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Por que Lulinha virou alvo da CPMI do INSS?

Publicado 27 de fevereiro de 2026Última atualização 28 de março de 2026

Relator de investigação no Congresso sobre esquema de fraudes pediu indiciamento do filho do presidente e mais 215 pessoas, incluindo ex-ministros de Lula e Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Presidente Lula ao lado dos filhos Fábio Luis e Luis Cláudio na missa de um ano da morte da ex-primeira-dama Marisa Leticia em São Bernardo do Campo
Ao centro, Fábio Luís Lula da Silva é investigado por possível conexão a esquema de fraudes do INSSFoto: NELSON ALMEIDA/AFP

A oposição no Congresso viu falhar sua tentativa de emplacar um pedido de indiciamento contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e outras 215 pessoas supostamente envolvidas no escândalo das fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). 

O relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), deputado federal Alfredo Gaspar (PL‑AL), não conseguiu angariar o apoio necessário para o seu texto antes do encerramento da CPMI, na madrugada deste sábado (28/3). 

Com a mobilização da base governista, o relatório foi rejeitado por 19 votos a 12, apesar de a oposição controlar os principais cargos da CPMI. 

A investigação parlamentar mirou um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social entre 2019 e 2024 — período que cobre tanto o governo Lula quando o de seu antecessor, Jair Bolsonaro (PL; 2019-2022). 

A CPMI, contudo, acabou virando seus holofotes muito mais para nomes ligados ao governo Lula. 

A estratégia da oposição era estender a investigação até o período da campanha, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) barrou a prorrogação dos trabalhos, sob o argumento de que isso não seria compatível com as regras do próprio Congresso. 

Lulinha é suspeito de receber repasses do "Careca do INSS" — apontado pela Polícia Federal (PF) como operador do esquema de fraudes — através da empresária Roberta Luchsinger.  

Além dele, Gaspar também havia pedido o indiciamento de diversas figuras que ocupam ou ocuparam cargos no governo federal durante as gestões de Lula e Bolsonaro (PL). A lista (saiba mais abaixo) incluía ainda parlamentares e o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master.  

Instaurada em agosto do ano passado, a investigação parlamentar expôs problemas no sistema de autorização de descontos e de fiscalização dentro do INSS.   

Os congressistas ouviram servidores do INSS, representantes de entidades investigadas, aposentados atingidos pelos descontos, além de integrantes da PF, da Controladoria-Geral da União e do Ministério da Previdência.  

Também aprovaram quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático de investigados – um dos atingidos foi o próprio Lulinha. Antes, a medida já havia sido solicitada pela PF e autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF. 

Por que Lulinha entrou na mira dos congressistas? 

A PF afirma haver "fundada suspeita" de que Lulinha teria recebido pelo menos um pagamento de R$ 300 mil do lobista Antônio Camilo Antunes, popularmente chamado de "Careca do INSS".   

Antunes é apontado como principal operador do esquema, que durou de 2019 a 2024. A PF acredita que o filho do presidente possa ter atuado como seu sócio oculto – algo repetido por Gaspar em seu relatório. Antunes está preso desde setembro. 

Ao justificar a quebra de sigilo de Lulinha, a CPMI citou uma suposta viagem de avião que ele teria feito ao lado de Antunes a Lisboa em 2024, ambos na primeira classe de um voo da Latam. 

Não está claro, entretanto, o nível de potencial envolvimento de Lulinha no esquema, uma vez que ele é citado por terceiros, sem que haja indício de participação direta. 

Um dos interesses de Antunes seria que Lulinha fizesse lobby em favor da sua empresa de venda de canabidiol, a fim de fechar contratos com o Ministério da Saúde.  

"Está provado que o dinheiro roubado de aposentados e pensionistas foi utilizado em benefício de Lulinha para a aquisição, por Careca do INSS, de passagens de primeira classe em voos internacionais, bem como hospedagens de luxo em países europeus", escreveu Gaspar no relatório que acabou rejeitado. 

Apesar de ter tido os sigilos quebrados, Lulinha não foi indiciado – ou seja, alvo de uma investigação formal – até agora. 

"O filho do rapaz"

A tese dos investigadores é que Lulinha teria sido citado em conversas trocadas entre Antunes e um lobista. As mensagens chamavam o destinatário do pagamento de R$300 mil como "o filho do rapaz", supostamente Lulinha. Não há certeza, entretanto, sobre a associação com o apelido. 

A empresária Roberta Luchsinger é, por sua vez, apontada como possível intermediária entre Antunes e Lulinha. Ela teria recebido diversos pagamentos do "Careca do INSS", somando R$1,5 milhão, que seriam depois repassados a terceiros. Além disso, Luchsingerseria amiga do filho do presidente.

A defesa da empresária nega irregularidades e afirma que ela "prestou serviços regularmente, recebeu os valores correspondentes e não os repassou a ninguém".

Em dezembro, quando surgiram os primeiros indícios de citação ao nome de Lulinha no caso do INSS, o advogado Marco Aurélio de Carvalho disse ao site Poder360 que as alegações eram "fofocas e vilanias" para prejudicar a sua família e o governo federal. À época, Lula afirmou que, se o filho estivesse envolvido no esquema, seria investigado.

Em nota, a defesa de Lulinha afirma que o cliente não tem relação com as fraudes, não tendo participado de desvios nem recebido quaisquer valores de fontes criminosas.  

Quem é Lulinha

Lulinha é o filho mais velho de Lula com Marisa Letícia. Biólogo formado pela Universidade Paulista (Unip), começou a carreira como estagiário do Zoológico de São Paulo. Pouco tempo depois, se tornou sócio de uma empresa que atua no ramo de jogos eletrônicos. Em 2019, foi denunciado pelo suposto recebimento de vantagens indevidas da Oi/Telemar entre 2004 e 2016.

No ano seguinte, Lulinha foi alvo da Operação Lava Jato, suspeito de receber repasses da Oi/Telemar em troca de decisões favoráveis à empresa durante os governos petistas. Todos esses processos foram arquivados.

Segundo o portal Metrópoles, Lulinha estaria morando na Espanha desde julho, onde ele teria sido contratado para trabalhar numa empresa em Madri.

Quem mais está no relatório da CPMI do INSS? 

  • José Carlos Oliveira, ex-ministro do Trabalho e Previdência de Bolsonaro: Apontado como facilitador e beneficiário do esquema de descontos indevidos do INSS 
  • Carlos Lupi, ex‑ministro da Previdência de Lula: Acusado de prevaricar e blindar politicamente funcionários do INSS envolvidos no esquema 
  • Weverton Rocha (PDT‑MA), senador: Acusado de dar suporte institucional a organização criminosa 
  • Daniel Vorcaro, dono do banco Master: Acusado de falhar com seu dever de supervisionar os negócios do banco, que se beneficiou do esquema de desvios de aposentadorias 

O relatório de Gaspar incluía ainda diversos nomes de dirigentes e ex-dirigentes do INSS, da Dataprev e de outros órgãos, além de supostos operadores e beneficários do esquema, entre eles o "Careca do INSS" e a própria Roberta Luchsinger. 

Como funcionava a "farra do INSS"?

O esquema veio à tona em abril de 2025, quando foi deflagrada a Operação Sem Desconto. A primeira fase cumpriu 211 mandados de busca e apreensão e outros seis de prisão temporária em 13 estados e no Distrito Federal.  

O esquema envolvia associações de classe que cobravam um valor de aposentados e pensionistas para a realização de serviços como assessoria jurídica ou convênios com academias e planos de saúde.

Esse dinheiro podia ser descontado de forma lícita, diretamente da folha de pagamento dos beneficiários, desde que houvesse consentimento explícito. As entidades também precisavam assinar um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o INSS.

Uma Medida Provisória de 2019 tentou regulamentar o arranjo ao estabelecer uma revisão periódica dos descontos em vigor, mas o Congresso derrubou as normas em 2022, após pressão do setor.

Em 2023, a Controladoria Geral da União (CGU) identificou o aumento na reclamação de débitos indevidos e abriu as investigações. O volume de recursos descontados saltou de R$ 617 milhões em 2019 para R$ 2,8 bilhões em 2024.  A partir de junho do ano passado, a PF instaurou 12 inquéritos sobre o caso.  

Os órgãos, então, descobriram que os descontos estavam sendo realizados sem a autorização dos aposentados e pensionistas. Há indícios, inclusive, de falsificação de documentos para simular o aval.

Ex-servidores do INSS beneficiados

A PF apontou a existência de um conluio entre as entidades investigadas para operar repasses a ex-servidores do alto escalão do INSS.

Ao menos três ex-dirigentes teriam recebido mais de R$ 17 milhões por meio de intermediários: Virgílio Antônio, ex-procurador-geral, André Fidélis, ex-diretor de Benefícios, e Alexandre Guimarães, ex-diretor de Governança do INSS durante o governo de Jair Bolsonaro.

Antunes, por sua vez, teria movimentado R$ 24,5 milhões em cerca de 5 meses, e era procurador com "plenos poderes" para representar algumas das entidades. Pessoas e empresas ligadas a ele receberam ao menos R$ 48 milhões das associações suspeitas.

ht/cn/ra (Agência Brasil, ots)

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