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EsporteArábia Saudita

Por que Arábia Saudita vem deixando de investir nos esportes

9 de maio de 2026

Poucas são as modalidades entre as mais populares, como futebol, tênis e MMA, que não têm apoio saudita. Mas o reino está se retirando do golfe e cancelando contratos. Seria o fim da era esportiva saudita?

Cristiano Ronaldo comemora gol pelo clube saudita Al Nassr
Contratação do astro do futebol Cristiano Ronaldo foi um dos grandes investimentos sauditas no esporteFoto: Mohammed Saad/Anadolu/picture alliance

Os enormes investimentos esportivos da Arábia Saudita, do futebol ao snowboard, têm sido um dos principais temas de debate no esporte na última década.

O rico Estado do Golfo Pérsico ofereceu salários astronômicos a jogadores de futebol no ocaso de suas carreiras, conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo de futebol após desenvolver fortes laços com o órgão máximo do futebol mundial, a Fifa; comprou um clube da liga de futebol inglesa, a Premier League; dividiu o mundo do golfe e buscou sediar todos os tipos de eventos, do snooker ao tênis feminino e à luta livre.

Essas extravagâncias estavam ligadas à estratégia Vision 2030, recentemente ajustada, que visa diversificar os interesses do país e reduzir a dependência do petróleo. A iniciativa é amplamente considerada uma forma de sportswashing, por meio da qual um país usa o esporte para "lavar" sua imagem e desviar a atenção de alegações de violações de direitos humanos.

De quais esportes a Arábia Saudita se retirou?

A desistência mais notável ocorreu na semana passada, no golfe. O LIV Golf, uma liga profissional de golfe operada pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF, na sigla em inglês), um braço do Estado, foi cancelado pelo país. O fundo alegou que o "investimento substancial" exigido pelo evento a longo prazo "não é mais consistente com a fase atual da estratégia de investimento do PIF".

Fundado em 2021, o LIV se separou do estabelecido PGA Tour – o principal circuito profissional de golfe masculino do mundo – e atraiu alguns de seus melhores jogadores com salários elevados. Com o LIV prestes a fechar as portas sem novos investimentos, o retorno desses jogadores ao PGA Tour se tornou um ponto de controvérsia.

No futebol, o PIF vendeu em abril uma participação de 70% no Al Hilal, clube da Liga Profissional Saudita, justificando a medida como uma "estratégia para maximizar retornos e reinvestir capital na economia doméstica". O fundo não fez nenhum movimento para vender o clube inglês Newcastle United e parece querer manter alguns investimentos no futebol, antes de o país sediar a Copa do Mundo de 2034.

Ex-número um do mundo no golfe Jon Rahm deixou a LIV Golf e agora enfrenta futuro incerto no esporteFoto: PETER PARKS/AFP

Outros esportes populares, como as artes marciais mistas (MMA), também parecem estar em uma situação mais segura por enquanto.

Ainda assim, vários eventos originalmente programados para o reino não serão mais realizados. O torneio Masters de snooker da Arábia Saudita foi cancelado na semana passada, dois anos após o início de um acordo de dez anos; a associação de tênis feminino (WTA) teve seu financiamento cortado e um evento de final de temporada cancelado. A Arábia Saudita também abandonou os planos de sediar a Copa do Mundo de Rugby de 2035 e os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029.

Por que interromper os investimentos em esportes?

Os motivos parecem ser tanto econômicos quanto políticos. Na semana passada, o administrador do PIF, Yasir al-Rumayyan, afirmou que a instituição estava "revisando seus investimentos e acordos" e "reavaliando suas prioridades" em decorrência das consequências da guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, bem como dos retornos mínimos obtidos com investimentos esportivos.

"A estratégia para 2026-2030 marca uma evolução natural, à medida que o PIF passa de um período de rápido crescimento e aceleração para uma nova fase de criação de valor sustentável, com foco reforçado na maximização do impacto, no aumento da eficiência dos investimentos e na aplicação dos mais altos padrões de governança, transparência e excelência institucional", declarou o fundo, em comunicado à imprensa.

Como é típico na Arábia Saudita, Al-Rumayyan também é presidente do Newcastle, da estatal petrolífera saudita Aramco e da maior mineradora do país, a Ma'aden. Ele é um aliado próximo do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman. Esses tipos de relacionamentos e cargos interligados ajudam o governo a manter o controle de seus ativos esportivos, enquanto a Aramco também patrocina diversos eventos esportivos de grande repercussão. Um investimento tão amplo e diversificado torna complexo desvendar a relação da Arábia Saudita com o esporte.

Por que o investimento saudita no esporte é controverso?

A ONG Human Rights Watch (HRW), assim como a maioria das demais organizações de direitos humanos, considera isso um caso claro de sportswashing.

"Os investimentos do PIF em eventos esportivos e de entretenimento de grande repercussão, tanto nacionais quanto internacionais, são usados para encobrir o péssimo histórico de direitos humanos do país", afirmou a HRW.

Apesar de protestos, alguns torcedores do Newcastle viram com bons olhos a aquisição do clube pelos sauditas Foto: Paul Ellis/AFP/Getty Images

Embora tenha havido alguma discordância no mundo esportivo, o dinheiro saudita tem circulado com bastante liberdade na maioria das modalidades.

No futebol, a Arábia Saudita precisou desenvolver uma relação próxima com a Fifa, enquanto outros esportes com menos recursos financeiros não conseguiram resistir à tentação do investimento. Críticos argumentam que isso deixa muitos esportes em uma posição precária caso o fluxo de dinheiro saudita seja interrompido, como ocorre agora.

Quais outros esportes podem perder o financiamento saudita?

A Fórmula 1 pode estar em risco, já que o Grande Prêmio da Arábia Saudita foi cancelado em abril devido à guerra no Irã. Além da corrida, o PIF detém participação em duas equipes e a Aramco – a empresa estatal de petróleo e gás do país – é uma das principais patrocinadoras da F1. Corridas de cavalos, xadrez, handebol e muitos outros esportes também dependem, em certa medida, de uma relação esportiva com a Arábia Saudita.

Ao que parece, essas e outras modalidades esportivas que dependem de investimentos sauditas precisarão demonstrar uma lucratividade que não tiveram até agora para não se tornarem o próximo LIV Golf.

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