidente dos EUA, Donald Trump, de transferir a embaixada americana para Jerusalém minou ainda mais os esforços de paz.
Foto: Reuters/A. Awad
2020: Tiro de Trump sai pela culatra
Trump apresentou um plano de paz que paralisava a construção de assentamentos israelenses, mas mantinha o controle de Israel sobre a maioria do que já havia construído ilegalmente. O plano dobrava o território controlado pelos palestinos, mas exigia a aceitação dos assentamentos construídos anteriormente na Cisjordânia como território israelense. Os palestinos rejeitaram a proposta.
Foto: Reuters/M. Salem
2021: Conflito eclode novamente
Planos de despejar quatro famílias palestinas e dar suas casas em Jerusalém Oriental a colonos judeus levaram a uma escalada da violência em maio de 2021. O Hamas disparou foguetes contra Israel, enquanto ataques aéreos militares israelenses destruíram prédios na Faixa de Gaza. A comunidade internacional pediu o fim da violência e que ambos os lados voltem à mesa de negociações.
Foto: Mahmud Hams/AFP
2023: Terrorismo do Hamas e retaliações de Israel
No início da manhã de 7 de outubro, terroristas do grupo radical islâmico Hamas romperam barreiras em alguns pontos da Faixa de Gaza, na fronteira com Israel, e, em território israelense, feriram e mataram centenas de pessoas, além de sequestrarem mais de uma centena. Devido a isso, Israel declarou "estado de guerra" e iniciou uma série de bombardeios, deixando partes da Cidade de Gaza em ruínas.