Por que o Hezbollah é importante para o Irã?
10 de junho de 2026
A situação no Oriente Médio permanece tensa. Apesar de um cessar-fogo frágil entre o Irã de um lado e Israel e os Estados Unidos do outro, as duas partes do conflito seguem trocando hostilidades e ameaças.
Ainda na madrugada desta quarta-feira (10/06), houve um novo confronto militar entre Teerã e Washington, após um helicóptero do Exército dos EUA ter sido abatido no Estreito de Ormuz. Antes disso, no fim de semana, o Exército israelense já havia bombardeado alvos nos subúrbios de Beirute, numa retaliação a ataques com foguetes do Hezbollah, aliado xiita do Irã, contra o norte de Israel. Pouco depois, Teerã respondeu com mísseis contra território israelense. Israel, por sua vez, revidou com ataques a alvos no Irã.
As recentes escaladas ameaçaram frustrar os esforços por um acordo, defendido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para resolver o conflito na região.
Estratégia regional do Irã sob pressão
"Do ponto de vista iraniano, a prioridade central no momento é garantir que o Hezbollah seja considerado em possíveis acordos políticos e negociações de paz", diz o especialista em Oriente Médio Arman Mahmoudian, da University of South Florida. Qualquer acordo exigiria concessões mútuas, avalia.
Para Teerã, no entanto, é crucial que o Hezbollah não se torne objeto de negociação. O regime iraniano considera que a questão vai muito além do Hezbollah: o que está em jogo é sua influência regional.
"Se o Hezbollah continuar sob ataque israelense e ao mesmo tempo surgir a impressão de que Teerã o abandonou, isso pode ter consequências significativas para o Irã e abalar a confiança de outros atores alinhados ao país na região — como os houthis no Iêmen ou milícias xiitas no Iraque. Afinal, o Hezbollah entrou nesse conflito principalmente por lealdade ao Irã e atacou Israel após a morte de Khamenei", pontua Mahmoudian.
Após o início da guerra com o Irã em 28 de fevereiro e a morte do chefe de Estado iraniano, aiatolá Ali Khamenei, a milícia libanesa Hezbollah disparou foguetes contra Israel e passou a atuar ao lado de Teerã no conflito. Israel respondeu com bombardeios nos subúrbios do sul da capital Beirute e em outras partes do país vizinho ao norte. Como consequência, a guerra se ampliou para o Líbano.
O Hezbollah como organização multifuncional
O grupo xiita surgiu no início dos anos 1980, durante a guerra civil libanesa e após a invasão israelense no Líbano. No país, vivem além de sunitas (cerca de 32%), aproximadamente 31% de xiitas, além de diversas comunidades cristãs, drusos e alauítas.
O Irã, que também segue o ramo xiita do islamismo, desempenhou um papel decisivo na sua fundação após a Revolução Islâmica de 1979 e apoia a organização financeiramente, militarmente e ideologicamente.
O movimento possui uma ala armada, mas também atua como partido político representado no Parlamento libanês, além de manter algumas instituições sociais.
A Alemanha, os Estados Unidos e vários outros países classificam o Hezbollah total ou parcialmente como uma organização terrorista. Na Alemanha, as atividades do grupo estão proibidas desde 2020.
Ao mesmo tempo, o Hezbollah é hoje considerado significativamente enfraquecido. Nos últimos anos, ataques militares israelenses reduziram fortemente suas capacidades militares e sua estrutura de liderança. Ainda assim, a organização conseguiu se reerguer parcialmente, de forma semelhante ao que ocorreu após a guerra do Líbano em 2006.
Custos crescentes da confrontação com Israel
O Hezbollah é, há décadas, um elemento central da estratégia regional iraniana. O especialista em Irã Arash Azizi descreve essa lógica como "forward defence" (defesa avançada). Segundo essa abordagem, o Irã tenta dissuadir ameaças potenciais o mais longe possível de seu próprio território, contando para isso com a ajuda de aliados.
No entanto, essa estratégia se inverteu parcialmente. Hoje, o Irã se vê cada vez mais obrigado a proteger ativamente seus aliados e a executar ataques diretos contra Israel, bem como aceitar contra-ataques em seu próprio território e infraestrutura.
A nova liderança iraniana procura justificar o apoio ao Hezbollah mais com base em interesses de segurança nacional do que em argumentos ideológicos, ressalta Arash Azizi.
"No entanto, permanece o argumento de que o Irã, como Estado que se vê em conflito com Israel, não pode simplesmente abandonar seus aliados regionais", afirma.
Ao mesmo tempo, os custos de novas confrontações com Israel são elevados para o Irã. Os danos econômicos da guerra são consideráveis, as condições de vida de grande parte da população pioraram e as perspectivas econômicas continuam difíceis.
"A nova liderança terá de enfrentar não apenas desafios de segurança e política externa, mas também responder à pergunta sobre qual visão de futuro pode oferecer à população iraniana."
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